sábado, 28 de fevereiro de 2026

Análise: Bombardeio ao Irã é ilegal, mesmo contra um regime ilegal

Uol, 28/02/2026 09h25, Atualizada em 28/02/2026 09h47…

Pessoas observam enquanto fumaça sobe no horizonte após uma explosão 
em Teerã, Irã, sábado, 28 de fevereiro de 2026. — Foto: AP

Artigo de João Paulo Charleaux*

O bombardeio dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã hoje é ilegal porque não satisfaz as exigências impostas pelo direito internacional quando se trata do uso da força entre países. Mesmo dirigido contra um regime teocrático ditatorial, que persegue seu próprio povo e desenvolve um programa atômico fora da lei, esses ataques, ainda assim, não são legais.

O direito internacional prevê apenas duas possibilidades, muito estritas, para ações militares como essa. Primeiro, elas devem corresponder a um ato de autodefesa imediata contra uma agressão sofrida. Essa agressão é normalmente caracterizada pela intrusão militar do território de um país, seja com tropas, embarcações,aeronaves ou mísseis e foguetes. Como os territórios de Israel e dos EUA não foram invadidos pelo Irã, esse critério não está satisfeito.

A segunda hipótese é ainda mais remota: o Conselho de Segurança das Nações Unidas teria de aprovar o uso da força contra o Irã, depois de ter concluído que o regime dos aiatolás representa uma ameaça à paz e à segurança internacionais. Esse tampouco foi o caso, porque o Conselho de Segurança está, desde pelo menos a guerra na Líbia, em 2011, paralisado por um impasse insolúvel entre seus membros permanentes, que têm poder de veto: EUA, França, Reino Unido, Rússia e China.

Não há outro caminho, além desses dois, para que um ataque militar como o realizado hoje seja legal. Mas há duas brechas que israelenses e americanos podem explorar. A primeira delas é a de que o Irã estava envolvido em atos preparatórios de agressão, que justificariam um ataque preventivo. A segunda é de que o Irã já realiza ações contra os EUA e Israel por meio de proxies na região, como o Hezbollah no Líbano e os houtis no Iêmen, que não seriam nada mais que paus mandados de Teerã.

O ataque preventivo só é legal quando dirigido contra uma ameaça iminente. Ou seja, para que ele seja legal, precisa provar que é a única resposta possível diante de uma agressão que está a ponto de acontecer. Nada indica, entretanto, que o Irã estivesse a ponto de lançar uma bomba atômica contra seus inimigos.

Aliás, não existe nenhuma informação produzida pelos órgãos atômicos internacionais que ateste a existência de uma bomba atômica iraniana. Já sobre os proxies, seria preciso demonstrar duas coisas: que eles de fato atuam sob comando direto de Teerã, e que estavam realizando ações neste momento contra israelenses e americanos.

Ainda no campo da análise da legalidade das ações dos Estados Unidos e de Israel, cabe verificar como se dará, entre os próprios americanos, o debate acerca da exigência constitucional de que o presidente busque a aprovação do Congresso para realizar uma guerra contra um Estado estrangeiro.


Essa obrigação é explícita e incontornável, mas Donald Trump tem feito verdadeiras acrobacias retóricas para driblá-la. No caso da invasão à Venezuela, por exemplo, a saída encontrada pelo presidente americano foi dizer que não se tratava de uma guerra, mas de uma operação policial de busca e captura, conduzida pelas Forças Armadas americanas, tendo como alvo um membro de cartel internacional de tráfico de drogas, Nicolás Maduro.


Do ponto de vista policial, o argumento pode até fazer sentido, mas, no direito internacional, toda invasão de um território estrangeiro é guerra, e, como tal, demanda aprovação do Congresso Nacional, como diz a Constituição.


Uma semana antes de atacar o Irã, Trump foi confrontado pela Suprema Corte americana por ter realizado uma guerra tarifária contra outros países, sem a anuência do Congresso. Do ponto de vista regimental, não há diferença entre as duas coisas, e, portanto, deputados e senadores democratas poderão explorar esse caminho, caso queiram impor nova derrota judicial ao presidente na Suprema Corte e maior desgaste político aos rivais republicados, faltando oito meses para as eleições de meio de mandato, as chamadas midterms.

Ainda assim, esse caminho divisionista é incerto, considerando o patriotismo e o senso de unidade nacional que costuma estar presente nos Estados Unidos em situações como essa.

O caso israelense é mais simples, porque o país considera estar em guerra contra diversos vizinhos há anos. A jurisprudência israelense vai no sentido de referendar essas ações militares como parte de uma autodefesa legítima diante de agressões constantes e intermitentes, que caracterizariam um estado permanente de guerra. Nesse sentido, todo ato hostil de Israel é caracterizado como defesa, não agressão.

O argumento não é estapafúrdio, e tem a seu favor o fato de que muitos inimigos do Estado israelense —em primeiro lugar, o próprio regime iraniano— pregam abertamente a destruição do Estado de Israel e a morte de judeus.

A questão aqui é, novamente, se a resposta israelense está circunscrita a uma autodefesa oportuna contra uma ameaça em curso ou iminente, ou se ela se estende no tempo e se exacerba na forma, de maneira a abandonar o campo da autodefesa e invadir o domínio da mera jornada punitiva, da vingança ou, no limite extremo, do genocídio.

Quanto ao Irã, a ironia é que, embora o regime dos aiatolás seja pródigo em violações, sua resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, hoje, é legal. O país foi bombardeado e está respondendo, enquanto o Conselho de Segurança não dita medidas coletivas para lidar com a situação.

Se essa resposta —assim como os ataques— se darão de maneira legal ou não, no que diz respeito à forma, é outra história. Será preciso ver a partir de agora o quanto essas ações militares se mantêm restritas a alvos militares e legítimos, e o quanto elas se dirigem contra a população civil, o que passa a constituir mais uma volta nessa longa espiral de crimes.

*João Paulo Charleaux é jornalista e autor do livro "As Regras da Guerra", da Zahar Editora.







IA e a ilusão da eficiência

A promessa de trabalhar menos, vai se tornando uma realidade de trabalhar mais

ICL Notícias, 28/02/2026 | 06h43


Artigo de Bruno Natal*

Um estudo de oito meses conduzido por pesquisadores e publicado na Harvard Business Review acompanhou cerca de 200 funcionários de uma empresa de tecnologia nos EUA e descobriu que, ao contrário do que as empresas de big tech propagam, o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa não reduz o volume de trabalho. Pelo contrário, amplia o escopo de tarefas a serem realizadas e com isso estende o trabalho para mais horas do dia.

A pesquisa identificou três efeitos principais. Primeiro, a expansão de tarefas, com profissionais fazendo atividades que antes eram de outras áreas. Segundo, são os limites borrados entre trabalho e descanso, já que começar uma tarefa ficou mais fácil, o trabalho invade o horário de almoço, de reuniões e o fim do dia. E terceiro, com a capacidade de realizar multitarefas, trabalhadores tocam várias frentes em paralelo, o que eleva a carga cognitiva e pressão por entregas rápidas.

E o cansaço que isso causa tem uma explicação simples. Antes, você usava 20% do tempo na parte difícil do trabalho, que é pensar estratégia, organizar, criar o conceito, e 80% executando o que foi planejado. A IA é boa justamente nesses 80%, montar apresentação, redigir relatório, estruturar planilha. O problema é que esse tempo não virou folga. Virou mais trabalho. Como a IA resolve os 80%, você agora passa 100% do tempo fazendo a parte pesada, criando mais estratégias, mais conceitos, mais demandas para a máquina executar. O resultado é exaustão.

Um outro estudo do Center for AI Safety e da Scale AI testou 240 trabalhos reais de freelance, como design, programação, edição de vídeo, arquitetura e identificou que modelos de IA falharam em 96,25% das tarefas quando comparados diretamente a humanos. Arquivos corrompidos, trabalhos incompletos, baixa qualidade, inconsistências técnicas são comuns nas entregas feitas por IA. Embora a Inteligência Artificial tenha mostrado bom desempenho em redação básica, geração de imagens e código simples, o estudo sugere que ainda está longe de substituir trabalhadores em funções gerais. Haveria então um exagero na valorização econômica da IA.

A revista Cureus publicou outro estudo que propôs o termo Disfunção de Substituição por IA para descrever o sofrimento psicológico de trabalhadores que temem ser substituídos. Embora haja pouca evidência de demissões em massa causadas diretamente por automação, essa narrativa constante provoca ansiedade, insônia, depressão e crises de identidade profissional. Mesmo sem um diagnóstico clínico formal dessa disfunção, os autores sugerem terapia como forma de restaurar resiliência e senso de propósito (e de tratar o sintoma em vez da causa).

A promessa de trabalhar menos, vai se tornando uma realidade de trabalhar mais. A eficiência virou sobrecarga disfarçada. Se a IA dmultiplica demandas, talvez o problema não seja tecnológico e sim organizacional. Precisamos rever expectativas, não simplesmente adotar ferramentas com propostas mágicas.

Caso contrário, a automação só vai acelerar nosso esgotamento.

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Bruno Natal é jornalista, documentarista e apresentador do podcast RESUMIDO (www.resumido.cc), sobre o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossa vidas, e da newsletter O Futuro Explicado (www.resumido.substack.com). Disponível nas principais plataformas de streaming.

EUA E ISRAEL ATACAM IRÃ

Trump pede que povo iraniano "assuma" governo

ICL Notícias, 28/02/2026 | 05h35


Artigo de Jami Chade*

Em uma ação coordenada, EUA e Israel realizaram ataques contra o Irã. A ofensiva ocorreu horas depois de um encontro em Genebra entre as delegações de Irã e dos EUA fracassar em chegar a um acordo sobre o programa nuclear de Teerã. Fontes diplomáticas apontam que o foco da operação é matar autoridades e oficiais iranianos, na esperança de que haja uma mudança de regime.

Segundo a agência Reuters, vários líderes e comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica foram mortos, assim como políticos.

Imediatamente, o gabinete do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khaminei, ordenou que seu país iniciasse uma retaliação com mísseis e drones. Ele, segundo fontes, teria sido levado a um local seguro.

No Bahrein, a base naval dos EUA foi atingida por uma resposta iraniana. Explosões também foram registradas nos Emirados Árabes Unidos e Kuwait, locais de bases americanas. No Catar, um míssel iraniano foi abatido, enquanto o governo americano ordenou que seus cidadãos em toda a região busquem abrigo.

Sobre Jerusalem e Tel Aviv, explosões foram ouvidas.

Vários países fecharam seus espaços aéreo, numa sinalização do potencial risco de que o conflito se torne regional. Quatro ataques aéreos dos EUA ainda atingiram uma área ao sul da capital iraquiana, Bagdá. A área atacada é utilizada pelo Kataib Hezbollah, uma milícia iraquiana aliada ao Irã.

Assumam o governo

Nas redes sociais, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em um vídeo de oito minutos confirmou que os EUA lançaram “grandes operações de combate” e pediu que o povo iraniano usem a ocasião para tomar o governo.

Ele alegou que o Irã “tentou reconstruir seu programa nuclear e continuar desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior e que em breve podem atingir o território americano”.

Ele ainda afirmou que os EUA estão realizando uma operação “massiva” para “impedir que esta ditadura radical perversa ameace os Estados Unidos”.

“Ao grande e orgulhoso povo do Irã, digo esta noite que a hora da sua liberdade está próxima”, disse Trump. “Mantenham-se abrigados. Não saiam de casa. É muito perigoso lá fora. Bombas cairão por toda parte. Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que vocês terão por gerações”, pediu.

“Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos. Mas nunca a receberam. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora vocês têm um presidente que está lhes dando o que vocês querem. Então, vamos ver como vocês respondem. Os Estados Unidos estão apoiando vocês com força esmagadora e poder devastador. Agora é a hora de assumir o controle do seu destino e libertar o futuro próspero e glorioso que está ao seu alcance. Este é o momento de agir. Não o deixem passar”, completou.

De acordo com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a operação ocorreu para remover “ameaças existenciais”.

“Meus irmãos e irmãs, cidadãos de Israel, há pouco tempo, Israel e os Estados Unidos embarcaram em uma operação para eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã”, disse o israelense.

“Agradeço ao nosso grande amigo, o Presidente Donald Trump, por sua liderança histórica. Por 47 anos, o regime do Aiatolá vem gritando ‘Morte a Israel’, ‘Morte à América’, disse.

Segundo Netanyahu, ”ele derramou nosso sangue, assassinou muitos americanos e massacrou seu próprio povo”.

EUA e Israel atacam Irã. AFP

“Este regime terrorista assassino não deve ser armado com armas nucleares que lhe permitam ameaçar toda a humanidade. Nossa ação conjunta criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos”, afirmou.

“Chegou a hora de todos os segmentos do povo iraniano – persas, curdos, azeris, balúchis e ahwazis – se libertarem do jugo da tirania e construírem um Irã livre e pacífico.

A mensagem também foi dirigida aos israelense. “Apelo a vocês, cidadãos de Israel, para que ouçam as instruções do Comando da Frente Interna.” Nos próximos dias, na Operação “O Rugido do Leão”, todos nós precisaremos de perseverança e coragem”, disse.
Onde acontecem os ataques

Em Teerã, pelo menos duas ondas de explosões foram registradas na zona da cidade onde ficam os prédios do gabinete presidencial e os escritórios do Conselho de Segurança Nacional.

Ataques também foram realizados contra os escritórios do líder supremo e da Assembleia de Especialistas, órgão responsável pela escolha do líder supremo iraniano. Fontes iranianas afirmaram que Khamenei não estava em Teerã.

Não há, por enquanto, qualquer informação sobre o assassinato de líderes iraniano. Mas Oo quartel-general da Guarda Revolucionária Islâmica também foi atacado, e um número significativo de mortos e feridos foi relatado.

Teerã não foi o único lugar atacado. Cidades como Qom, Tabriz, Kermanshah, Lorestan, Khorramabad e Karaj também registraram explosões.

Além disso, ataques cibernéticos também foram organizados, abalando a internet em todo o país.

Retaliações

De acordo com as autoridades de Israel, os iranianos lançaram uma primeira onda de retaliações. Mas foram interceptados.

“Há pouco tempo, sirenes soaram em diversas áreas do país após a identificação de mísseis lançados do Irã em direção ao Estado de Israel”, disse.

“Neste momento, a Força Aérea Israelense está operando para interceptar e atacar as ameaças, quando necessário, a fim de eliminá-las”, disse.

“A defesa não é hermética e, portanto, é essencial que o público continue a seguir as diretrizes do Comando da Defesa Civil”, alertou.


*Jamil Chade cruzou fronteiras com refugiados, testemunhou crimes contra a humanidade, viajou com papas, cobriu cúpulas diplomáticas, percorreu mais de 70 países, foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025, foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. É embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade. Tem escritório na sede da ONU em Genebra.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

UE anuncia entrada em vigor de acordo com Mercosul, ignorando resistência da França

Governo Macron critica decisão do bloco e diz que medida viola instituições

ICL Noticias, 27/02/2026 | 08h09


Artigo de Jamil Chade

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou nesta sexta-feira que a União Europeia implementará provisoriamente o acordo comercial com os países do Mercosul, após a Argentina e o Uruguai concluírem seus respectivos processos de ratificação nas últimas horas.

“Nas últimas semanas, mantive extensas discussões sobre este assunto com os Estados-Membros e membros do Parlamento Europeu. Com base nessas discussões, a Comissão procederá agora à implementação provisória”, declarou ela em uma breve coletiva de imprensa.

A iniciativa promete causar uma forte discussão na Europa. Países como Espanha e Alemanha apoiam o acordo com o Mercosul, mas governos como o da França rejeitam e alegam que o impacto será profundo para seus produtores agrícolas.

Presidente Lula em encontro com presidente da Comissão Europeia
. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Minutos depois do anúncio da UE, o governo de Emmanuel Macron criticou a Comissão Europeia. “Essa é uma decisão da qual obviamente lamentamos”, afirmou a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard. Para ela, as instituições da UE precisam ser respeitadas, numa referência ao posicionamento tomado pelo Parlamento Europeu que, em janeiro, bloqueou a entrada em vigor do acordo.

No começo do ano, os opositores ao acordo conseguiram votos suficientes no Parlamento Europeu para que o tema fosse levado à Corte de Justiça da Europa. Na prática, isso significaria que o processo de aprovação do tratado poderia ser adiado para meados de 2027.

Naquele momento, reunidos em frente ao Parlamento Europeu, os agricultores explodiram em festa ao saberem do resultado. “Podemos nos orgulhar. Estamos exaustos, trabalhamos neste assunto durante meses e meses, anos”, disse Quentin Le Guillous, Secretário Geral dos Jovens Agricultores.

O chefe da diplomacia da França, Jean-Noël Barrot, também comemorou. “A França está disposta a dizer não quando necessário, e a história muitas vezes comprova isso”, acrescentou. “A luta continua, para proteger nossa agricultura e garantir nossa soberania alimentar”, insistiu.

Caberia aos tribunais europeus examinar se, primeiro, o pacto com o Mercosul não viola os tratados da UE. Nas horas que antecederam o voto, mais de mil tratores cercaram o Parlamento.

O pacto comercial, depois de 25 anos de negociações, foi assinado em janeiro em Assunção, no Paraguai. O fim do processo foi comemorado por governos sul-americanos e pela Comissão Europeia como uma resposta ao desmonte do multilateralismo promovido por Donald Trump.

Mas sua assinatura não representava sua entrada em vigor. A França não havia dado sua chancela ao processo e, nos bastidores, apoiou parlamentares europeus a frear a ratificação.

Assim, uma proposta feita por cinco grupos políticos representando 21 nacionalidades diferentes, mais de 150 eurodeputados declararam que “a Comissão Europeia ultrapassou o seu mandato ao dividir o acordo entre as suas vertentes comercial e política, a fim de contornar a aprovação dos parlamentos nacionais durante o processo de ratificação”.

A ala protecionista precisava de uma maioria simples de votos, o que foi obtido por apenas dez votos de diferença. A ala protecionista obteve 334 votos, contra 324 apoios pelo acordo. Onze deputados ainda optaram por se abster.

Até que a Corte examine o tratado, isso congelaria qualquer ratificação por pelo menos dezoito meses.

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O presidente dos EUA ainda chamou decisão de Londres de 'grande estupidez' e anunciou reunião com líderes europeus nesta semana em Davos

Lula encaminha candidatura de Haddad ao governo de São Paulo em chapa com Marina e Simone Tebe

ELEIÇÕES 2026

Presidente sinaliza a aliados acordo com ministro da Fazenda para liderar palanque petista no maior colégio eleitoral, enquanto PT discute nomes ao Senado

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 04:38 h

Fernando Haddad e Simone Tebet (Foto: Agência Gov)

Redação Brasil 247

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a ministros e aliados que encaminhou o acerto com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para que ele seja o candidato ao Governo de São Paulo nas eleições de 2026. A informação antecipada pelo jornalista Mario Vitor Santos, no Bom Dia 247 de 26 de fevereiro, e publicada pelo portal Metrópoles, na esteira das movimentações políticas que vêm redesenhando o tabuleiro eleitoral no maior colégio eleitoral do país.

De acordo com o relato, aliados de Haddad avaliavam que a recente viagem à Índia e à Coreia do Sul, na qual o ministro acompanhou Lula, serviria como um momento de aproximação e convencimento para reduzir a resistência do ex-prefeito da capital paulista em voltar a disputar o Palácio dos Bandeirantes. A leitura no entorno do governo é de que o presidente busca consolidar um nome forte para liderar o palanque lulista em São Paulo, estado decisivo para o resultado nacional.

Haddad no centro do plano para São Paulo

Segundo a apuração divulgada, Lula considera Fernando Haddad o principal nome para comandar a estratégia eleitoral do campo governista em São Paulo. A escolha se relaciona tanto ao peso político do estado quanto à necessidade de estruturar uma candidatura competitiva contra a atual gestão paulista, num cenário em que a oposição tende a concentrar forças.

Ainda conforme a reportagem, Haddad vinha se mostrando reticente em aceitar o desafio, após ter sido derrotado no segundo turno em 2022 pelo atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O histórico recente, somado ao ambiente de polarização e ao favoritismo atribuído ao governador por pesquisas de intenção de voto mencionadas no texto original, compõe o pano de fundo para a cautela do ministro.

Mesmo assim, a sinalização de Lula a interlocutores indica que o Planalto trabalha com a hipótese de transformar Haddad na âncora do projeto eleitoral em São Paulo. Isso significa, na prática, dar a ele o papel de liderar um palanque robusto, capaz de articular alianças e de sustentar uma campanha com densidade política no estado.

A viagem internacional como momento de articulação política

A presença de Haddad ao lado de Lula em compromissos recentes no exterior é descrita, no relato publicado, como um elemento político relevante. Aliados do ministro apostavam que a longa agenda internacional poderia ser usada para reduzir resistências e ampliar o espaço de conversa, longe da pressão cotidiana de Brasília e do noticiário doméstico.

Na lógica tradicional do poder, viagens desse tipo não funcionam apenas como cumprimento de agendas diplomáticas e econômicas. Elas também oferecem tempo e ambiente para alinhamentos internos e negociações que, muitas vezes, não amadurecem no ritmo fragmentado do dia a dia. No caso descrito, o cálculo seria o de usar a proximidade para consolidar um entendimento em torno do projeto de 2026 em São Paulo.

O movimento também sugere que, enquanto o governo administra pautas econômicas e políticas no curto prazo, setores do entorno presidencial já operam com foco na disputa eleitoral e na montagem de um desenho estratégico para o próximo ciclo.

Cenário eleitoral e o desafio contra Tarcísio de Freitas

A reportagem aponta que Tarcísio de Freitas é visto como favorito para vencer novamente o pleito, com base nas últimas pesquisas citadas no texto. Essa percepção reforça a lógica de Lula ao buscar um nome com musculatura política e reconhecimento público para uma disputa de alta complexidade.

Nesse contexto, o nome de Haddad aparece como um ativo por diferentes razões: ele já disputou o governo, tem histórico eleitoral no estado, foi prefeito da capital e hoje ocupa uma posição central na condução da política econômica do governo federal. Ao mesmo tempo, o desafio é proporcional ao tamanho do ativo: a eventual candidatura exigiria calibrar a exposição do ministro, administrar o impacto político de uma saída do comando da Fazenda e estruturar uma coligação capaz de disputar voto a voto no estado.

O Palácio dos Bandeirantes, além de ser um posto de poder regional, tem influência direta na correlação de forças nacional. Por isso, uma candidatura competitiva em São Paulo costuma ser tratada como peça-chave para qualquer projeto presidencial, seja de continuidade, seja de oposição.

Senado: PT articula composição com Tebet e Marina

Além da disputa pelo governo paulista, o texto informa que o PT articula um acordo para lançar as ministras Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (Rede) como candidatas ao Senado por São Paulo. A hipótese, segundo a reportagem, incluiria a possibilidade de ambas mudarem de partido para a eleição, com o PSB apontado como um possível destino.

A movimentação, se confirmada, teria implicações relevantes para a engenharia de alianças. Uma chapa majoritária que combine candidatura ao governo e nomes competitivos ao Senado pode ampliar o arco de apoios, distribuir palanques e fortalecer a disputa em duas frentes que se retroalimentam: o executivo estadual e a bancada senatorial.

No caso de Simone Tebet, a reportagem ressalta um ponto sensível: por ser de Mato Grosso do Sul, ela precisaria mudar o domicílio eleitoral para concorrer em São Paulo, conforme as regras da legislação vigente. O dado é central porque, na prática, impõe um requisito burocrático e político que precisa ser resolvido com antecedência para evitar insegurança jurídica e ruídos na pré-campanha.

O texto também registra que Tebet já afirmou que deve deixar o cargo pelo menos até o dia 30 de março deste ano e que pretende ter ao menos mais uma conversa com Lula para tratar das eleições de 2026. A afirmação indica que a ministra, independentemente do desfecho, reconhece a necessidade de organizar prazos e decisões com antecedência, sobretudo diante das exigências legais e do calendário político.

O que está em jogo para 2026 em São Paulo

A sinalização de Lula sobre a candidatura de Haddad e as articulações para o Senado sugerem um esforço para montar uma frente forte em São Paulo, combinando projeção nacional, densidade eleitoral e capacidade de alianças. O estado concentra uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro e costuma funcionar como termômetro político, com reflexos diretos na disputa presidencial e na composição do Congresso.

Ao encaminhar um nome para o governo paulista e discutir nomes ao Senado, o campo governista busca antecipar dilemas que sempre reaparecem às vésperas de eleições: quem lidera o palanque, como equilibrar interesses de partidos aliados e como maximizar competitividade num território onde a disputa costuma ser dura e intensamente nacionalizada.

Se o desenho se confirmar, a disputa paulista de 2026 tende a ser uma das mais observadas do país, tanto pelo peso do estado quanto pelo simbolismo do embate entre projetos políticos que se confrontam no plano nacional e se projetam, com força, no cenário regional.

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'Não devo minhas eleições a nenhum latifundiário ou banqueiro da Faria Lima', diz Lula

Brasil

'Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem', disse o presidente à população durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 17:11 hAtualizado em 27 de fevereiro de 2026, 18:02 h

Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Artigo de Leonardo Lucena

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (27), em Brasília (DF), que sua trajetória eleitoral não está vinculada a interesses de banqueiros, grandes empresários ou latifundiários. A declaração foi feita durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada na capital federal.

“A razão de eu ter sido eleito presidente 2003, em 2006, da Dilma ter sido eleita em 20201, receita em 2024, de ter sido eleito em 2022 não deve isso a nenhum banqueiro da Faria Lima, a nenhum grande empresário braislkeiro e a nenhum grande latifundiário”, declarou o presidente.

“Sei da onde eu vim, sei pra onde vou, sei que foram meus amigos, sei quem está ao lado lado quando estive preso. Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem. Acredito em vocês. Sou um de vocês que chegou à presidência da República”.

A 6ª Conferência Nacional das Cidades teve início na terça-feira (24) e segue até esta sexta-feira (27), reunindo representantes de diferentes segmentos para discutir políticas públicas urbanas. O encontro coloca em pauta temas como habitação, saneamento básico, mobilidade urbana, desenvolvimento das periferias e planejamento das cidades.

A programação também inclui debates sobre controle social, sustentabilidade, mudanças climáticas, transformações digitais e segurança cidadã. O processo preparatório passou por mais de 1,8 mil municípios, além dos 26 estados e do Distrito Federal.

Organizada pelo Conselho das Cidades, órgão colegiado vinculado ao Ministério das Cidades, a conferência ocorre no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB). O evento reúne integrantes do poder público, movimentos sociais, sociedade civil, setor empresarial e especialistas com o objetivo de formular propostas que orientem o desenvolvimento urbano do país nos próximos anos.

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CNJ afasta desembargador que absolveu réu por estupro de vulnerável em MG

POLÌTICA

Corregedoria aponta cinco denúncias de crimes sexuais contra o magistrado, alvo de operação da Polícia Federal

ICL Noticias, 27/02/2026 | 14h27


Por Cleber Lourenço

A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (27), operação contra o desembargador Magid Nauef Láuar, integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que absolveu réu por estupro de vulnerável. No mesmo contexto, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o afastamento imediato do magistrado de todas as suas funções.

A medida foi adotada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após investigação preliminar instaurada para apurar indícios de “teratologia” em decisão proferida pelo desembargador — termo utilizado para caracterizar decisão juridicamente aberrante. O caso que deu origem à apuração foi o julgamento de um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos, em Indianópolis, no Triângulo Mineiro.

Em 11 de fevereiro, Magid Láuar votou pela absolvição do réu e da mãe da vítima, sob o argumento de que haveria “vínculo afetivo consensual” entre o acusado e a criança. A tese confrontou entendimento consolidado nos tribunais superiores, segundo o qual menores de 14 anos são absolutamente incapazes de consentir em relações sexuais, configurando-se o crime de estupro de vulnerável independentemente de eventual relação afetiva.

A decisão gerou forte reação de especialistas, entidades da sociedade civil e órgãos de controle. Após recurso do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o próprio desembargador reviu sua posição em 23 de fevereiro, restabeleceu a condenação de primeira instância e determinou a prisão do acusado e da mãe da vítima.

As apurações conduzidas pela Corregedoria do CNJ, no entanto, avançaram para além do conteúdo da decisão judicial. Segundo a nota oficial, ao menos cinco vítimas já foram ouvidas no procedimento.

As cinco denúncias

Os relatos envolvem episódios distintos ocorridos em diferentes períodos da trajetória do magistrado:

Caso envolvendo sobrinho do magistrado, que ganhou repercussão inicial e rompeu o silêncio público sobre sua conduta. Novo relato surgido nos comentários de publicação sobre o primeiro caso, indicando possível nova vítima.

Episódio ocorrido em 1997, quando o então juiz atuava na comarca de Betim. Uma estagiária de 19 anos relatou ter sido convidada para um almoço e, segundo a representação, teria sofrido aproximação física indevida, com mão na perna durante o encontro e beijo forçado.

Episódio de 2009, envolvendo estagiária de 30 anos, que descreveu investidas físicas e conduta considerada inadequada em ambiente funcional e de subordinação.

Novo relato relacionado ao período em que o magistrado atuava na comarca de Bonfim de uma vítima que hoje mora no exterior.

A deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG), responsável por encaminhar as denúncias ao CNJ, afirmou ao ICL Notícias que o afastamento foi uma resposta necessária diante da gravidade dos fatos.

“Fico muito feliz que o CNJ tenha sido tão rápido em ouvir as vítimas, instaurar o procedimento e tomar esta decisão justa e necessária. É uma decisão fruto de muita pressão popular e de uma responsabilidade importante do CNJ em defender o tribunal de justiça e a justiça brasileira, que precisa prestar contas à sociedade e não estava respeitando a legalidade e também a ética dos juízes e desembargadores, que também estavam em xeque. Vamos seguir lutando para que a gente consiga construir um judiciário capaz de fato de produzir justiça social”, declarou.

A nota do CNJ informa que parte dos fatos narrados pode estar prescrita na esfera criminal em razão do tempo decorrido. No entanto, também foram identificados episódios mais recentes ainda não atingidos pela prescrição, o que pode permitir desdobramentos na esfera penal.

Diante da gravidade e da verossimilhança dos elementos colhidos, o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, determinou o afastamento cautelar do desembargador. A medida visa garantir que a apuração transcorra sem interferências e preservar a credibilidade da magistratura.

Procedimentos disciplinares no âmbito do CNJ não configuram juízo prévio de culpa, mas podem resultar em sanções administrativas que vão de advertência à aposentadoria compulsória.

A seguir, a íntegra da nota divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça:
Nota à imprensa

A Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) determinou, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro, o afastamento imediato das funções do desembargador Magid Nauef Láuar, desembargador integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Magid Nauef Láuar, Desembargador Substituto e Presidente 
da ANAMAGES. (Foto: Luiz Silveira/AgênciaCNJ)

A partir de investigação preliminar conduzida pelo órgão para apurar indícios de teratologia em decisão proferida pelo requerido, que gerou forte consternação e indignação popular, foram identificados desdobramentos que apontaram para a prática de delitos contra a dignidade sexual por parte do magistrado, durante o período em que este atuou como juiz de direito nas comarcas de Ouro Preto/MG e Betim/MG.

Até o momento, por determinação do Corregedor Nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, foram ouvidas ao menos cinco vítimas, dentre elas uma residente no exterior. Muito embora parte dos eventos narrados, em razão do longo lapso temporal, já tenha sido alcançada pela prescrição da pretensão persecutória em âmbito criminal, também foram identificados fatos mais recentes, ainda não abarcados pela prescrição, a determinar o prosseguimento das apurações.

Diante desses elementos, em face da gravidade e verossimilhança dos fatos até aqui levantados, o Corregedor Nacional proferiu decisão cautelar para determinar o afastamento do desembargador Magid Nauef Láuar, de todas as suas funções, para garantir que a apuração dos fatos transcorra de forma livre, sem quaisquer embaraços.

A medida em apreço é proporcional à gravidade dos relatos e está alinhada ao devido processo legal.

Por fim, a Corregedoria enfatiza que procedimentos disciplinares não configuram juízo prévio de culpa, mas têm como objetivo preservar a credibilidade da magistratura, assegurar o regular funcionamento da Justiça e manter a confiança da sociedade no Poder Judiciário.

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Advogado de Lulinha diz ao STF que quebra de sigilo foi desnecessária

POLÍTICA 

Defesa afirma que filho do presidente Lula está à disposição e entregará documentos voluntariamente

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 04:04 h

Fabio Luis Lula da Silva (Foto: Reprodução)

O advogado de Fábio Luís Lula da Silva declarou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que a quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático do empresário foi “desnecessária” e que ele está disposto a apresentar espontaneamente os documentos solicitados pela investigação.

A manifestação foi protocolada na quarta-feira (26), no âmbito de inquérito que tramita na Corte.As informações foram divulgadas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Segundo a publicação, o defensor Guilherme Suguimori Santos afirmou que seu cliente foi surpreendido por reportagens que noticiaram que, ainda em janeiro, o ministro teria autorizado as medidas de quebra de sigilo.

Na petição, o advogado sustenta que, caso as informações divulgadas sejam confirmadas, a providência adotada seria desnecessária. “Caso sejam verídicas as informações, informa que a medida era desnecessária”, registrou no documento.

A defesa argumenta que, desde 19 de janeiro, quando solicitou acesso aos autos, Lulinha já havia manifestado “expressamente sua intenção de prestar qualquer esclarecimento necessário”. O texto acrescenta que o empresário sempre demonstrou disposição para colaborar com a apuração “de forma a esclarecer os fatos, dissipar ilações e evitar a desnecessária politização de seu nome”.


Ainda de acordo com o advogado, além de ter se colocado à disposição para depor, Lulinha pretende fornecer voluntariamente ao STF os documentos que forem requisitados. No pedido encaminhado ao ministro relator, a defesa solicita acesso ao apenso que trata da quebra de sigilo mencionada pela imprensa, bem como a outros eventuais procedimentos relacionados ao empresário, para que possa examinar o conteúdo e apresentar os documentos considerados pertinentes.

A decisão atribuída a Mendonça teria atendido a um pedido da Polícia Federal no contexto da Operação Sem Desconto, que investiga supostos desvios em aposentadorias do INSS. O ministro é o relator do inquérito no Supremo.

Conforme noticiado pela Folha, a autorização judicial teria ocorrido antes de a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura descontos indevidos em benefícios do INSS aprovar requerimento para quebrar os sigilos de Lulinha. A sessão da comissão foi marcada por confronto entre parlamentares, com troca de acusações entre governistas e oposicionistas.

A investigação tem como base menções ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em mensagens interceptadas pela Polícia Federal. Uma das linhas de apuração envolve a suspeita de que ele teria atuado como sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, hipótese rechaçada pela defesa.


Na íntegra da manifestação enviada à imprensa, o advogado afirmou: “Recebemos hoje a notícia da quebra de sigilo contra Fábio Luís, tanto pela CPMI, quanto, supostamente, nos autos do inquérito do Supremo Tribunal Federal. Estamos absolutamente tranquilos quanto ao resultado da quebra, pois ele não teve nenhuma participação nas fraudes do INSS e não cometeu nenhum crime”.

O defensor também destacou a postura colaborativa de seu cliente: “No entanto, ressalto que, desde o início, Fábio expressamente se colocou à disposição do STF, informando sua intenção de prestar todos os esclarecimentos que a Corte entendesse necessários. O fornecimento de documentos seria etapa inevitável para esclarecer fatos, dissipar ilações e evitar a desnecessária politização de seu nome”.

Ele acrescentou que, diante das notícias veiculadas, a defesa peticionou ao Supremo para ter acesso à suposta decisão. “Diante das notícias de hoje, peticionamos ao STF pedindo acesso à suposta quebra de sigilo, informando que forneceremos voluntariamente ao Tribunal os documentos pertinentes”, declarou.

Por fim, concluiu: “Por tudo isso, entendo que a quebra de sigilo é dispensável, pois não é necessário coagir quem desde o início demonstrou interesse inequívoco em contribuir”.

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Alguns fatos ocorridos em Santa Catarina estão chamando a atenção dadas as suas particularidades dentro de um contexto nacional. A aprovação de uma lei que proibia cotas raciais em universidades estaduais de estado é um caso preocupante e surge agora a "ICE de Floripa".

Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina

Lei de proibição de cotas raciais em universidades do estado

A aprovação da lei a Lei 19.722/2026, sancionada pelo governador Jorginho Mello, que proibia cotas raciais em universidades estaduais (aprovada no final de 2025 e sancionada em janeiro de 2026) gerou um intenso debate jurídico sobre inconstitucionalidade, mas, atualmente, a lei está suspensa por decisão judicial.

Embora críticos e alguns especialistas tenham argumentado que a lei violava a Constituição e poderia, em tese, autorizar intervenções federais para garantir o cumprimento de decisões do STF sobre ações afirmativas, o caminho adotado foi o da judicialização.

Aqui está o resumo da situação atual:

A Lei (suspensa): O governador Jorginho Mello sancionou a lei que proibia cotas raciais na UDESC e outras instituições estaduais ou financiadas pelo estado, permitindo apenas cotas sociais/renda.

Suspensão Judicial: A Justiça de Santa Catarina suspendeu a lei através de uma liminar, atendendo a ações que alegaram inconstitucionalidade e retrocesso social.

Ação do STF: O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, solicitou explicações ao governo estadual sobre a lei.

Argumentos: A defesa do estado argumenta que possui competência para legislar sobre ações afirmativas e que a lei visa a meritocracia, enquanto opositores apontam inconstitucionalidade por ferir o entendimento do STF de que cotas raciais são válidas e necessárias para reparação histórica.

Portanto, em vez de uma "intervenção federal" direta, o que ocorreu foi o controle de constitucionalidade pelo Judiciário, suspendendo a norma estadual por afrontar a jurisprudência nacional.

A "ICE de Floripa"

Uma guarda voluntária recém-criada pela prefeitura de Florianópolis, sob gestão Topázio Neto (PSD), passou a ter sua legalidade questionada após ter sido flagrada hostilizando e ameaçando, inclusive com prisão, um homem em situação de rua ao abordá-lo em um espaço público.

O caso ocorreu no início de fevereiro. Na ocasião, o homem desabrigado estava sentado em um banco na rua Vidal Ramos, no Centro da capital catarinense, quando foi cercado por cinco agentes da nova força, uniformizados como “Voluntários Floripa”, e uma sexta pessoa, sem identificação. O grupo passou a tentar expulsá-lo aos gritos e proferindo ofensas, conforme mostra uma gravação.

“Aqui é lugar de dormir? Aí na hora de cagar e de mijar, você faz também sujeira, seu vacilão. Você é um vacilão, vacilão!”, diz um voluntário, com o dedo em riste, apontando para o rosto do homem abordado. “Mais uma dessas, e a gente vai te prender por desacato”, afirma outro agente uniformizado.

O homem desabrigado tenta argumentar que o proprietário de um prédio à frente o autorizou a pernoitar no local, o que um terceiro agente voluntário retruca. “Não interessa, é o caralho, rapaz. Eu vou ter que te arrancar daqui. E você vai fazer o quê? Todo dia eu vou passar aqui e te arrancar daqui.”

Edifício Sede do Ministério Público de Santa Catarina, 
Florianópolis, 2025.  (Foto: Cristiano Andujar/MPSC)

O episódio foi denunciado ao Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) pelo vereador Leonel Camasão (PSOL), de oposição ao prefeito de Florianópolis. À Ponte, o órgão comunicou analisar o caso. Para o parlamentar, a natureza coercitiva da abordagem indica usurpação de função pública, uma vez que os voluntários não têm poder de polícia — ou seja, não podem restringir direitos individuais a fim de preservar interesses coletivos, o que é típico, por exemplo, da Polícia Militar.

“É inconstitucional ter voluntários fazendo trabalho ostensivo na rua. É algo totalmente errado, que enfraquece o controle público sobre agentes de segurança. Você vê que ele diz ali que vai tirar a pessoa em situação de rua dali. Por quê? Porque ele quer. Isso é muito perigoso”, argumenta o vereador.

Lei que criou guarda não veta policiamento nem detalha atribuições

A criação da guarda de voluntários foi aprovada por maioria pela Câmara de Florianópolis ao final de novembro do ano passado, em função de um projeto de lei proposto pelo prefeito dois meses antes.

A proposta de Topázio resultou na Lei 11.498/2025, que é sucinta sobre as atribuições dos novos agentes: eles devem prestar “serviço voluntário em atividades operacionais e em programas e projetos sociais em apoio à Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP)”.

O texto definiu que eles devem atuar sob supervisão de ao menos um agente público e podem obter ressarcimento de gastos com alimentação e transporte. Não há vedação expressa a atividades de policiamento, nem delimitação sobre quem exerce o controle externo dos voluntários.

Ainda à época da tramitação na Câmara, o vereador Leonel contestou que o texto seria inconstitucional justamente por trazer termos genéricos, o que abriria margem para delegar aos voluntários atribuições típicas da segurança pública, como patrulhamento, fiscalização e poder de polícia.

“A adoção de um serviço voluntário na segurança pública não amplia a segurança, mas fragiliza o Estado de Direito, agrava desigualdades e gera terreno fértil para o crescimento de práticas vigilantes. Em última análise, o projeto ameaça dissolver as fronteiras entre o público e o privado no exercício do poder de polícia”, argumentou ao votar pela não aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Já a relatora do projeto na CCJ da Câmara, a vereadora Manu Vieira (PL), contra-argumentou pela aprovação, dizendo que “o projeto não confere aos voluntários poder de polícia nem substitui servidores públicos efetivos, atuando apenas em funções de apoio operacional e educativo”.
Rotina de voluntários é reprimir ambulantes e pessoas em situação de rua

No início de dezembro, a prefeitura publicou um edital para convocar até 150 voluntários. Eles passariam por um curso de dois dias para irem às ruas. Apenas em 26 de janeiro deste ano, a vice-prefeita de Florianópolis e também secretária de Segurança e Ordem Pública, Maryanne Mattos (PL), editou duas portarias com mais detalhes da atuação dos agentes, sendo um regulamento e um código de conduta.

Entre outras coisas, o código estabelece que os voluntários devem ser discretos, atuar de maneira cordial e utilizar linguagem respeitosa, evitando termos ofensivos, o que já destoa da prática nas abordagens a pessoas em situação de rua, conforme foi flagrado. Ele prevê ainda ser uma transgressão grave e passível de exclusão “travar discussão, rixa ou luta corporal quando uniformizado”.

‘ICE de Floripa’: Guarda voluntária recém-criada já ignora 
regras e tem legalidade contestada em SC
 (Foto: Allan Carvalho/PMF)

Já o regulamento define cada agente como um “cidadão capacitado para compor na comunidade uma força organizada de defesa civil, para atuação nas situações de emergência ou calamidades públicas durante os desastres”, sem menção à segurança pública. O texto dita que a atuação deles “possui caráter exclusivamente comunitário, educativo, preventivo e de apoio, não compreendendo, em nenhuma hipótese, o exercício de atividade de polícia ostensiva, investigativa ou repressiva”.

Na prática, no entanto, os voluntários têm atuado de maneira ostensiva contra pessoas em situação de rua e também nas praias, onde acompanham fiscalizações a vendedores ambulantes e reprimem o uso de caixas de som nas faixas de areia, o que passou recentemente a ser proibido em Florianópolis.

“O trabalho dos voluntários impacta os resultados de vistorias dos órgãos fiscalizatórios. Nesta temporada, entre dezembro e janeiro, as apreensões de materiais irregulares tiveram um salto de 30 para 242 carrinhos de comércio ambulante irregular, representando um aumento de 706%”, divulgou a gestão Topázio Neto no último dia 27 de janeiro, quando havia 140 agentes em atividade.

Em relação às pessoas desabrigadas, a gestão Topázio já havia tido projeção nacional por outras iniciativas repressivas. Em novembro do ano passado, o prefeito anunciou ter instalado um posto de “controle migratório” na rodoviária para identificar pessoas que chegavam sem moradia fixa ou emprego na cidade. Em 2024, ele havia obtido a aprovação na Câmara de um projeto que autoriza a internação forçada de pessoas em situação de rua com transtornos mentais ou dependência química.

Topázio (PSD), prefeito de Florianópolis, 

Prefeito Topázio, de Florianópolis, fecha Restaurante popular

Ainda na gestão Topázio, o único restaurante popular de Florianópolis, que atendia pessoas em situação de vulnerabilidade, foi fechado. Em função desse histórico, o grupo de agentes voluntários foi agora apelidado por opositores de “milícia do Topázio” e “ICE de Floripa”, em comparação com a hostilidade protagonizada pela polícia de imigração dos Estados Unidos na gestão de Donald Trump.

Voluntários já foram usados para evitar convocação de efetivos por estados

Ainda para a oposição ao prefeito de Florianópolis, a adoção dos voluntários se tratou de um subterfúgio para não repor o efetivo da Guarda Municipal — com 182 agentes, segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2023.

A própria gestão Topázio argumentou, ao propor o voluntariado, ter gasto R$ 300 mil no verão anterior para contratar equipes terceirizadas de segurança, assumindo que a convocação reduziria custos.

Em nível estadual, iniciativas de voluntariado já foram adotadas também para, em tese, diminuir gastos, amparadas pela Lei Federal 10.029/2000, que regulamenta a prestação de serviços voluntários para polícias e bombeiros militares nos estados — ela veda expressamente o exercício do poder de polícia e prevê uma proporção de um voluntário para cada cinco agentes efetivos.

No estado de São Paulo, por exemplo, a lei estadual 11.064/2002 estabeleceu um serviço voluntário na Polícia Militar, para contratar jovens como soldados temporários. Pelo texto, eles teriam funções administrativas. Na prática, no entanto, passaram a ser usados até na guarda de unidades militares e em ronda escolar, o que acarretou em uma série de ações contra o Estado em busca de reparação de obrigações trabalhistas e previdenciárias. No ano passado, a legislação paulista foi revogada.

Ao longo dos últimos dez anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) já declarou inconstitucionais leis estaduais de Goiás e Rio Grande do Sul que previam a adoção de serviço militar voluntário nas polícias. A Corte também vetou um texto de Minas Gerais que estabelecia a contratação de policiais penais temporários. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL), aliado do prefeito de Florianópolis, tem um edital aberto para a contratação temporária de policiais militares.

Programa de voluntários erra ao transferir poder de polícia, dizem especialistas

Para o delegado da Polícia Civil de São Paulo David de Siena, que é também coordenador do Observatório de Segurança Pública da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a inclusão de voluntários na segurança pública não é inconstitucional por si só, desde que eles atuem com atividades-meio, como funções administrativas e de apoio, e não com atividades-fim, exclusivas das polícias.

“Do ponto de vista formal, o prefeito de Florianópolis não está criando uma nova força. Agora, talvez o programa esteja sendo mal estruturado”, afirma. “Quando ele transfere poderes operacionais para esses agentes voluntários, ele está, de uma maneira oblíqua e lateral, transferindo a eles poder de polícia, que é um poder de fiscalização, e isso só agentes públicos podem ter”.

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