domingo, 8 de março de 2026

Irã suspende ataques aos vizinhos e afirma que não haverá ‘rendição incondicional’ aos EUA

Internacional

Mensagem do líder iraniano foi publicada nas redes sociais neste sábado (7) e reforça compromisso do país com a paz

ICL Notícias, 07/03/2026 | 11h11


Por Brasil de Fato

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou neste sábado (7) que não haverá uma “rendição incondicional” como os Estados Unidos desejam e que o país está comprometido com a paz. Ele também anunciou que haverá uma suspensão dos ataques aos países vizinhos usados como base para as forças militares estadunidenses, mas salientou que agressões originadas desses territórios serão retaliadas.

Em uma publicação nas redes sociais, Pezeshkian afirmou que o Irã não terá dúvidas em defender a honra e a autoridade do país.

“Alguns países iniciaram esforços de mediação. Nossa resposta a eles é clara: estamos comprometidos com a paz duradoura na região, mas não temos dúvidas nem hesitação em defender a honra e a autoridade do nosso país. Os alvos apropriados desses esforços de mediação são aqueles que, ao subestimarem o povo iraniano, incendeiam a região”, disse.

A mensagem foi uma resposta a uma série de investidas diplomáticas realizada pelos países vizinhos em busca de paralisação nos bombardeios.

No mesmo comunicado, o líder iraniano afirmou que as exigências impostas pelos Estados Unidos em torno de uma rendição incondicional não serão aceitas. Ele declarou que os inimigos do Irã “levarão para o túmulo seus sonhos de nossa rendição incondicional”.

Suspensão de ataques

O Conselho de Liderança Temporária anunciou que os ataques aos países vizinhos serão suspensos. Esta suspensão será reavaliada caso o Irã seja atacado novamente, afirmou o presidente.

“Ontem, o Conselho de Liderança Temporária aprovou que não haverá mais ataques contra países vizinhos nem lançamentos de mísseis, a menos que ocorra um ataque contra o Irã por parte desses países”, declarou o presidente.

Pezeshkian aproveitou o contexto para pedir desculpas aos países que foram atacados pelo Irã ao longo da semana, desde o bombardeio de Israel e Estados Unidos, no sábado (28), contra Teerã e o assassinato do líder supremo Ali Khamenei.

Ele afirmou que o Irã “não tem intenção de agressão” e disse que será recíproco com eventuais novos ataques a partir destes territórios poupados no momento

Trump faz novas ameças

Neste sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que fará novos ataques contra o Irã e chamou o país persa de “perdedor do Oriente Médio”.

Em publicação na rede social Truth, Trump desclassificou o Irã e anunciou que hoje haverá um ataque intenso, destruindo áreas estratégicas iranianas.

“Hoje, o Irã será duramente atingido. Áreas e grupos de pessoas que não eram considerados alvos até este momento estão sob séria consideração para destruição completa e morte certa, devido ao mau comportamento do Irã”

Em resposta à decisão do Irã de suspender os ataques contra os países vizinhos, Trump afirmou que o anúncio iraniano é resultado direto “do ataque implacável dos EUA e de Israel”.

“Eles buscavam dominar e governar o Oriente Médio. É a primeira vez em milhares de anos que o Irã perde para os países vizinhos do Oriente Médio”, provocou.

Por fim, o líder estadunidense lançou ataques diminuindo a importância geopolítica do Irã na região.

“Pediu desculpas e se rendeu aos seus vizinhos do Oriente Médio. O Irã não é mais o ‘valentão do Oriente Médio’, mas sim ‘o perdedor do Oriente Médio’, e continuará sendo por muitas décadas até se render ou, mais provavelmente, entrar em colapso total!”
Uma semana de ataques

Os ataques conjuntos, não provocados e considerados ilegais pelas leis internacionais, dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados no sábado (27), ocorreram em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano. Apesar da disposição anunciada pelo país persa em cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica e se comprometer a usar seu programa nuclear exclusivamente para fins pacíficos, Israel e EUA – ambas potências nucleares – acusam Teerã de secretamente buscar a construção de armas atômicas.

Tel Aviv também acusa o Irã de ser “ameaça existencial” ao país, mas a acusação é rebatida por analistas que argumentam que o governo iraniano se encontra hoje muito enfraquecido pelos ataques de junho de 2025, pelas sanções impostas pelos EUA, protestos internos e o fim do corredor até o Líbano, após a queda de Bashar al-Assad na Síria.

A derrubada do governo em Teerã é objetivo cultivado por Washington e Tel Aviv desde a instalação da República Islâmica, em 1979, que substituiu o regime vassalo do Ocidente e instituiu o governo teocrático nacionalista. Nos primeiros dias de ataques, bombardeios mataram lideranças iranianas, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.

Terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o Irã fechou, após o início das agressões, o Estreito de Ormuz, por onde é escoada a produção de vários países do Golfo. Por lá passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, o que gera temores de uma crise inflacionária internacional. Outro temor, apontado por analistas, é que o conflito se expanda para outros países da região, com consequências imprevisíveis.

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ICL Noticias, 08/03/2026 | 12h31

Mães pranteiam suas filhas, 168 meninas assassinadas por Trump e Netanyahu 
no Irã  (Foto: Reprodução/X)

Artigo de Lindener Pareto Jr.*

Nas últimas semanas, tornamo-nos telespectadores atônitos de um espetáculo que nenhuma ficção ousaria roteirizar. Vídeos e mais vídeos, numa cascata ininterrupta de imagens da guerra contra o Irã, invadem nossas telas com a brutalidade de quem arranca uma porta sem bater. Caixões enfileirados de meninas em Minab, colunas de fumaça sobre Teerã, rostos desfigurados pelo pó e pelo pranto. Assistimos, paralisados, a um desfile macabro em que já não sabemos distinguir o que é inteligência artificial e o que é a realidade crua e nua dos fatos. A fronteira entre o real e o simulado se dissolve, e nessa dissolução reside um horror suplementar: a possibilidade de que a própria dúvida nos sirva de anestesia, de que o ceticismo diante da imagem nos absolva de sentir o peso insuportável do que ela mostra. Porque o que ela mostra, quando é verdade, são meninas mortas. E quando é mentira, são meninas mortas que alguém fabricou para que nos acostumemos com a ideia de meninas mortas.

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã inaugurou-se com um gesto que condensa toda a obscenidade do conflito contemporâneo: o bombardeio da escola primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, que matou 168 crianças e feriu mais de noventa. Meninas. Meninas que estavam em aula, aprendendo a ler, a escrever, a sonhar com um futuro que lhes foi arrancado por um míssil de precisão. O New York Times, após analisar imagens de satélite e vídeos verificados, confirmou que a escola foi severamente danificada por um ataque que ocorreu simultaneamente às ofensivas americanas contra uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica nas proximidades. Estados Unidos e Israel, até o momento, não reconheceram a autoria. A Casa Branca diz que “investiga”. Israel afirma não ter encontrado “nenhuma ligação”. O cinismo ocidental, esse velho conhecido, veste seu terno mais bem cortado e comparece à coletiva de imprensa para dizer que lamenta, que investiga, que condena. Verbos que, na gramática radioativa do patriarcado, são sinônimos de silêncio.

Contudo, a guerra sempre é e sempre foi cruel com os que lutam nela, por razões quase sempre inexplicáveis, sobretudo diante da racionalidade moderna, que esconde seus reais motivos para guerrear sob camadas de retórica humanitária, de “operações cirúrgicas” e de “danos colaterais”. Não nos enganemos: a racionalidade moderna não domesticou a guerra; sofisticou-a. Deu-lhe planilhas, algoritmos, conferências de imprensa e relatórios de impacto. Mas por trás de cada eufemismo, há o mesmo sangue antigo, o mesmo grito primordial, a mesma carne dilacerada que acompanha a humanidade desde que o primeiro clã empunhou uma pedra contra o outro.

A guerra é antiga e se confunde com a própria história da humanidade. Heráclito de Éfeso, o filósofo do fluxo e do devir, já proclamava, cinco séculos antes de Cristo, que “de todos a guerra é o pai, de todos é rei; uns indica deuses, outros homens; de uns faz escravos, de outros, livres”. A guerra como princípio cosmológico, como força geradora e destruidora, como parteira de hierarquias e destinos. Dois milênios depois, Carl von Clausewitz, o general prussiano que ajudou a derrotar Napoleão em Waterloo, definiria a guerra como “a continuação da política por outros meios”, uma formulação que, em sua aparente frieza analítica, esconde uma verdade terrível: a de que a política, quando fracassa ou quando convém, recorre ao massacre como instrumento. Não à toa, Michel Foucault inverteu a frase: “a política é a continuação da guerra por outros meios”, vide Trump e Netanyahu, que as fundem de maneira aterradora.

Hugo Grócio, o jurista holandês do século XVII, tentou domesticá-la pelo direito, estabelecendo as bases do que viria a ser o direito internacional humanitário. Sun Tzu, na China antiga, elevou-a à condição de arte. Tucídides, na Grécia clássica, narrou-a como tragédia. Rosa Luxemburgo, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, denunciou-a como filha terrível do imperialismo capitalista, que precisa expandir-se sobre os corpos dos povos periféricos para alimentar sua acumulação insaciável.

A guerra teve e tem muitas definições. Mas o que ela sempre nos reserva, para além de qualquer conceituação filosófica ou jurídica, é um desfile de horrores que a palavra não dá conta de narrar. Há um limite da linguagem diante do sofrimento extremo, uma insuficiência radical do verbo frente à carne aberta, ao osso exposto, ao olhar vítreo de uma criança que não compreende por que o mundo explodiu. A memória do trauma jamais desaparece. Ela se inscreve nos corpos, nas paisagens, nas gerações seguintes. Os sobreviventes da bomba de Hiroshima (bomba hereditária), os hibakusha, carregaram até a morte as marcas da radiação e do estigma social. Os veteranos do Vietnã trouxeram para casa um inimigo invisível chamado estresse pós-traumático. As mulheres de Srebrenica ainda procuram os ossos de seus filhos nas valas comuns da Bósnia, trinta anos depois. A dor não prescreve. A guerra imprime no tempo uma ferida que supura indefinidamente.

Sim, a guerra pune os homens. Homens que, orgulhosos de suas posições, de suas fardas, de suas bandeiras, marcham para o caos e o abismo de uma morte banalizada, de vidas desperdiçadas em nome de causas que raramente lhes pertencem. Os jovens soldados de Verdun, em 1916, morreram aos milhares num lamaçal de trincheiras por alguns metros de terra que seriam perdidos na semana seguinte. Os conscritos de Napoleão, arrancados de suas aldeias pela levée en masse de 1793, marcharam através da Europa para morrer de frio nas estepes russas ou de disenteria nos acampamentos da Península Ibérica. A França napoleônica recrutou cerca de 2,5 milhões de homens; 900 mil não voltaram. Famílias inteiras perderam seus provedores, comunidades rurais foram despovoadas, a produção agrícola colapsou. Mas eles marchavam. Marchavam porque a máquina da guerra os engolia antes que pudessem compreendê-la, porque o Estado moderno transformou cada cidadão em soldado potencial e cada corpo em recurso mobilizável. “Todo francês é um soldado e deve-se à defesa da nação”, proclamava a Lei Jourdan de 1798, dissolvendo a fronteira entre o civil e o militar, entre a vida e a morte administrada. Macron que o diga, não?! Cantando a marselhesa, hino francês, diante de um submarino atômico.

Contudo, a guerra moderna, desde no mínimo Napoleão Bonaparte, pune com especial ferocidade mulheres, crianças, meninas. As guerras napoleônicas, como demonstrou o historiador David A. Bell, marcaram a emergência da “primeira guerra total” no sentido moderno: a mobilização de sociedades inteiras, a militarização da economia, a destruição sistemática de infraestruturas civis. Em Zaragoza, na Espanha, mais de 50 mil civis morreram durante dois cercos entre 1808 e 1809, muitos de fome e doenças. Na Rússia, em 1812, dezenas de milhares de civis pereceram de exposição e fome durante a política de terra arrasada que precedeu a retirada de Napoleão. Francisco de Goya, testemunha ocular dos horrores da ocupação francesa na Espanha, gravou entre 1810 e 1815 a série “Os Desastres da Guerra”, oitenta e duas estampas que constituem talvez o mais pungente registro visual da crueldade bélica antes da fotografia: corpos empilhados, mulheres violentadas, crianças mortas, a razão adormecida parindo monstros. Goya sabia o que nós, dois séculos depois, fingimos não saber: que a guerra não poupa ninguém, mas devora primeiro os mais vulneráveis.

A guerra, como escreveu a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, “não tem rosto de mulher”. A frase, que dá título ao seu livro monumental publicado em 1985, é ao mesmo tempo uma constatação e uma denúncia. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas suas histórias foram sistematicamente apagadas, silenciadas, relegadas às margens de uma narrativa heroica construída exclusivamente no masculino. Aleksiévitch entrevistou mais de quinhentas dessas mulheres e deixou que suas vozes ressoassem em toda a sua angústia e arrebatamento: memórias de frio, de fome, de violência sexual, de uma coragem que não cabia nos moldes da glória militar convencional. A guerra não tem rosto de mulher porque a História, escrita pelos vencedores e quase sempre pelos homens, recusou-se a olhar para esse rosto. Mas ele sempre esteve lá.

E esteve lá não apenas como vítima, mas como sustentáculo invisível da própria máquina bélica. Na modernidade capitalista, a guerra é sustentada pelo trabalho invisibilizado das mulheres, que além de reproduzir e criar os filhos, os filhos que serão enviados para morrer, sempre participaram dos conflitos de formas que a historiografia oficial demorou séculos para reconhecer. Nas fábricas de munição da Primeira Guerra Mundial, foram as mulheres britânicas, as munitionettes, que produziram as balas e os obuses que alimentaram as trincheiras. Nos hospitais de campanha, foram enfermeiras que costuraram os corpos dilacerados dos soldados. Nas retaguardas, foram mães, esposas e filhas que mantiveram funcionando as engrenagens de sociedades inteiras enquanto seus homens eram triturados no front.

E quando a guerra se tornou insuportável, foram as mulheres que se levantaram. Em 8 de março de 1917, pelo calendário ocidental, mulheres tecelãs do distrito de Vyborg, em Petrogrado, entraram em greve e saíram às ruas exigindo “Pão e Paz”. Mais de 90 mil trabalhadoras e trabalhadores aderiram ao movimento naquele dia, que se tornaria o estopim da primeira fase da Revolução Russa. Foram mulheres, exaustas da fome e da guerra, que derrubaram o czarismo. Foram mulheres que, com seus corpos famintos e suas vozes roucas, inauguraram uma das maiores transformações políticas do século XX. Não é coincidência que o Dia Internacional da Mulher tenha suas raízes nessa insurreição: a luta das mulheres e a luta contra a guerra são, desde sempre, faces da mesma moeda.

A guerra moderna, a guerra do capitalismo contra tudo e contra todos, é sobretudo uma guerra contra as mulheres, seus corpos, seus cuidados, seus afetos. Não é uma guerra apenas no sentido metafórico, embora a metáfora também seja verdadeira. É uma guerra literal, material, que se inscreve na carne das mulheres com a precisão de um bisturi ou a brutalidade de uma bomba. Os conflitos contemporâneos matam proporcionalmente mais civis do que nunca: segundo as Nações Unidas, as mortes de civis em conflitos armados aumentaram 72% em 2023 em relação ao ano anterior, com mais de 33 mil vítimas registradas. Em 2023, 11.649 crianças foram mortas ou mutiladas em decorrência de guerras, um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Os corpos das mulheres são territórios de conquista: a violência sexual como arma de guerra foi documentada na Bósnia, no Congo, em Ruanda, no Iraque, na Síria, em Gaza.

Não é à toa que a coalizão Trump-Netanyahu representa uma síntese tão brutal de homens que odeiam mulheres, homens que mercantilizam suas vidas e seus corpos. Donald Trump, o homem cujo nome aparece nos arquivos Epstein, novos documentos divulgados em março de 2026 pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos que detalham depoimentos de uma mulher acusando-o de agressão sexual quando menor de idade nos anos 1980, é o mesmo homem que ordena bombardeios sobre escolas de meninas no Irã. Benjamin Netanyahu, o homem que presidiu o massacre de mais de 75 mil palestinos em Gaza em dezesseis meses, incluindo milhares de crianças, é o mesmo homem que instou Trump a atacar o Irã para satisfazer os interesses geopolíticos de Israel. Há uma coerência perversa nessa aliança: são homens para quem o corpo feminino, o corpo infantil, o corpo do outro, é matéria descartável, recurso a ser explorado ou obstáculo a ser eliminado.

A desfaçatez é dilacerante. Durante décadas, as potências ocidentais usaram as violações de direitos humanos contra as mulheres no Irã, o uso obrigatório do véu, as restrições à mobilidade, a brutalidade da polícia da moralidade, para justificar o isolamento internacional de Teerã. Em nome de uma suposta “libertação” da mulher iraniana, o primeiro alvo da ofensiva foi justamente uma escola de meninas. Como observou a pesquisadora Natália Ochôa: “Se um dos pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”. A pergunta é retórica, mas sua resposta é material: não se trata de salvar mulheres, trata-se de destruir nações. O “feminismo imperial”, esse álibi cínico que veste a bomba com o laço da emancipação, é talvez a mais sofisticada das armas ideológicas do nosso tempo.

As mulheres iranianas, diga-se, não precisam de salvadores estrangeiros. O movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, nascido em 2022 após a morte de Mahsa Amini, espancada pela Patrulha de Orientação, demonstrou ao mundo que as iranianas lutam por seus direitos com uma coragem que envergonha os gabinetes de Washington e Tel Aviv. Narges Mohammadi, Nobel da Paz de 2023, presa no Irã por sua militância, é a prova viva de que a resistência feminina iraniana não pede intervenção militar: pede solidariedade, pede justiça, pede que o mundo pare de bombardear suas escolas.

Não sabemos se tudo isso nos levará de fato à Terceira Guerra Mundial, essa catástrofe que parece sempre muito cobiçada por um mundo vazio, adoecido, entorpecido pelo consumo e pela indiferença. Os sinais são insuportáveis: a “Operação Epic Fury” já se estende por mais de uma semana sem perspectiva de cessar-fogo; Trump exige a rendição incondicional do Irã; novas frentes se multiplicam no Oriente Médio; o secretário-geral da ONU alerta para uma “multiplicação de novas frentes” e o aumento das mortes de civis. O fantasma de 1914, quando uma cadeia de alianças e provocações transformou um assassinato em Sarajevo na carnificina de quatro anos que redesenhou o mapa do mundo, paira sobre nós com uma familiaridade perturbadora.

Mas, independentemente de para onde nos conduzam os próximos capítulos dessa tragédia, uma coisa já é certa: estamos diante da guerra mais cruel de toda a modernidade. Não porque as guerras anteriores tenham sido menos sangrentas em números absolutos, a Segunda Guerra Mundial matou entre 70 e 85 milhões de pessoas, mas porque esta guerra se trava sob o signo de uma transparência obscena que torna o horror simultaneamente visível e invisível. Vemos tudo e não vemos nada. As imagens nos chegam em tempo real, mas a capacidade de processá-las, de transformá-las em indignação, em ação, em recusa, parece ter sido neutralizada por décadas de saturação midiática. Walter Benjamin advertiu que a reprodutibilidade técnica da obra de arte destruiria sua “aura”, o que ele talvez não pudesse prever é que a reprodutibilidade técnica do horror destruiria nossa capacidade de nos horrorizar.

Esta é a guerra que mata meninas. Que mata mulheres. Que mata nossas mães, irmãs, companheiras, tias, amigas. Que mata a advogada que lutava pelos direitos humanos e a estudante que aprendia a ler. Que mata a enfermeira que cuidava dos feridos e a mãe que amamentava seu filho sob os escombros. Que mata a professora que ensinava e a menina que aprendia. Numa guerra assim, não há paz para ninguém. Não há paz para os que bombardeiam, porque carregarão para sempre o crime coletivo e cruel que nenhuma coletiva de imprensa poderá absolver. Não há paz para os que assistem, porque a indiferença é uma forma de cumplicidade. E não há paz para os que sobrevivem, porque a memória do trauma, como dissemos, jamais desaparece.

Svetlana Aleksiévitch encerrou um de seus livros com uma frase que ecoa como uma sentença: “A guerra não é sobre a vitória. A guerra é sobre a dor.” Pois que esta dor, a dor das meninas de Minab, a dor das mães de Gaza, a dor das mulheres de Petrogrado que marcharam por pão e paz há mais de um século, não nos deixe dormir. Que ela nos acorde. Que ela nos obrigue a olhar para o rosto que a guerra sempre tentou esconder: o rosto de mulher.

Porque enquanto houver uma menina morta sob os escombros de uma escola, enquanto houver uma mãe cavando com as mãos a terra que cobre seu filho, enquanto houver uma mulher cujo corpo é tratado como território de conquista, a guerra não terá terminado. E a paz, essa palavra tão gasta e tão necessária, continuará sendo apenas uma promessa não cumprida, um horizonte que se afasta a cada bomba que cai, a cada vida que se apaga, a cada silêncio que se instala onde deveria haver um grito de libertação.

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Lindener Pareto Jr.- Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Análise: Bombardeio ao Irã é ilegal, mesmo contra um regime ilegal

Uol, 28/02/2026 09h25, Atualizada em 28/02/2026 09h47…

Pessoas observam enquanto fumaça sobe no horizonte após uma explosão 
em Teerã, Irã, sábado, 28 de fevereiro de 2026. — Foto: AP

Artigo de João Paulo Charleaux*

O bombardeio dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã hoje é ilegal porque não satisfaz as exigências impostas pelo direito internacional quando se trata do uso da força entre países. Mesmo dirigido contra um regime teocrático ditatorial, que persegue seu próprio povo e desenvolve um programa atômico fora da lei, esses ataques, ainda assim, não são legais.

O direito internacional prevê apenas duas possibilidades, muito estritas, para ações militares como essa. Primeiro, elas devem corresponder a um ato de autodefesa imediata contra uma agressão sofrida. Essa agressão é normalmente caracterizada pela intrusão militar do território de um país, seja com tropas, embarcações,aeronaves ou mísseis e foguetes. Como os territórios de Israel e dos EUA não foram invadidos pelo Irã, esse critério não está satisfeito.

A segunda hipótese é ainda mais remota: o Conselho de Segurança das Nações Unidas teria de aprovar o uso da força contra o Irã, depois de ter concluído que o regime dos aiatolás representa uma ameaça à paz e à segurança internacionais. Esse tampouco foi o caso, porque o Conselho de Segurança está, desde pelo menos a guerra na Líbia, em 2011, paralisado por um impasse insolúvel entre seus membros permanentes, que têm poder de veto: EUA, França, Reino Unido, Rússia e China.

Não há outro caminho, além desses dois, para que um ataque militar como o realizado hoje seja legal. Mas há duas brechas que israelenses e americanos podem explorar. A primeira delas é a de que o Irã estava envolvido em atos preparatórios de agressão, que justificariam um ataque preventivo. A segunda é de que o Irã já realiza ações contra os EUA e Israel por meio de proxies na região, como o Hezbollah no Líbano e os houtis no Iêmen, que não seriam nada mais que paus mandados de Teerã.

O ataque preventivo só é legal quando dirigido contra uma ameaça iminente. Ou seja, para que ele seja legal, precisa provar que é a única resposta possível diante de uma agressão que está a ponto de acontecer. Nada indica, entretanto, que o Irã estivesse a ponto de lançar uma bomba atômica contra seus inimigos.

Aliás, não existe nenhuma informação produzida pelos órgãos atômicos internacionais que ateste a existência de uma bomba atômica iraniana. Já sobre os proxies, seria preciso demonstrar duas coisas: que eles de fato atuam sob comando direto de Teerã, e que estavam realizando ações neste momento contra israelenses e americanos.

Ainda no campo da análise da legalidade das ações dos Estados Unidos e de Israel, cabe verificar como se dará, entre os próprios americanos, o debate acerca da exigência constitucional de que o presidente busque a aprovação do Congresso para realizar uma guerra contra um Estado estrangeiro.


Essa obrigação é explícita e incontornável, mas Donald Trump tem feito verdadeiras acrobacias retóricas para driblá-la. No caso da invasão à Venezuela, por exemplo, a saída encontrada pelo presidente americano foi dizer que não se tratava de uma guerra, mas de uma operação policial de busca e captura, conduzida pelas Forças Armadas americanas, tendo como alvo um membro de cartel internacional de tráfico de drogas, Nicolás Maduro.


Do ponto de vista policial, o argumento pode até fazer sentido, mas, no direito internacional, toda invasão de um território estrangeiro é guerra, e, como tal, demanda aprovação do Congresso Nacional, como diz a Constituição.


Uma semana antes de atacar o Irã, Trump foi confrontado pela Suprema Corte americana por ter realizado uma guerra tarifária contra outros países, sem a anuência do Congresso. Do ponto de vista regimental, não há diferença entre as duas coisas, e, portanto, deputados e senadores democratas poderão explorar esse caminho, caso queiram impor nova derrota judicial ao presidente na Suprema Corte e maior desgaste político aos rivais republicados, faltando oito meses para as eleições de meio de mandato, as chamadas midterms.

Ainda assim, esse caminho divisionista é incerto, considerando o patriotismo e o senso de unidade nacional que costuma estar presente nos Estados Unidos em situações como essa.

O caso israelense é mais simples, porque o país considera estar em guerra contra diversos vizinhos há anos. A jurisprudência israelense vai no sentido de referendar essas ações militares como parte de uma autodefesa legítima diante de agressões constantes e intermitentes, que caracterizariam um estado permanente de guerra. Nesse sentido, todo ato hostil de Israel é caracterizado como defesa, não agressão.

O argumento não é estapafúrdio, e tem a seu favor o fato de que muitos inimigos do Estado israelense —em primeiro lugar, o próprio regime iraniano— pregam abertamente a destruição do Estado de Israel e a morte de judeus.

A questão aqui é, novamente, se a resposta israelense está circunscrita a uma autodefesa oportuna contra uma ameaça em curso ou iminente, ou se ela se estende no tempo e se exacerba na forma, de maneira a abandonar o campo da autodefesa e invadir o domínio da mera jornada punitiva, da vingança ou, no limite extremo, do genocídio.

Quanto ao Irã, a ironia é que, embora o regime dos aiatolás seja pródigo em violações, sua resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, hoje, é legal. O país foi bombardeado e está respondendo, enquanto o Conselho de Segurança não dita medidas coletivas para lidar com a situação.

Se essa resposta —assim como os ataques— se darão de maneira legal ou não, no que diz respeito à forma, é outra história. Será preciso ver a partir de agora o quanto essas ações militares se mantêm restritas a alvos militares e legítimos, e o quanto elas se dirigem contra a população civil, o que passa a constituir mais uma volta nessa longa espiral de crimes.

*João Paulo Charleaux é jornalista e autor do livro "As Regras da Guerra", da Zahar Editora.







IA e a ilusão da eficiência

A promessa de trabalhar menos, vai se tornando uma realidade de trabalhar mais

ICL Notícias, 28/02/2026 | 06h43


Artigo de Bruno Natal*

Um estudo de oito meses conduzido por pesquisadores e publicado na Harvard Business Review acompanhou cerca de 200 funcionários de uma empresa de tecnologia nos EUA e descobriu que, ao contrário do que as empresas de big tech propagam, o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa não reduz o volume de trabalho. Pelo contrário, amplia o escopo de tarefas a serem realizadas e com isso estende o trabalho para mais horas do dia.

A pesquisa identificou três efeitos principais. Primeiro, a expansão de tarefas, com profissionais fazendo atividades que antes eram de outras áreas. Segundo, são os limites borrados entre trabalho e descanso, já que começar uma tarefa ficou mais fácil, o trabalho invade o horário de almoço, de reuniões e o fim do dia. E terceiro, com a capacidade de realizar multitarefas, trabalhadores tocam várias frentes em paralelo, o que eleva a carga cognitiva e pressão por entregas rápidas.

E o cansaço que isso causa tem uma explicação simples. Antes, você usava 20% do tempo na parte difícil do trabalho, que é pensar estratégia, organizar, criar o conceito, e 80% executando o que foi planejado. A IA é boa justamente nesses 80%, montar apresentação, redigir relatório, estruturar planilha. O problema é que esse tempo não virou folga. Virou mais trabalho. Como a IA resolve os 80%, você agora passa 100% do tempo fazendo a parte pesada, criando mais estratégias, mais conceitos, mais demandas para a máquina executar. O resultado é exaustão.

Um outro estudo do Center for AI Safety e da Scale AI testou 240 trabalhos reais de freelance, como design, programação, edição de vídeo, arquitetura e identificou que modelos de IA falharam em 96,25% das tarefas quando comparados diretamente a humanos. Arquivos corrompidos, trabalhos incompletos, baixa qualidade, inconsistências técnicas são comuns nas entregas feitas por IA. Embora a Inteligência Artificial tenha mostrado bom desempenho em redação básica, geração de imagens e código simples, o estudo sugere que ainda está longe de substituir trabalhadores em funções gerais. Haveria então um exagero na valorização econômica da IA.

A revista Cureus publicou outro estudo que propôs o termo Disfunção de Substituição por IA para descrever o sofrimento psicológico de trabalhadores que temem ser substituídos. Embora haja pouca evidência de demissões em massa causadas diretamente por automação, essa narrativa constante provoca ansiedade, insônia, depressão e crises de identidade profissional. Mesmo sem um diagnóstico clínico formal dessa disfunção, os autores sugerem terapia como forma de restaurar resiliência e senso de propósito (e de tratar o sintoma em vez da causa).

A promessa de trabalhar menos, vai se tornando uma realidade de trabalhar mais. A eficiência virou sobrecarga disfarçada. Se a IA dmultiplica demandas, talvez o problema não seja tecnológico e sim organizacional. Precisamos rever expectativas, não simplesmente adotar ferramentas com propostas mágicas.

Caso contrário, a automação só vai acelerar nosso esgotamento.

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Bruno Natal é jornalista, documentarista e apresentador do podcast RESUMIDO (www.resumido.cc), sobre o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossa vidas, e da newsletter O Futuro Explicado (www.resumido.substack.com). Disponível nas principais plataformas de streaming.

EUA E ISRAEL ATACAM IRÃ

Trump pede que povo iraniano "assuma" governo

ICL Notícias, 28/02/2026 | 05h35


Artigo de Jami Chade*

Em uma ação coordenada, EUA e Israel realizaram ataques contra o Irã. A ofensiva ocorreu horas depois de um encontro em Genebra entre as delegações de Irã e dos EUA fracassar em chegar a um acordo sobre o programa nuclear de Teerã. Fontes diplomáticas apontam que o foco da operação é matar autoridades e oficiais iranianos, na esperança de que haja uma mudança de regime.

Segundo a agência Reuters, vários líderes e comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica foram mortos, assim como políticos.

Imediatamente, o gabinete do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khaminei, ordenou que seu país iniciasse uma retaliação com mísseis e drones. Ele, segundo fontes, teria sido levado a um local seguro.

No Bahrein, a base naval dos EUA foi atingida por uma resposta iraniana. Explosões também foram registradas nos Emirados Árabes Unidos e Kuwait, locais de bases americanas. No Catar, um míssel iraniano foi abatido, enquanto o governo americano ordenou que seus cidadãos em toda a região busquem abrigo.

Sobre Jerusalem e Tel Aviv, explosões foram ouvidas.

Vários países fecharam seus espaços aéreo, numa sinalização do potencial risco de que o conflito se torne regional. Quatro ataques aéreos dos EUA ainda atingiram uma área ao sul da capital iraquiana, Bagdá. A área atacada é utilizada pelo Kataib Hezbollah, uma milícia iraquiana aliada ao Irã.

Assumam o governo

Nas redes sociais, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em um vídeo de oito minutos confirmou que os EUA lançaram “grandes operações de combate” e pediu que o povo iraniano usem a ocasião para tomar o governo.

Ele alegou que o Irã “tentou reconstruir seu programa nuclear e continuar desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior e que em breve podem atingir o território americano”.

Ele ainda afirmou que os EUA estão realizando uma operação “massiva” para “impedir que esta ditadura radical perversa ameace os Estados Unidos”.

“Ao grande e orgulhoso povo do Irã, digo esta noite que a hora da sua liberdade está próxima”, disse Trump. “Mantenham-se abrigados. Não saiam de casa. É muito perigoso lá fora. Bombas cairão por toda parte. Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que vocês terão por gerações”, pediu.

“Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos. Mas nunca a receberam. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora vocês têm um presidente que está lhes dando o que vocês querem. Então, vamos ver como vocês respondem. Os Estados Unidos estão apoiando vocês com força esmagadora e poder devastador. Agora é a hora de assumir o controle do seu destino e libertar o futuro próspero e glorioso que está ao seu alcance. Este é o momento de agir. Não o deixem passar”, completou.

De acordo com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a operação ocorreu para remover “ameaças existenciais”.

“Meus irmãos e irmãs, cidadãos de Israel, há pouco tempo, Israel e os Estados Unidos embarcaram em uma operação para eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã”, disse o israelense.

“Agradeço ao nosso grande amigo, o Presidente Donald Trump, por sua liderança histórica. Por 47 anos, o regime do Aiatolá vem gritando ‘Morte a Israel’, ‘Morte à América’, disse.

Segundo Netanyahu, ”ele derramou nosso sangue, assassinou muitos americanos e massacrou seu próprio povo”.

EUA e Israel atacam Irã. AFP

“Este regime terrorista assassino não deve ser armado com armas nucleares que lhe permitam ameaçar toda a humanidade. Nossa ação conjunta criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos”, afirmou.

“Chegou a hora de todos os segmentos do povo iraniano – persas, curdos, azeris, balúchis e ahwazis – se libertarem do jugo da tirania e construírem um Irã livre e pacífico.

A mensagem também foi dirigida aos israelense. “Apelo a vocês, cidadãos de Israel, para que ouçam as instruções do Comando da Frente Interna.” Nos próximos dias, na Operação “O Rugido do Leão”, todos nós precisaremos de perseverança e coragem”, disse.
Onde acontecem os ataques

Em Teerã, pelo menos duas ondas de explosões foram registradas na zona da cidade onde ficam os prédios do gabinete presidencial e os escritórios do Conselho de Segurança Nacional.

Ataques também foram realizados contra os escritórios do líder supremo e da Assembleia de Especialistas, órgão responsável pela escolha do líder supremo iraniano. Fontes iranianas afirmaram que Khamenei não estava em Teerã.

Não há, por enquanto, qualquer informação sobre o assassinato de líderes iraniano. Mas Oo quartel-general da Guarda Revolucionária Islâmica também foi atacado, e um número significativo de mortos e feridos foi relatado.

Teerã não foi o único lugar atacado. Cidades como Qom, Tabriz, Kermanshah, Lorestan, Khorramabad e Karaj também registraram explosões.

Além disso, ataques cibernéticos também foram organizados, abalando a internet em todo o país.

Retaliações

De acordo com as autoridades de Israel, os iranianos lançaram uma primeira onda de retaliações. Mas foram interceptados.

“Há pouco tempo, sirenes soaram em diversas áreas do país após a identificação de mísseis lançados do Irã em direção ao Estado de Israel”, disse.

“Neste momento, a Força Aérea Israelense está operando para interceptar e atacar as ameaças, quando necessário, a fim de eliminá-las”, disse.

“A defesa não é hermética e, portanto, é essencial que o público continue a seguir as diretrizes do Comando da Defesa Civil”, alertou.


*Jamil Chade cruzou fronteiras com refugiados, testemunhou crimes contra a humanidade, viajou com papas, cobriu cúpulas diplomáticas, percorreu mais de 70 países, foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025, foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. É embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade. Tem escritório na sede da ONU em Genebra.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

UE anuncia entrada em vigor de acordo com Mercosul, ignorando resistência da França

Governo Macron critica decisão do bloco e diz que medida viola instituições

ICL Noticias, 27/02/2026 | 08h09


Artigo de Jamil Chade

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou nesta sexta-feira que a União Europeia implementará provisoriamente o acordo comercial com os países do Mercosul, após a Argentina e o Uruguai concluírem seus respectivos processos de ratificação nas últimas horas.

“Nas últimas semanas, mantive extensas discussões sobre este assunto com os Estados-Membros e membros do Parlamento Europeu. Com base nessas discussões, a Comissão procederá agora à implementação provisória”, declarou ela em uma breve coletiva de imprensa.

A iniciativa promete causar uma forte discussão na Europa. Países como Espanha e Alemanha apoiam o acordo com o Mercosul, mas governos como o da França rejeitam e alegam que o impacto será profundo para seus produtores agrícolas.

Presidente Lula em encontro com presidente da Comissão Europeia
. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Minutos depois do anúncio da UE, o governo de Emmanuel Macron criticou a Comissão Europeia. “Essa é uma decisão da qual obviamente lamentamos”, afirmou a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard. Para ela, as instituições da UE precisam ser respeitadas, numa referência ao posicionamento tomado pelo Parlamento Europeu que, em janeiro, bloqueou a entrada em vigor do acordo.

No começo do ano, os opositores ao acordo conseguiram votos suficientes no Parlamento Europeu para que o tema fosse levado à Corte de Justiça da Europa. Na prática, isso significaria que o processo de aprovação do tratado poderia ser adiado para meados de 2027.

Naquele momento, reunidos em frente ao Parlamento Europeu, os agricultores explodiram em festa ao saberem do resultado. “Podemos nos orgulhar. Estamos exaustos, trabalhamos neste assunto durante meses e meses, anos”, disse Quentin Le Guillous, Secretário Geral dos Jovens Agricultores.

O chefe da diplomacia da França, Jean-Noël Barrot, também comemorou. “A França está disposta a dizer não quando necessário, e a história muitas vezes comprova isso”, acrescentou. “A luta continua, para proteger nossa agricultura e garantir nossa soberania alimentar”, insistiu.

Caberia aos tribunais europeus examinar se, primeiro, o pacto com o Mercosul não viola os tratados da UE. Nas horas que antecederam o voto, mais de mil tratores cercaram o Parlamento.

O pacto comercial, depois de 25 anos de negociações, foi assinado em janeiro em Assunção, no Paraguai. O fim do processo foi comemorado por governos sul-americanos e pela Comissão Europeia como uma resposta ao desmonte do multilateralismo promovido por Donald Trump.

Mas sua assinatura não representava sua entrada em vigor. A França não havia dado sua chancela ao processo e, nos bastidores, apoiou parlamentares europeus a frear a ratificação.

Assim, uma proposta feita por cinco grupos políticos representando 21 nacionalidades diferentes, mais de 150 eurodeputados declararam que “a Comissão Europeia ultrapassou o seu mandato ao dividir o acordo entre as suas vertentes comercial e política, a fim de contornar a aprovação dos parlamentos nacionais durante o processo de ratificação”.

A ala protecionista precisava de uma maioria simples de votos, o que foi obtido por apenas dez votos de diferença. A ala protecionista obteve 334 votos, contra 324 apoios pelo acordo. Onze deputados ainda optaram por se abster.

Até que a Corte examine o tratado, isso congelaria qualquer ratificação por pelo menos dezoito meses.

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Lula encaminha candidatura de Haddad ao governo de São Paulo em chapa com Marina e Simone Tebe

ELEIÇÕES 2026

Presidente sinaliza a aliados acordo com ministro da Fazenda para liderar palanque petista no maior colégio eleitoral, enquanto PT discute nomes ao Senado

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 04:38 h

Fernando Haddad e Simone Tebet (Foto: Agência Gov)

Redação Brasil 247

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a ministros e aliados que encaminhou o acerto com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para que ele seja o candidato ao Governo de São Paulo nas eleições de 2026. A informação antecipada pelo jornalista Mario Vitor Santos, no Bom Dia 247 de 26 de fevereiro, e publicada pelo portal Metrópoles, na esteira das movimentações políticas que vêm redesenhando o tabuleiro eleitoral no maior colégio eleitoral do país.

De acordo com o relato, aliados de Haddad avaliavam que a recente viagem à Índia e à Coreia do Sul, na qual o ministro acompanhou Lula, serviria como um momento de aproximação e convencimento para reduzir a resistência do ex-prefeito da capital paulista em voltar a disputar o Palácio dos Bandeirantes. A leitura no entorno do governo é de que o presidente busca consolidar um nome forte para liderar o palanque lulista em São Paulo, estado decisivo para o resultado nacional.

Haddad no centro do plano para São Paulo

Segundo a apuração divulgada, Lula considera Fernando Haddad o principal nome para comandar a estratégia eleitoral do campo governista em São Paulo. A escolha se relaciona tanto ao peso político do estado quanto à necessidade de estruturar uma candidatura competitiva contra a atual gestão paulista, num cenário em que a oposição tende a concentrar forças.

Ainda conforme a reportagem, Haddad vinha se mostrando reticente em aceitar o desafio, após ter sido derrotado no segundo turno em 2022 pelo atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O histórico recente, somado ao ambiente de polarização e ao favoritismo atribuído ao governador por pesquisas de intenção de voto mencionadas no texto original, compõe o pano de fundo para a cautela do ministro.

Mesmo assim, a sinalização de Lula a interlocutores indica que o Planalto trabalha com a hipótese de transformar Haddad na âncora do projeto eleitoral em São Paulo. Isso significa, na prática, dar a ele o papel de liderar um palanque robusto, capaz de articular alianças e de sustentar uma campanha com densidade política no estado.

A viagem internacional como momento de articulação política

A presença de Haddad ao lado de Lula em compromissos recentes no exterior é descrita, no relato publicado, como um elemento político relevante. Aliados do ministro apostavam que a longa agenda internacional poderia ser usada para reduzir resistências e ampliar o espaço de conversa, longe da pressão cotidiana de Brasília e do noticiário doméstico.

Na lógica tradicional do poder, viagens desse tipo não funcionam apenas como cumprimento de agendas diplomáticas e econômicas. Elas também oferecem tempo e ambiente para alinhamentos internos e negociações que, muitas vezes, não amadurecem no ritmo fragmentado do dia a dia. No caso descrito, o cálculo seria o de usar a proximidade para consolidar um entendimento em torno do projeto de 2026 em São Paulo.

O movimento também sugere que, enquanto o governo administra pautas econômicas e políticas no curto prazo, setores do entorno presidencial já operam com foco na disputa eleitoral e na montagem de um desenho estratégico para o próximo ciclo.

Cenário eleitoral e o desafio contra Tarcísio de Freitas

A reportagem aponta que Tarcísio de Freitas é visto como favorito para vencer novamente o pleito, com base nas últimas pesquisas citadas no texto. Essa percepção reforça a lógica de Lula ao buscar um nome com musculatura política e reconhecimento público para uma disputa de alta complexidade.

Nesse contexto, o nome de Haddad aparece como um ativo por diferentes razões: ele já disputou o governo, tem histórico eleitoral no estado, foi prefeito da capital e hoje ocupa uma posição central na condução da política econômica do governo federal. Ao mesmo tempo, o desafio é proporcional ao tamanho do ativo: a eventual candidatura exigiria calibrar a exposição do ministro, administrar o impacto político de uma saída do comando da Fazenda e estruturar uma coligação capaz de disputar voto a voto no estado.

O Palácio dos Bandeirantes, além de ser um posto de poder regional, tem influência direta na correlação de forças nacional. Por isso, uma candidatura competitiva em São Paulo costuma ser tratada como peça-chave para qualquer projeto presidencial, seja de continuidade, seja de oposição.

Senado: PT articula composição com Tebet e Marina

Além da disputa pelo governo paulista, o texto informa que o PT articula um acordo para lançar as ministras Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (Rede) como candidatas ao Senado por São Paulo. A hipótese, segundo a reportagem, incluiria a possibilidade de ambas mudarem de partido para a eleição, com o PSB apontado como um possível destino.

A movimentação, se confirmada, teria implicações relevantes para a engenharia de alianças. Uma chapa majoritária que combine candidatura ao governo e nomes competitivos ao Senado pode ampliar o arco de apoios, distribuir palanques e fortalecer a disputa em duas frentes que se retroalimentam: o executivo estadual e a bancada senatorial.

No caso de Simone Tebet, a reportagem ressalta um ponto sensível: por ser de Mato Grosso do Sul, ela precisaria mudar o domicílio eleitoral para concorrer em São Paulo, conforme as regras da legislação vigente. O dado é central porque, na prática, impõe um requisito burocrático e político que precisa ser resolvido com antecedência para evitar insegurança jurídica e ruídos na pré-campanha.

O texto também registra que Tebet já afirmou que deve deixar o cargo pelo menos até o dia 30 de março deste ano e que pretende ter ao menos mais uma conversa com Lula para tratar das eleições de 2026. A afirmação indica que a ministra, independentemente do desfecho, reconhece a necessidade de organizar prazos e decisões com antecedência, sobretudo diante das exigências legais e do calendário político.

O que está em jogo para 2026 em São Paulo

A sinalização de Lula sobre a candidatura de Haddad e as articulações para o Senado sugerem um esforço para montar uma frente forte em São Paulo, combinando projeção nacional, densidade eleitoral e capacidade de alianças. O estado concentra uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro e costuma funcionar como termômetro político, com reflexos diretos na disputa presidencial e na composição do Congresso.

Ao encaminhar um nome para o governo paulista e discutir nomes ao Senado, o campo governista busca antecipar dilemas que sempre reaparecem às vésperas de eleições: quem lidera o palanque, como equilibrar interesses de partidos aliados e como maximizar competitividade num território onde a disputa costuma ser dura e intensamente nacionalizada.

Se o desenho se confirmar, a disputa paulista de 2026 tende a ser uma das mais observadas do país, tanto pelo peso do estado quanto pelo simbolismo do embate entre projetos políticos que se confrontam no plano nacional e se projetam, com força, no cenário regional.

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'Não devo minhas eleições a nenhum latifundiário ou banqueiro da Faria Lima', diz Lula

Brasil

'Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem', disse o presidente à população durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 17:11 hAtualizado em 27 de fevereiro de 2026, 18:02 h

Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Artigo de Leonardo Lucena

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (27), em Brasília (DF), que sua trajetória eleitoral não está vinculada a interesses de banqueiros, grandes empresários ou latifundiários. A declaração foi feita durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada na capital federal.

“A razão de eu ter sido eleito presidente 2003, em 2006, da Dilma ter sido eleita em 20201, receita em 2024, de ter sido eleito em 2022 não deve isso a nenhum banqueiro da Faria Lima, a nenhum grande empresário braislkeiro e a nenhum grande latifundiário”, declarou o presidente.

“Sei da onde eu vim, sei pra onde vou, sei que foram meus amigos, sei quem está ao lado lado quando estive preso. Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem. Acredito em vocês. Sou um de vocês que chegou à presidência da República”.

A 6ª Conferência Nacional das Cidades teve início na terça-feira (24) e segue até esta sexta-feira (27), reunindo representantes de diferentes segmentos para discutir políticas públicas urbanas. O encontro coloca em pauta temas como habitação, saneamento básico, mobilidade urbana, desenvolvimento das periferias e planejamento das cidades.

A programação também inclui debates sobre controle social, sustentabilidade, mudanças climáticas, transformações digitais e segurança cidadã. O processo preparatório passou por mais de 1,8 mil municípios, além dos 26 estados e do Distrito Federal.

Organizada pelo Conselho das Cidades, órgão colegiado vinculado ao Ministério das Cidades, a conferência ocorre no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB). O evento reúne integrantes do poder público, movimentos sociais, sociedade civil, setor empresarial e especialistas com o objetivo de formular propostas que orientem o desenvolvimento urbano do país nos próximos anos.

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CNJ afasta desembargador que absolveu réu por estupro de vulnerável em MG

POLÌTICA

Corregedoria aponta cinco denúncias de crimes sexuais contra o magistrado, alvo de operação da Polícia Federal

ICL Noticias, 27/02/2026 | 14h27


Por Cleber Lourenço

A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (27), operação contra o desembargador Magid Nauef Láuar, integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que absolveu réu por estupro de vulnerável. No mesmo contexto, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o afastamento imediato do magistrado de todas as suas funções.

A medida foi adotada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após investigação preliminar instaurada para apurar indícios de “teratologia” em decisão proferida pelo desembargador — termo utilizado para caracterizar decisão juridicamente aberrante. O caso que deu origem à apuração foi o julgamento de um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos, em Indianópolis, no Triângulo Mineiro.

Em 11 de fevereiro, Magid Láuar votou pela absolvição do réu e da mãe da vítima, sob o argumento de que haveria “vínculo afetivo consensual” entre o acusado e a criança. A tese confrontou entendimento consolidado nos tribunais superiores, segundo o qual menores de 14 anos são absolutamente incapazes de consentir em relações sexuais, configurando-se o crime de estupro de vulnerável independentemente de eventual relação afetiva.

A decisão gerou forte reação de especialistas, entidades da sociedade civil e órgãos de controle. Após recurso do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o próprio desembargador reviu sua posição em 23 de fevereiro, restabeleceu a condenação de primeira instância e determinou a prisão do acusado e da mãe da vítima.

As apurações conduzidas pela Corregedoria do CNJ, no entanto, avançaram para além do conteúdo da decisão judicial. Segundo a nota oficial, ao menos cinco vítimas já foram ouvidas no procedimento.

As cinco denúncias

Os relatos envolvem episódios distintos ocorridos em diferentes períodos da trajetória do magistrado:

Caso envolvendo sobrinho do magistrado, que ganhou repercussão inicial e rompeu o silêncio público sobre sua conduta. Novo relato surgido nos comentários de publicação sobre o primeiro caso, indicando possível nova vítima.

Episódio ocorrido em 1997, quando o então juiz atuava na comarca de Betim. Uma estagiária de 19 anos relatou ter sido convidada para um almoço e, segundo a representação, teria sofrido aproximação física indevida, com mão na perna durante o encontro e beijo forçado.

Episódio de 2009, envolvendo estagiária de 30 anos, que descreveu investidas físicas e conduta considerada inadequada em ambiente funcional e de subordinação.

Novo relato relacionado ao período em que o magistrado atuava na comarca de Bonfim de uma vítima que hoje mora no exterior.

A deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG), responsável por encaminhar as denúncias ao CNJ, afirmou ao ICL Notícias que o afastamento foi uma resposta necessária diante da gravidade dos fatos.

“Fico muito feliz que o CNJ tenha sido tão rápido em ouvir as vítimas, instaurar o procedimento e tomar esta decisão justa e necessária. É uma decisão fruto de muita pressão popular e de uma responsabilidade importante do CNJ em defender o tribunal de justiça e a justiça brasileira, que precisa prestar contas à sociedade e não estava respeitando a legalidade e também a ética dos juízes e desembargadores, que também estavam em xeque. Vamos seguir lutando para que a gente consiga construir um judiciário capaz de fato de produzir justiça social”, declarou.

A nota do CNJ informa que parte dos fatos narrados pode estar prescrita na esfera criminal em razão do tempo decorrido. No entanto, também foram identificados episódios mais recentes ainda não atingidos pela prescrição, o que pode permitir desdobramentos na esfera penal.

Diante da gravidade e da verossimilhança dos elementos colhidos, o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, determinou o afastamento cautelar do desembargador. A medida visa garantir que a apuração transcorra sem interferências e preservar a credibilidade da magistratura.

Procedimentos disciplinares no âmbito do CNJ não configuram juízo prévio de culpa, mas podem resultar em sanções administrativas que vão de advertência à aposentadoria compulsória.

A seguir, a íntegra da nota divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça:
Nota à imprensa

A Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) determinou, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro, o afastamento imediato das funções do desembargador Magid Nauef Láuar, desembargador integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Magid Nauef Láuar, Desembargador Substituto e Presidente 
da ANAMAGES. (Foto: Luiz Silveira/AgênciaCNJ)

A partir de investigação preliminar conduzida pelo órgão para apurar indícios de teratologia em decisão proferida pelo requerido, que gerou forte consternação e indignação popular, foram identificados desdobramentos que apontaram para a prática de delitos contra a dignidade sexual por parte do magistrado, durante o período em que este atuou como juiz de direito nas comarcas de Ouro Preto/MG e Betim/MG.

Até o momento, por determinação do Corregedor Nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, foram ouvidas ao menos cinco vítimas, dentre elas uma residente no exterior. Muito embora parte dos eventos narrados, em razão do longo lapso temporal, já tenha sido alcançada pela prescrição da pretensão persecutória em âmbito criminal, também foram identificados fatos mais recentes, ainda não abarcados pela prescrição, a determinar o prosseguimento das apurações.

Diante desses elementos, em face da gravidade e verossimilhança dos fatos até aqui levantados, o Corregedor Nacional proferiu decisão cautelar para determinar o afastamento do desembargador Magid Nauef Láuar, de todas as suas funções, para garantir que a apuração dos fatos transcorra de forma livre, sem quaisquer embaraços.

A medida em apreço é proporcional à gravidade dos relatos e está alinhada ao devido processo legal.

Por fim, a Corregedoria enfatiza que procedimentos disciplinares não configuram juízo prévio de culpa, mas têm como objetivo preservar a credibilidade da magistratura, assegurar o regular funcionamento da Justiça e manter a confiança da sociedade no Poder Judiciário.

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