segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Roberto Brant: O que o caso Master está a nos dizer

"O que torna o caso Master um evento tectônico é o que foi, aos poucos, sendo revelado, mesmo que de forma incompleta e fragmentada, por meio de vazamentos que conseguiram romper o alto grau de sigilo imposto ao caso por um ministro do Supremo Tribunal Federal"

Por Roberto Brant, Correio Braziliense,  09/02/2026 06:03
"Quase tudo o que se relaciona ao caso Master ainda não é de conhecimento público" - (crédito: Rovena Rosa/Agencia Brasil)
Apesar dos ruídos e das tensões que percorrem os ares de Brasília, prenunciando que algo grande e inconveniente pode estar para acontecer, quase tudo o que se relaciona ao caso Master ainda não é de conhecimento público.

A insolvência de uma instituição financeira pouco relevante, por si só, não despertaria atenção, pois é um fato normal no mundo dos negócios. Como gostava de dizer o saudoso Delfim Neto, capitalismo sem falência é o mesmo que catolicismo sem inferno. Neste caso específico, nem a chamada economia popular foi atingida severamente. Os danos e os prejuízos parecem circunscritos aos limites da alta finança.

Os recursos públicos envolvidos estão concentrados no Banco de Brasília, já que uma tentativa anterior, que envolvia a Caixa Econômica Federal, foi evitada a tempo, embora com o sacrifício de seus servidores técnicos de carreira, que ousaram resistir aos políticos da área. Instituições infinitamente maiores, como o Banco Nacional e o Bamerindus, por exemplo, foram liquidadas sem reação política ou judicial. Eram outros tempos — senão em tudo, pelo menos no reino da política e das instituições públicas. Não que reinasse a inocência entre os homens, mas os comportamentos eram mais contidos, pelo medo da desonra, por certo respeito à opinião pública e porque a política ainda não era dominada por pessoas, mas por partidos impessoais.

O que torna o caso Master um evento tectônico é o que foi, aos poucos, sendo revelado, mesmo que de forma incompleta e fragmentada, por meio de vazamentos que conseguiram romper o alto grau de sigilo imposto ao caso por um ministro do Supremo Tribunal Federal. O Master errou nas boas práticas de gestão financeira, mas foi competente para construir uma rede extensa de conexões com agentes dos três Poderes da República, cujo desvendamento revela conflitos de interesses e comportamentos indefensáveis para autoridades públicas.

Nada do que foi até agora trazido a público consegue ser explicado. Sabemos ainda pouco, por causa do sigilo e do controle das investigações, mas este pouco que sabemos é suficiente para provocar um terremoto na República, na medida em que atinge a cúpula do Poder Judiciário, parte importante da elite do Congresso e dos partidos e até o governo, que não tem explicações para as indicações dos ex-ministros Mantega e Lewandowski para posições de extravagante remuneração numa empresa cujas práticas atípicas eram — ou deveriam ser — do conhecimento das autoridades. Causa estranheza como pessoas poderosas e experimentadas foram acessíveis a ligações com uma empresa tão fora de qualquer padrão.

Graças à ação da imprensa democrática, as investigações vão se estender e cobrir tudo o que merece ser investigado, abortando as conspirações para o seu abafamento. Vários segredos de polichinelo vão ser revelados, justamente num ano de eleições, quando os brasileiros merecem saber tudo sobre os seus políticos e o país precisa, dramaticamente, de reformas institucionais de fundo, que só eleições em tempos de crise podem propiciar.

Minha grande angústia é saber, a esta altura, se o Master foi apenas um caso isolado ou se esse tipo de promiscuidade é mais uma regra do que uma exceção no relacionamento do mundo dos negócios com as autoridades. Quem sabe se essas teias de relações ilícitas não são atualmente o modelo padrão de funcionamento da política brasileira e só vieram à tona neste caso porque a empresa fracassou? Quantos negócios não fracassados e bem geridos continuam turbinados por essas conexões, que garantem privilégios legislativos, judiciais e administrativos? E quantos encontros informais, fora da agenda, com as principais autoridades do país?

O Brasil tem sido um enigma para observadores internacionais que, conhecendo o país e seus enormes e variados recursos, não conseguem entender por que não somos um país muito mais rico, comparável à Espanha e a Portugal, por exemplo. Talvez, o caso Master, ao retirar a grande máscara que cobre as fachadas graciosas dos três Poderes, seja a triste resposta a esse doloroso enigma.

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