segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Roberto Brant: O que o caso Master está a nos dizer

"O que torna o caso Master um evento tectônico é o que foi, aos poucos, sendo revelado, mesmo que de forma incompleta e fragmentada, por meio de vazamentos que conseguiram romper o alto grau de sigilo imposto ao caso por um ministro do Supremo Tribunal Federal"

Por Roberto Brant, Correio Braziliense,  09/02/2026 06:03
"Quase tudo o que se relaciona ao caso Master ainda não é de conhecimento público" - (crédito: Rovena Rosa/Agencia Brasil)
Apesar dos ruídos e das tensões que percorrem os ares de Brasília, prenunciando que algo grande e inconveniente pode estar para acontecer, quase tudo o que se relaciona ao caso Master ainda não é de conhecimento público.

A insolvência de uma instituição financeira pouco relevante, por si só, não despertaria atenção, pois é um fato normal no mundo dos negócios. Como gostava de dizer o saudoso Delfim Neto, capitalismo sem falência é o mesmo que catolicismo sem inferno. Neste caso específico, nem a chamada economia popular foi atingida severamente. Os danos e os prejuízos parecem circunscritos aos limites da alta finança.

Os recursos públicos envolvidos estão concentrados no Banco de Brasília, já que uma tentativa anterior, que envolvia a Caixa Econômica Federal, foi evitada a tempo, embora com o sacrifício de seus servidores técnicos de carreira, que ousaram resistir aos políticos da área. Instituições infinitamente maiores, como o Banco Nacional e o Bamerindus, por exemplo, foram liquidadas sem reação política ou judicial. Eram outros tempos — senão em tudo, pelo menos no reino da política e das instituições públicas. Não que reinasse a inocência entre os homens, mas os comportamentos eram mais contidos, pelo medo da desonra, por certo respeito à opinião pública e porque a política ainda não era dominada por pessoas, mas por partidos impessoais.

O que torna o caso Master um evento tectônico é o que foi, aos poucos, sendo revelado, mesmo que de forma incompleta e fragmentada, por meio de vazamentos que conseguiram romper o alto grau de sigilo imposto ao caso por um ministro do Supremo Tribunal Federal. O Master errou nas boas práticas de gestão financeira, mas foi competente para construir uma rede extensa de conexões com agentes dos três Poderes da República, cujo desvendamento revela conflitos de interesses e comportamentos indefensáveis para autoridades públicas.

Nada do que foi até agora trazido a público consegue ser explicado. Sabemos ainda pouco, por causa do sigilo e do controle das investigações, mas este pouco que sabemos é suficiente para provocar um terremoto na República, na medida em que atinge a cúpula do Poder Judiciário, parte importante da elite do Congresso e dos partidos e até o governo, que não tem explicações para as indicações dos ex-ministros Mantega e Lewandowski para posições de extravagante remuneração numa empresa cujas práticas atípicas eram — ou deveriam ser — do conhecimento das autoridades. Causa estranheza como pessoas poderosas e experimentadas foram acessíveis a ligações com uma empresa tão fora de qualquer padrão.

Graças à ação da imprensa democrática, as investigações vão se estender e cobrir tudo o que merece ser investigado, abortando as conspirações para o seu abafamento. Vários segredos de polichinelo vão ser revelados, justamente num ano de eleições, quando os brasileiros merecem saber tudo sobre os seus políticos e o país precisa, dramaticamente, de reformas institucionais de fundo, que só eleições em tempos de crise podem propiciar.

Minha grande angústia é saber, a esta altura, se o Master foi apenas um caso isolado ou se esse tipo de promiscuidade é mais uma regra do que uma exceção no relacionamento do mundo dos negócios com as autoridades. Quem sabe se essas teias de relações ilícitas não são atualmente o modelo padrão de funcionamento da política brasileira e só vieram à tona neste caso porque a empresa fracassou? Quantos negócios não fracassados e bem geridos continuam turbinados por essas conexões, que garantem privilégios legislativos, judiciais e administrativos? E quantos encontros informais, fora da agenda, com as principais autoridades do país?

O Brasil tem sido um enigma para observadores internacionais que, conhecendo o país e seus enormes e variados recursos, não conseguem entender por que não somos um país muito mais rico, comparável à Espanha e a Portugal, por exemplo. Talvez, o caso Master, ao retirar a grande máscara que cobre as fachadas graciosas dos três Poderes, seja a triste resposta a esse doloroso enigma.

António José Seguro, do Partido Socialista, é eleito presidente de Portugal

Mundo

Com 95% das urnas apuradas, o socialista tem 66% dos votos contra 34% do ultradireitista André Ventura

Brasil 247, 08 de fevereiro de 2026, 19:01 hAtualizado em 08 de fevereiro de 2026, 21:44 h

António José Seguro (Foto: REUTERS/Rodrigo Antunes)

Artigo de Otávio Rosso

O candidato socialista moderado António José Seguro venceu de forma expressiva o segundo turno da eleição presidencial em Portugal, realizado neste domingo, ao derrotar o representante da extrema direita André Ventura, líder do partido Chega. Com 99% das urnas apuradas, Seguro obteve quase 67% dos votos válidos, contra 33% do adversário.

Aos 63 anos, António José Seguro tem formação acadêmica em Relações Internacionais e é mestre em Ciência Política. Sua trajetória política inclui atuação como deputado em Portugal e também no Parlamento Europeu durante os anos 1990.

Entre 2001 e 2002, Seguro ocupou o cargo de ministro-adjunto no governo do então primeiro-ministro António Guterres, atualmente secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O histórico político e institucional do socialista foi apontado como um dos elementos centrais de sua candidatura.

Com a vitória, António José Seguro assume a Presidência da República em março, substituindo Marcelo Rebelo de Sousa, que foi eleito pelo Partido Social Democrata (PSD) e atualmente está sem filiação partidária.

Em Portugal, o presidente exerce o papel de chefe de Estado, mas não de governo. A condução do Executivo cabe ao primeiro-ministro, função ocupada desde 2024 por Luís Montenegro, do PSD, legenda de centro-direita.

Em discurso após a confirmação do resultado, em Lisboa, Seguro afirmou que a eleição representou uma vitória coletiva e ressaltou o papel da população diante das dificuldades recentes provocadas por fenômenos climáticos. “Os vencedores da noite são os portugueses e a democracia. Os portugueses por terem, em condições muito adversas, superado mais um desafio”, declarou.

Ao comentar a disputa com André Ventura, que reconheceu a derrota pouco antes, Seguro afirmou que pretende buscar unidade institucional e respeito democrático após a campanha. “Todos os que concorreram comigo merecem o meu respeito”, afirmou, acrescentando que “a partir desta noite deixamos de ser adversários” para “partilhar a luta por um Portugal mais desenvolvido e mais justo”.

Ainda em seu discurso, o socialista reforçou sua visão sobre o papel da política como instrumento de transformação social. “Lembro-me que a política pode ser serviço e mudar vidas. Que as pessoas merecem sempre mais. Continuo a pensar igual, sou um de vocês”, declarou.

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

“Lula precisa de uma frente mais ampla que o PT e tem de ocupar o centro”, diz Renan Filho

Ministro dos Transportes afirma que oferecer a vice ao MDB pode facilitar apoio em 2026

Brasil 247, 08 de fevereiro de 2026, 05:47 h

Renan Filho e Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Matéria de Redação Brasil 247

O ministro dos Transportes, Renan Filho, defendeu que o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para 2026 caminhe “o máximo possível do centro político”, com uma articulação mais ampla do que a base tradicional do PT. Em entrevista, ele afirmou que a eventual oferta da vaga de vice ao MDB pode ajudar na negociação pelo apoio formal do partido e disse que a estratégia deve isolar o bolsonarismo na extrema direita.

A entrevista foi publicada pelo jornal O Globo e traz, além do cálculo eleitoral, avaliações sobre o cenário em Alagoas, críticas ao papel de Arthur Lira no estado e a defesa de medidas do governo, como a reforma no processo de obtenção da CNH. Renan Filho também comentou a disputa sobre o vice, citou a ministra Simone Tebet como quadro competitivo no debate público e afirmou que o Ministério dos Transportes pode contratar mais de R$ 400 bilhões em investimentos em quatro anos.

MDB, vice e a aposta no centro político

Renan Filho avaliou que o MDB, por sua capilaridade e peso institucional, pode ser decisivo para ampliar o arco de alianças do presidente Lula. Ele observou que o partido só define oficialmente seu caminho em convenção, mas sinalizou confiança na ala governista para vencer a disputa interna por apoio ao Planalto.

Ao tratar do desenho da chapa, o ministro defendeu uma composição que amplie a competitividade e reforce a centralidade política do projeto. "O MDB é muito importante para ampliar, do ponto de vista administrativo e ideológico, a candidatura do presidente Lula. Precisa construir uma frente mais ampla do que o PT e do que o próprio presidente Lula, a fim de ocupar o máximo possível do centro político, isolando o bolsonarismo na extrema direita." Na mesma resposta, ele associou esse movimento à fragmentação do campo conservador e ao reposicionamento de possíveis candidaturas no espectro da direita.

Questionado sobre a possibilidade de a vice ser oferecida ao MDB, Renan Filho afirmou que a negociação dependerá de um pacote mais amplo, que inclui diretrizes econômicas e participação no governo. "A negociação será ditada pela proposta para os próximos quatro anos, a linha da economia... E, sim, a própria participação (do MDB) no governo e a composição da chapa." Para o ministro, lideranças emedebistas pressionam por mais espaço por terem projetos políticos próprios.

Alckmin, debate sobre a vice e o próprio futuro de Renan

A entrevista também trouxe uma leitura sobre as sinalizações do presidente Lula a respeito de Geraldo Alckmin. Renan Filho disse ver naturalidade no debate sobre a melhor composição eleitoral para 2026, mas ressaltou a contribuição do vice-presidente no primeiro mandato.

"O presidente está verificando qual é a melhor aliança que amplia a possibilidade de reeleição. E digo isso com a certeza de que o vice-presidente Geraldo Alckmin é um grande vice e ampliou essa aliança neste primeiro mandato. Haverá um novo debate sobre isso." Na sequência, ao ser perguntado se poderia ser vice, Renan afirmou que seu foco é a pré-candidatura ao governo de Alagoas, embora participe das discussões sobre o tema.

No cenário local, o ministro descreveu uma conjuntura ainda em aberto, influenciada por decisões do prefeito de Maceió, JHC, sobre concorrer ao governo ou ao Senado. Ele negou ter pedido ao prefeito que abrisse mão de disputar e destacou o tamanho do MDB no estado, citando a força municipal, a maioria na Assembleia e a presença no Senado. Sobre a montagem das chapas, indicou que uma das vagas ao Senado será do senador Renan Calheiros e relativizou a necessidade de fechar todas as definições desde já.

Alagoas, Arthur Lira e a disputa por palanques

Renan Filho afastou a hipótese de estar numa mesma aliança estadual com o deputado Arthur Lira (PP-AL), mesmo reconhecendo que o presidente Lula pode buscar o maior número de apoios possível. Na entrevista, ele fez críticas diretas ao papel de Lira no período recente e ao impacto disso para Alagoas, além de usar uma imagem esportiva para ilustrar o argumento.

"O presidente Lula deve ter o maior número de apoios possível, mas isso não implica estarmos no mesmo palanque do Lira, que atrapalha o estado. Ele mandou no Orçamento Secreto no governo Bolsonaro, mas não tem uma obra relevante no estado que tenha sido liderada por ele. Seria trazer para o seu time aquele que faz o gol contra." Ao mesmo tempo, Renan afirmou que isso não significa defender que Lira esteja impedido de apoiar Lula nacionalmente, e comentou que o deputado não votou na última eleição.

A fala expõe uma tensão típica de anos pré-eleitorais: alianças nacionais podem se chocar com rivalidades regionais, especialmente em estados onde grupos políticos mantêm disputas históricas e controle de estruturas partidárias. Renan Filho, ao se colocar como pré-candidato, indica que pretende preservar um palanque próprio em Alagoas, com base no peso do MDB local e no apoio do presidente Lula na eleição estadual.
CNH, segurança no trânsito e “política pública popular”

A entrevista avançou para temas de governo com grande impacto cotidiano, como as mudanças no processo de obtenção da CNH e as críticas relacionadas ao exame de baliza. Renan Filho defendeu a reforma e afirmou que a baliza não é um filtro confiável de capacidade de direção, além de sustentar que o antigo modelo estimulava reprovações.

"A crítica não é justa. A baliza não seleciona quem sabe ou não dirigir, e a pessoa não vai não vai deixar de aprender, ela só não vai constar na prova. O exame tinha virado uma indústria da reprovação." Em seguida, ele minimizou o argumento de que a mudança reduziria a segurança e apontou outros fatores como determinantes para acidentes, como velocidade, álcool e uso de celular ao volante.

Para o ministro, trata-se de uma medida que dialoga com demandas sociais e pode ter capilaridade eleitoral por atingir diretamente a vida das pessoas. "É uma política pública popular que vai na direção do que as pessoas precisam. Chega na ponta, o que obviamente tem força." A leitura sugere que, em 2026, além de alianças, o governo buscará apresentar entregas com percepção direta, capazes de competir com agendas punitivistas e discursos fáceis.
Segurança pública, Tebet e o caso Banco Master

Renan Filho também falou sobre a segurança pública, tema que deve ganhar centralidade na campanha. Ele afirmou não ver fragilidade do governo no assunto e tentou deslocar o debate para resultados concretos, criticando gestos simbólicos e contrapondo indicadores de gestões estaduais associadas à direita.

Na entrevista, ele citou possíveis embates políticos e disse que seria “muito legal de ver” confrontos entre figuras do governo e nomes ligados à segurança pública em estados como São Paulo. Também defendeu que Simone Tebet seja valorizada pelo MDB, argumentando que partidos que não usam seus melhores quadros por interesses de terceiros perdem força e que, se não houver espaço, ela pode ser convidada por outras siglas.

Sobre o Banco Master e o encontro do presidente Lula com Daniel Vorcaro fora da agenda, Renan Filho buscou dissociar o governo do caso e afirmou que as investigações ocorrem na atual gestão. "O governo não tem relação com esse caso. O presidente Lula recebeu o Vorcaro como recebeu outros representantes de instituições financeiras do Brasil. São muito claras as ligações do Master com a oposição." Ele disse ainda que o tema deve ser explorado eleitoralmente e o descreveu como potencialmente o maior desfalque do sistema financeiro nacional.

Leilões, infraestrutura e meta de R$ 400 bilhões

No encerramento, o ministro tratou de sua área e afirmou que o Ministério dos Transportes ampliou a capacidade de atrair investimento privado, com expectativa de uma agenda robusta de leilões em 2026. Ele indicou que, se deixar o cargo em março, pode realizar dois leilões diretamente, mas assegurou que o restante está programado para ser cumprido.

Renan Filho disse que o governo pode chegar a 23 leilões em 2026, entre rodovias e ferrovias, e destacou o efeito fiscal da estratégia. "Isso aumenta o investimento em infraestrutura e desonera o Tesouro. Vamos chegar a mais de R$ 400 bilhões de investimentos contratados em quatro anos." A declaração aponta para uma linha narrativa que deve ganhar destaque no período eleitoral: a defesa de um ciclo de investimentos e obras como evidência de capacidade de gestão e de retomada econômica, combinada a uma articulação política mais ampla para sustentar governabilidade e isolar a extrema direita.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Petrobras investirá R$ 6 bilhões em sua primeira biorrefinaria, diz Magda Chambriard

Economia

Projeto de transformação da Refinaria Riograndense marca produção de combustíveis "100% bio" no Brasil

Brasil 247, 20 de janeiro de 2026, 18:31 h

Presidente da estatal brasileira Petrobras, Magda Chambriard, fala durante um evento na Refinaria Duque de Caxias, em Duque de Caxias, Brasil 04/07/2025 
(Foto: REUTERS/Tita Barros)

Artigo de Paulo Emilio

A Petrobras anunciou um investimento de R$ 6 bilhões para transformar a Refinaria Riograndense, no município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, na primeira biorrefinaria do Brasil. A iniciativa insere a estatal em uma nova etapa do refino nacional, com foco na produção de combustíveis e derivados de origem totalmente renovável. O projeto foi anunciado pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante cerimônia realizada nesta terça-feira (20), e o início da conversão da unidade está previsto para o segundo semestre.

"Estamos programando para o segundo semestre o início da transformação da Riograndense na primeira biorrefinaria do Brasil, que vai produzir produtos 100% bio. Essa transformação vai demandar R$ 6 bilhões. É a expansão do refino da Petrobras", afirmou Chambriard, de acordo com o jornal O Globo.

Investimento marca nova etapa do refino no Brasil

Localizada no extremo sul do país, a Refinaria Riograndense tem como sócias, além da Petrobras, as empresas Ultra e Braskem. A unidade vem sendo preparada para a mudança desde o início do ano passado, quando passaram a ser realizados testes de coprocessamento de biomassa associada à carga mineral.
Testes antecedem conversão da unidade

Em 2023, a refinaria produziu combustíveis e insumos destinados à indústria a partir de processos que utilizaram exclusivamente óleo vegetal. Os testes serviram de base técnica para o projeto de conversão total da unidade em biorrefinaria, consolidando a viabilidade do modelo produtivo.

Capacidade e perfil da Refinaria Riograndense

A unidade possui capacidade instalada de cerca de 17 mil barris por dia e produz atualmente gasolina, diesel, GLP e nafta voltada à indústria petroquímica. Apesar de seu porte menor quando comparado a refinarias como a Reduc, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, a Riograndense assume papel estratégico na política de transição energética da companhia.
Programa Mar Aberto amplia frota e reduz emissões

O anúncio do investimento ocorreu durante a assinatura de contratos do Programa Mar Aberto, voltado à renovação e ampliação da frota da Transpetro, subsidiária da Petrobras, em evento que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, Magda Chambriard confirmou a contratação de cinco navios gaseiros, além de 18 barcaças e 18 empurradores, com investimentos que totalizam R$ 2,8 bilhões.

Segundo a presidente da estatal, os gaseiros serão construídos pelo Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul. As barcaças ficarão a cargo do estaleiro Bertolini Construção Naval da Amazônia, no Amazonas, enquanto os empurradores serão produzidos pela Indústria Naval Catarinense, em Santa Catarina. "Temos encomendas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia e agora no Amazonas. Isso vai se somar a R$ 1,4 bilhão que está sendo destinado à construção de outras embarcações", disse.

Magda destacou ainda que a ampliação da frota própria reduzirá a dependência de afretamentos, aumentando a flexibilidade e a eficiência das operações logísticas de GLP. "Os gaseiros anunciados hoje são 20% mais eficientes e emitem 30% menos gases de efeito estufa", afirmou, acrescentando que as embarcações "estarão aptas a operar em portos eletrificados".

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Estados governados pela oposição foram os mais dependentes da União em 2025

Relatório do Tesouro mostra que governos estaduais críticos a Lula concentraram a maior parte do socorro federal para pagamento de dívidas garantidas

Brasil 247, 20 de janeiro de 2026, 06:54 h

Governadores Eduardo Leite (RS), Romeu Zema (MG) e Claudio Castro (RJ) 
(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Artigo de Guilherme Levorato

Os estados administrados por partidos de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foram, em 2025, os que mais dependeram do apoio financeiro da União para evitar a inadimplência em compromissos com bancos e organismos internacionais. Ao longo do ano, o governo federal precisou assumir o pagamento de parcelas de empréstimos estaduais garantidos pela União, em um movimento que impediu o calote dessas administrações e preservou a credibilidade do país no sistema financeiro, relata o Metrópoles.

As informações constam no Relatório Mensal de Garantias Honradas pela União em Operações de Crédito e Recuperação de Contragarantias, divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional. O documento aponta que, somente em 2025, a União desembolsou cerca de R$ 11 bilhões para cobrir dívidas de estados que não conseguiram honrar seus compromissos.

Entre os maiores beneficiários do mecanismo estão Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás. Todos esses estados são governados por aliados da oposição ao governo Lula e estão inseridos no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), programa voltado a entes federativos em grave crise financeira.

Na prática, quando um estado deixa de pagar um financiamento que conta com garantia federal, a União assume a obrigação. A medida evita impactos negativos sobre o crédito público brasileiro e assegura o cumprimento de contratos junto a instituições financeiras e organismos multilaterais.

O Regime de Recuperação Fiscal permite que estados em dificuldades adotem um conjunto de medidas para reequilibrar as contas ao longo de vários anos. Ao aderir ao programa, os governos estaduais obtêm benefícios imediatos, como a suspensão temporária do pagamento de dívidas com a União e o socorro federal em operações de crédito garantidas. Em contrapartida, precisam cumprir um rigoroso plano de ajuste fiscal, que inclui limites para gastos com pessoal, restrições a reajustes salariais, privatizações, revisão de incentivos fiscais e reformas administrativas.

As dívidas que deixam de ser pagas durante a vigência do RRF não são perdoadas. Elas são refinanciadas pela União em prazos longos, que podem chegar a até 360 meses, o que transfere o impacto financeiro para o futuro. Além disso, enquanto o regime está em vigor, a União não executa as contragarantias dos estados, o que explica o baixo volume de recuperação imediata dos valores desembolsados.

Em 2025, o Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro (PL), foi o estado mais beneficiado, com R$ 4,69 bilhões pagos pela União, o equivalente a 42,35% de todo o montante honrado no ano. Minas Gerais, sob a gestão de Romeu Zema (Novo), aparece na sequência, com R$ 3,55 bilhões, representando 32,05% do total.

O Rio Grande do Sul, administrado por Eduardo Leite (PSD), teve R$ 1,59 bilhão de dívidas quitadas pelo governo federal, enquanto Goiás, governado por Ronaldo Caiado (União Brasil), contou com R$ 888,06 milhões em pagamentos realizados pela União.

Os dados históricos reforçam a dimensão do problema fiscal enfrentado por estados e municípios. Desde 2016, o governo federal já desembolsou R$ 86,52 bilhões para cobrir dívidas garantidas de entes subnacionais, mas conseguiu recuperar apenas R$ 5,9 bilhões desse valor. Somente em dezembro de 2025, a recuperação somou R$ 25,02 milhões.

A maior parte das garantias honradas, cerca de R$ 76,97 bilhões, está concentrada justamente nos estados que participam do Regime de Recuperação Fiscal, beneficiados pela suspensão temporária da execução das contragarantias. Outros fatores também reduzem a capacidade de ressarcimento, como R$ 1,90 bilhão utilizados na compensação de perdas de arrecadação do ICMS e R$ 368,19 milhões considerados irrecuperáveis em razão de decisões judiciais envolvendo municípios como Taubaté (SP), Caucaia (CE) e São Gonçalo do Amarante (RN).

O relatório mostra ainda que apenas em dezembro de 2025 a União precisou desembolsar R$ 1,48 bilhão para cobrir dívidas garantidas. Desse total, R$ 643,96 milhões foram destinados ao Rio de Janeiro e R$ 626,19 milhões a Minas Gerais. Goiás recebeu R$ 72,36 milhões, enquanto o Rio Grande do Sul contou com R$ 70,81 milhões, além de repasses a outros estados e municípios do país.

Embora o mecanismo de garantias seja tradicional na política fiscal brasileira, os números de 2025 evidenciam uma contradição política. Governadores da oposição, que frequentemente criticam a condução da política econômica do governo federal, mantêm forte dependência da União para equilibrar as contas e evitar a inadimplência. Nesse cenário, o Tesouro Nacional segue atuando como fiador de última instância, impedindo que crises fiscais estaduais provoquem efeitos sistêmicos sobre o crédito público do Brasil.

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Trump, a Groenlândia e a bagunça no tabuleiro da geopolítica

Trump não criou esse cenário, mas ele o escancarou!

Brasil 247, 19 de janeiro de 2026, 17:52 h

O presidente dos EUA, Donald Trump - 13/01/2026 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Artigo de *Renata Medeiros

Donald Trump nunca escondeu sua fome de poder. O problema é que, quando essa fome se manifesta, o tabuleiro da geopolítica costuma virar bagunça — peças caem no chão, regras são ignoradas e o jogo vira outra coisa. Às vezes, um reality show. Outras, um risco global.

Quando Trump sugeriu, sem nenhum constrangimento, a ideia de comprar a Groenlândia, muita gente riu. Parecia piada. Uma excentricidade típica de um bilionário acostumado a resolver tudo com cheque. Mas o riso passou rápido. Porque, por trás do comentário aparentemente absurdo, havia um raciocínio geopolítico bastante clássico — e nada inocente.

Ilhas sempre fascinaram impérios. No caso das grandes ilhas do Atlântico Norte, como a Groenlândia, elas funcionam como sentinelas avançadas: estão ali para observar, conter e, se necessário, bloquear movimentos vindos do outro lado do mundo. Hoje, esse “outro lado” atende por dois nomes principais: China e Rússia.

Com o degelo do Ártico, o que antes era um deserto branco virou promessa de novas rotas comerciais, corredores militares e exploração de recursos estratégicos. Em bom português: mais caminhos, mais dinheiro e mais poder. Quem controla essas áreas controla fluxos. Quem controla fluxos dita regras. Simples assim.

Trump entendeu isso. Do jeito dele, claro. Sem diplomacia, sem filtro e sem paciência para o verniz civilizado da política internacional. Onde outros presidentes falariam em “parcerias estratégicas” ou “cooperação multilateral”, Trump fala em posse, controle e vantagem imediata. Ele não joga xadrez; joga banco imobiliário — e quer comprar todas as propriedades antes que alguém chegue primeiro.

Enquanto isso, a China avança com calma. Não com tanques, mas com contratos, investimentos e portos. Está presente na América do Sul, no Caribe, rondando áreas sensíveis como o Canal do Panamá e fazendo negócios onde Washington costumava mandar sozinho. Nada de bandeiras ou discursos inflamados. Apenas presença. E isso, para os Estados Unidos, é talvez mais ameaçador do que qualquer provocação militar.

Some-se a isso a guerra na Ucrânia, cujo desfecho muitos em Washington veem como uma derrota estratégica do Ocidente. Não importa aqui quem venceu no campo de batalha. Importa a sensação de perda de controle. Quando um império sente que já não dita o ritmo do jogo, ele tende a olhar para perto, reforçar fronteiras e proteger o que considera seu “quintal”.

É aí que entram o Grande Caribe, o Ártico, as ilhas do Atlântico Norte e do Pacífico. Não como curiosidades geográficas, mas como peças-chave desse rearranjo defensivo. Uma espécie de zona tampão emocional e estratégica para um país que, pela primeira vez em muito tempo, percebe que talvez não seja mais o único dono do tabuleiro.

Trump não criou esse cenário. Mas ele o escancarou. Com frases grosseiras, gestos impulsivos e uma franqueza quase infantil, expôs algo que sempre esteve ali: a disposição permanente dos Estados Unidos de intervir, controlar e moldar o espaço ao seu redor sempre que se sentem ameaçados.

O problema é que, quando se joga com fome demais, derruba-se o tabuleiro. E a bagunça que sobra raramente afeta apenas quem fez o movimento.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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Renata Medeiros é advogada e Cientista Política

domingo, 18 de janeiro de 2026

Pepe Escobar prevê reação popular contra agressão à Venezuela

Ideias

Analista geopolítico afirma que elites latinas "vendem" seus países por um apartamento em Miami

Brasil 247, 12 de janeiro de 2026, 15:35 hAtualizado em 17 de janeiro de 2026, 16:16 h

Pepe Escobar prevê reação popular contra agressão à Venezuela (Foto: Brasil247)

Materia de Redação Brasil 247

Em entrevista concedida ao canal Dialogue Works, o analista geopolítico Pepe Escobar comentou os desdobramentos da escalada de agressão contra a Venezuela e sustentou que a reação popular teria unido as ruas de vários países da América Latina.

Ao ser questionado sobre os impactos para Brasil, Colômbia, Cuba e outros países da região, Escobar disse que “as ruas da América do Sul” e “as ruas da América Latina” expressariam uma “resistência unida”, resumida no lema “No pasarán”.

Na leitura do analista, existe um contraste estrutural entre as maiorias populares — trabalhadores e camponeses — e as elites econômicas e políticas, que ele descreve como um “abismo” histórico na região. Para Escobar, enquanto as ruas reagiriam com repúdio, setores privilegiados aplaudiriam a ofensiva.

Ele afirmou que, no caso venezuelano, parte dessas elites se concentraria em poucos bairros de Caracas, enquanto grande parcela estaria fora do país. Escobar chegou a definir Miami como “a capital da diáspora venezuelana”.

Ao ampliar o foco para a América do Sul, o analista atacou com dureza as elites brasileiras e afirmou conhecer “por dentro” como pensam e agem. Segundo ele, esse grupo “odeia o Brasil” e “vende o Brasil”, associando a ideia de “sucesso” ao sonho de “uma casa na Flórida” e “um apartamento em Nova York”.

Guerra psicológica

Escobar também destacou a dimensão informacional do episódio, dizendo que já circula um vídeo curto produzido com inteligência artificial que reproduziria “o roteiro americano” dos acontecimentos em Caracas. Para ele, apesar de “bonito” e com “valores de produção excelentes”, o material seria “conceitualmente totalmente falso” e funcionaria como “operações psicológicas subliminares”, com potencial de influenciar sobretudo os mais jovens.

Em tom ainda mais incisivo, ele se referiu a Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — como “neo Calígula” e afirmou que a operação teria sido guiada pelo ego do líder norte-americano, “independentemente” das consequências geopolíticas, humanitárias e diplomáticas. Escobar disse ainda que haveria violações do direito internacional, por se tratar, segundo sua versão, de um precedente de gravidade inédita na região.

O analista mencionou imagens veiculadas pela Telesur que, na sua interpretação, evidenciariam apoio externo e discurso de resistência interna, citando Rússia, China e Irã como atores que aparecem no enquadramento simbólico dessa resposta. Ele afirmou que “Rússia, China e Índia não estão intimidadas” e criticou leituras que cobram reação imediata de Moscou e Pequim.

Reação legalista

Ao tratar especificamente da China, Escobar afirmou que qualquer tentativa de bloquear contratos de petróleo venezuelano destinados ao país asiático poderia ser respondida “nos tribunais”, enfatizando que a reação chinesa seria “legalista” e firme no campo jurídico.

Ele também sugeriu, como hipótese, que a escalada poderia acabar se transformando em uma “armadilha sofisticada” montada por Rússia e China para expor o comportamento do presidente norte-americano. Escobar ressaltou, porém, que não teria “prova definitiva” desse cenário, apenas “indícios”.

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Mauro Vieira cita os principais eixos do acordo Mercosul-UE e alerta para o cenário global

América Latina

Segundo o chanceler, o 'acordo propiciará ganhos tangíveis' em um 'mundo de imprevisibilidade, protecionismo e coerção'

Brasil 247, 7 de janeiro de 2026, 15:32 h

Mauro Vieira (Foto: Carlos Cruz/MRE)

Artigo de Leonardo Lucena
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, citou neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai, os principais eixos do acordo assinado entre líderes do Mercosul e da União Europeia.

“O acordo propiciará ganhos tangíveis: mais empregos, mais investimentos, maior integração produtiva, acesso ampliado a bens e serviços de qualidade, inovação tecnológica e crescimento econômico com inclusão social”, disse o chanceler.

“O comércio é uma das dimensões da parceria entre Mercosul e União Europeia, lastreada em valores comuns. Democracia, Estado de Direito, respeito aos direitos humanos e proteção do meio ambiente estão plenamente refletidos no acordo que assinamos”.
Cenário global

Em seu discurso, Mauro Vieira também alertou para as tensões na política internacional. “O acordo representa um baluarte – erguido com sólida convicção no valor da democracia e da ordem multilateral – diante de um mundo batido pela imprevisibilidade, pelo protecionismo e pela coerção”, continuou.

“Em um cenário internacional marcado por incertezas e tensões, este acordo envia uma mensagem clara e positiva ao mundo: acreditamos na cooperação, no diálogo e em soluções construídas de forma coletiva”, acrescentou.
Mais benefícios

O acordo, disse o ministro, reveste-se “de uma dimensão verdadeiramente estratégica para a segurança econômica de nossas regiões – do Atlântico Sul ao Atlântico Norte”. “Contribuirá para diversificar parceiros, cadeias produtivas e fontes de suprimento, reduzir vulnerabilidades e ampliar a previsibilidade necessária ao crescimento”, pontuou.

Segundo o chanceler, durante as negociações “ficou claro o compromisso das duas regiões com a plena integração entre o comércio e o desenvolvimento sustentável”. “O acordo, assim orientado, fortalece os compromissos de nossos países com os regimes multilaterais nas áreas ambiental, social e trabalhista”, ressaltou.

“Integra o Acordo, da mesma forma, um capítulo de excepcional significação sobre comércio e gênero. Esse capítulo dará especial impulso às políticas públicas de inclusão e empoderamento de mulheres e meninas em todos e cada um dos países de nossos blocos”.

Estatísticas

O Mercosul e a União Europeia criarão uma zona de livre comércio de 720 milhões de habitantes e somará um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22 trilhões. A proposta deverá injetar R$ 37 bilhões na economia brasileira em cerca de dez anos, conforme previsões do Ministério das Relações Exteriores.

Pelo acordo haverá diminuição ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, que alcançam mais de 90% do comércio total entre os dois blocos.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Moraes manda Bolsonaro para o presídio da Papudinha

Ex-presidente foi condenado a 27 anos e três meses no caso da trama golpista

Brasil 247, 15 de janeiro de 2026, 17:47 hAtualizado em 15 de janeiro de 2026, 18:40 h

O ex-presidente Jair Bolsonaro em Brasília-DF - 14/09/2025 (Foto: REUTERS/Mateus Bonomi)

Artigo de Leonardo Sobreira

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira (15) a transferência do ex-presidente preso Jair Bolsonaro para o presídio da Papudinha, no Distrito Federal-DF. A transferência já foi efetivada, de acordo com a assessoria do STF.
O ex-mandatário, condenado na trama golpista pelo STF, estava preso na sede da Superintendência da PF em Brasília. Também condenados no caso, o ex-ministro e ex-secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, e o ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques, estão presos na Papudinha. Eles dividem uma cela semelhante à do ex-presidente.

"DETERMINO A IMEDIATA TRANSFERÊNCIA de JAIR MESSIAS BOLSONARO da Sala de Estado Maior da Superintendência Regional da Polícia Federal/DF para a Sala de Estado Maior no 19º Batalhão da Polícia Militar - PMDF, localizado no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília/DF, para cumprimento da pena privativa de liberdade fixada por esta CORTE, no julgamento da AP 2668", diz o documento.

As condições da cela de Bolsonaro serão favoráveis "em razão da dignidade do cargo exercido", diz Moraes na decisão.

Ao justificar a decisão, Moraes citou entrevistas do senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente preso--"por meio das quais criticou as condições excepcionalmente favoráveis da carceragem da Polícia Federal, comparando-a a um 'cativeiro', desconfiando da 'origem da comida', reclamando do 'horário de visitas'", diz o documento.

Ainda segundo Moraes, "vem ocorrendo uma sistemática tentativa de deslegitimar o regular e legal cumprimento da pena privativa de liberdade de JAIR MESSIAS BOLSONARO".

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Irã: o centro de uma disputa geopolítica global

Uma análise crítica das tensões internas, do impacto das sanções e das pressões externas sobre a soberania iraniana e o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio

Brasil 247, 12 de janeiro de 2026, 06:57 h

Protesto na rodovia Vakilabad, em Mashhad, província de Razavi Khorasan, Irã, em 10 de janeiro de 2026, nesta captura de tela obtida de um vídeo de mídia social. 

*Marcelo Zero

“Isto também passará” - Frase persa.

É muito difícil saber, com precisão, o que está acontecendo, de fato, no Irã. Como sempre, a mídia ocidental fala na “sangrenta ditadura” do Irã e que centenas de pessoas já teriam sido mortas pela repressão do regime iraniano. De outro lado, imagens difundidas no Ocidente mostram incêndios de carros e construções, e o regime acusa alguns grupos de manifestantes de terem atirado e matado policiais iranianos.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, moderado e progressista, já fez vários apelos ao diálogo.

Nesse contexto nebuloso e contraditório, é preciso considerar que Israel e os EUA estão fortemente empenhados na derrubada do regime iraniano há muito tempo. Tanto o governo de Israel quanto o governo dos EUA têm capacidade de promover a chamada “guerra híbrida” e de articular e promover protestos via redes sociais e internet.

Embora o regime iraniano tenha derrubado a internet no país, os manifestantes estariam usando terminais da Starlink, de Elon Musk, para se articularem.

É claro que há um substrato real na insatisfação da sociedade iraniana, principalmente naqueles setores mais jovens e que vivem em grandes cidades, como Teerã, por exemplo.

Mas tal insatisfação não tem mais muito a ver com a promoção de valores tradicionais da sharia islâmica. Hoje em dia, por exemplo, a maioria das mulheres iranianas que vive nas grandes cidades não usa mais o hijab. O regime tornou-se bem mais permissivo, nesse aspecto.

A questão central é econômica.

Há de se observar que, desde 1979, o Irã tornou-se o país mais sancionado do mundo. Só perdeu esse “honroso” posto após a Rússia ter feito a intervenção militar na Ucrânia, em 2022, mas continua a ocupar um terrível e muito incômodo segundo lugar.

As dificuldades econômicas advindas, essencialmente, das sanções unilaterais dos Estados Unidos e de aliados, as quais restringem fortemente o acesso do Irã aos mercados internacionais e a consequente disponibilidade de moedas fortes, bem como congelam ativos iranianos em bancos no exterior, conformam um contexto de instabilidade política constante, que se agravou nos últimos anos. Somente entre 2012 e 2015, tais sanções teriam provocado um prejuízo acumulado de cerca de US$ 500 bilhões.

O ex-presidente reformista Hassan Rouhani, eleito em 2013 e reeleito em 2017, tinha conseguido reinserir parcialmente o Irã na comunidade internacional, mediante equacionamento do dossiê nuclear, com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano (“Joint Comprehensive Plan of Action” – JCPOA).

Mas Trump, desde o seu primeiro governo, adotou uma política de “pressão máxima” sobre o regime do Irã e retirou os EUA do JCPOA, em 2018. Desde então, a tensão vem aumentando, com o Irã, compreensivelmente, se retirando de seus compromissos e os EUA, por seu turno, apertando as sanções.

Os efeitos da pandemia, muito amplificados pelo isolamento do regime iraniano, foram devastadores no Irã. O país foi, inicialmente, um dos mais atingidos, com mais de 7 milhões de casos registrados e mais de 145 mil mortos. Teve de desenvolver imunizantes próprios para conter, com sucesso, a pandemia. Ademais, a tomada do poder pelo Talibã (força sunita) no vizinho Afeganistão, em agosto de 2021, agravou a pressão sobre os serviços públicos iranianos, que receberam contingente extra estimado em 2 milhões de refugiados, os quais se beneficiam de serviços básicos de saúde e educação.

As dificuldades na condução da política macroeconômica, o aumento do desemprego entre os jovens, a perda do poder de compra da classe média e o empobrecimento da população já estavam entre as causas dos protestos que eclodiram em setembro de 2022, logo após a morte, em custódia policial, da jovem curda Mahsa Amini.

Agora, não há dúvida de que os protestos são motivados substancialmente por uma inflação de 42% e pela desvalorização recente da moeda nacional, que repercute diretamente nos preços dos alimentos.

Apesar dos esforços para obter autossuficiência alimentar, o Irã, que tem apenas 11% do seu território de terras agricultáveis e enfrenta uma seca de dois anos, ainda importa muitos alimentos essenciais, como trigo, arroz, laticínios e produtos para alimentação animal, como milho (importado, em grande parte, do Brasil). Cerca de 30% das importações do Irã são de alimentos.

Isso não significa que as manipulações feitas pelo governo de Netanyahu e pelo governo de Trump não estejam presentes.

A divulgação, como “alternativa de poder”, do filho de Reza Pahlevi, homônimo de um dos ditadores mais brutais que o mundo conheceu, representa uma tentativa canhestra e patética de derrubar o regime do Irã, apenas para fazer regredir, de novo, esse notável país de cultura milenar ao status de colônia dos EUA e do chamado Ocidente, de um modo geral.

Lembre-se que o tenebroso Xá ascendeu ao poder após britânicos e estadunidenses terem derrubado Mosaddegh, que havia nacionalizado, na década de 1950, as jazidas de petróleo iranianas. Os iranianos jamais esquecerão essa passagem trágica de sua história.

Não creio que vá funcionar. Assim como não teria funcionado uma reunião sigilosa no Itamaraty, entre o governo de Bolsonaro e o governo de Netanyahu, a qual teria sido realizada na gestão de Ernesto Araújo, com o objetivo de que o nosso país se somasse aos esforços para desestabilizar o Irã.

As manifestações não têm lideranças internas coesas e críveis e estão sendo conduzidas, em grande parte, por agendas externas, como a de Pahlevi.

Obviamente, Trump e Netanyahu não têm preocupação alguma com democracia e direitos humanos, nem com a crise econômica no Irã. Querem simplesmente derrubar um regime que é estratégico para o equilíbrio de forças no Grande Oriente Médio e que tem as terceiras maiores jazidas de petróleo e gás do mundo.

Diga-se de passagem, qualificar o regime iraniano como uma ditadura cruel representa uma visão um tanto simplória e reducionista do complexo regime político do Irã.

É verdade que a Constituição da República Islâmica do Irã, de 1979, consagrou o princípio da “tutela do jurisconsulto islâmico” (wilayat-e-faqih), que fundamenta a noção de autoridade absoluta do Líder Supremo (hoje, o Aiatolá Ali Khamenei) em assuntos religiosos e políticos.

Ao mesmo tempo, porém, ela consagrou alguns princípios democráticos, prevendo eleições diretas para presidente, parlamentares e membros da Assembleia dos Sábios.

O Presidente da República, chefe do Poder Executivo, é responsável por elaborar e executar as políticas públicas e de relações exteriores e de defesa, nos limites das diretrizes impostas pelo Líder Supremo. Exerce a chefia do Gabinete de Governo, do Conselho Supremo de Segurança Nacional e do Conselho Supremo da Revolução Cultural.

Já o Parlamento iraniano (Majlis) é unicameral e composto por 290 deputados. As eleições para o Majlis ocorrem a cada quatro anos e, do total de assentos, cinco representam as minorias (judeus, zoroastras, cristãos armênios e cristãos caldeus).

Entretanto, toda candidatura ao Majlis é submetida ao crivo do Conselho dos Guardiães, órgão com poder de veto. O Majlis possui funções típicas de parlamento de uma democracia participativa — proposição legislativa, voto de confiança aos membros do Gabinete do Governo, impedimento do Presidente, aprovação de acordos internacionais —, sujeitas, não obstante, à ratificação ou ao veto do Conselho dos Guardiães.

Apesar dessa óbvia tutela religiosa, exercida basicamente pelo Líder Supremo e pelo Conselho de Guardiães, o Irã é bem mais democrático que as monarquias absolutistas sunitas dos países do Golfo Pérsico, que são, na realidade, regimes politicamente medievais. Tais regimes francamente ditatoriais não incomodam, contudo, o governo Trump, pois são aliados históricos dos EUA na região. As maiores bases militares dos EUA no Oriente Médio estão lá.

O regime iraniano ainda tem muito apoio nas cidades médias e pequenas e nas zonas rurais e semirrurais. Também tem apoio entre os mais pobres e as gerações mais velhas. A oposição está bastante concentrada em jovens de classe média que habitam os grandes centros urbanos, especialmente na grande área metropolitana de Teerã.

A maior parte da população do Irã é totalmente avessa a pressões externas, principalmente as vindas dos EUA e de Israel.

Caso Trump e Israel decidam bombardear o Irã, como ameaçaram, boa parte da população cerrará fileiras para defender o regime.

Além disso, uma tentativa séria de derrubar o regime implicaria “boots on the ground”, uma ocupação terrestre maciça.

Seria um desastre. Um “atoleiro” muito pior que o do Iraque.

O Irã reúne, entre forças armadas e a Guarda Revolucionária, 530 mil homens na ativa, fora os reservistas, que somam 350 mil. Ao todo, são, portanto, cerca de 880 mil homens fortemente armados que poderiam ser mobilizados no curto prazo. Além disso, o Irã dispõe de 40 milhões de homens aptos a combater. Na realidade, o Irã tem o exército convencional mais poderoso do Grande Oriente Médio. O Irã é a quarta força mundial em termos de lançadores móveis de foguetes e a oitava no que tange à artilharia convencional. Possui também 1.634 tanques de combate e 165 caças.

O Irã é um país-chave para o domínio da Eurásia, o supercontinente cujo controle, como já previa Zbigniew Brzezinski em “O Grande Tabuleiro de Xadrez”, propiciará hegemonia na ordem mundial.

China e Rússia sabem disso.

A China depende bastante do petróleo e do gás do Irã e vem fazendo pesados investimentos naquele país. Os chineses, em contratos de centenas de bilhões de dólares, conseguiram acesso exclusivo a partes significativas dos campos de gás e óleo do Irã. Em contrapartida, prometeram investir na infraestrutura energética do país e, mais do que isso, comprometeram-se a defender essas áreas petrolíferas contra agressões estrangeiras, “como se fossem território chinês”.

O acesso a essas jazidas iranianas, complementado por uma rede de gasodutos, permitirá à China amenizar sua dependência energética e é fundamental para a sua estratégia de constituir uma nova rota da seda. O Irã, por sua vez, poderá bloquear o estreito de Ormuz, por onde passam os grandes petroleiros que vêm do Golfo Pérsico, sem que isso impacte as suas exportações.

Já a Rússia vê o Irã como um parceiro geopolítico muito importante no Oriente Médio. Com a recente e injustificada ofensiva da administração Trump contra o Irã, contrariando abertamente o texto do acordo Joint Comprehensive Plan of Action, que colocou o programa nuclear iraniano sob controle dos EUA e da Europa em troca do levantamento das sanções, a Rússia aproximou-se muito do Irã. Em uma reunião entre Putin e Khamenei, realizada em novembro de 2022, o mandatário russo afirmou ao líder iraniano que a “Rússia não trairá o Irã”.

Há, portanto, muito em jogo. E o Irã não é a Venezuela ou o Panamá. Tem um longo histórico de resistência, que inclui uma terrível guerra com o Iraque, e cerca de 90 milhões de habitantes.

A crise iraniana tem de ser resolvida pelos iranianos, sem interferências externas e de forma pacífica. O Joint Comprehensive Plan of Action tem de ser plenamente retomado e as sanções precisam ser levantadas.

“Isto também passará”. Afinal, até a terrível Savak passou. Mas o Irã soberano não vai passar. Permanecerá, ainda, por outros milênios.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.