sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

UE anuncia entrada em vigor de acordo com Mercosul, ignorando resistência da França

Governo Macron critica decisão do bloco e diz que medida viola instituições

ICL Noticias, 27/02/2026 | 08h09


Artigo de Jamil Chade

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou nesta sexta-feira que a União Europeia implementará provisoriamente o acordo comercial com os países do Mercosul, após a Argentina e o Uruguai concluírem seus respectivos processos de ratificação nas últimas horas.

“Nas últimas semanas, mantive extensas discussões sobre este assunto com os Estados-Membros e membros do Parlamento Europeu. Com base nessas discussões, a Comissão procederá agora à implementação provisória”, declarou ela em uma breve coletiva de imprensa.

A iniciativa promete causar uma forte discussão na Europa. Países como Espanha e Alemanha apoiam o acordo com o Mercosul, mas governos como o da França rejeitam e alegam que o impacto será profundo para seus produtores agrícolas.

Presidente Lula em encontro com presidente da Comissão Europeia
. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Minutos depois do anúncio da UE, o governo de Emmanuel Macron criticou a Comissão Europeia. “Essa é uma decisão da qual obviamente lamentamos”, afirmou a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard. Para ela, as instituições da UE precisam ser respeitadas, numa referência ao posicionamento tomado pelo Parlamento Europeu que, em janeiro, bloqueou a entrada em vigor do acordo.

No começo do ano, os opositores ao acordo conseguiram votos suficientes no Parlamento Europeu para que o tema fosse levado à Corte de Justiça da Europa. Na prática, isso significaria que o processo de aprovação do tratado poderia ser adiado para meados de 2027.

Naquele momento, reunidos em frente ao Parlamento Europeu, os agricultores explodiram em festa ao saberem do resultado. “Podemos nos orgulhar. Estamos exaustos, trabalhamos neste assunto durante meses e meses, anos”, disse Quentin Le Guillous, Secretário Geral dos Jovens Agricultores.

O chefe da diplomacia da França, Jean-Noël Barrot, também comemorou. “A França está disposta a dizer não quando necessário, e a história muitas vezes comprova isso”, acrescentou. “A luta continua, para proteger nossa agricultura e garantir nossa soberania alimentar”, insistiu.

Caberia aos tribunais europeus examinar se, primeiro, o pacto com o Mercosul não viola os tratados da UE. Nas horas que antecederam o voto, mais de mil tratores cercaram o Parlamento.

O pacto comercial, depois de 25 anos de negociações, foi assinado em janeiro em Assunção, no Paraguai. O fim do processo foi comemorado por governos sul-americanos e pela Comissão Europeia como uma resposta ao desmonte do multilateralismo promovido por Donald Trump.

Mas sua assinatura não representava sua entrada em vigor. A França não havia dado sua chancela ao processo e, nos bastidores, apoiou parlamentares europeus a frear a ratificação.

Assim, uma proposta feita por cinco grupos políticos representando 21 nacionalidades diferentes, mais de 150 eurodeputados declararam que “a Comissão Europeia ultrapassou o seu mandato ao dividir o acordo entre as suas vertentes comercial e política, a fim de contornar a aprovação dos parlamentos nacionais durante o processo de ratificação”.

A ala protecionista precisava de uma maioria simples de votos, o que foi obtido por apenas dez votos de diferença. A ala protecionista obteve 334 votos, contra 324 apoios pelo acordo. Onze deputados ainda optaram por se abster.

Até que a Corte examine o tratado, isso congelaria qualquer ratificação por pelo menos dezoito meses.

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Lula encaminha candidatura de Haddad ao governo de São Paulo em chapa com Marina e Simone Tebe

ELEIÇÕES 2026

Presidente sinaliza a aliados acordo com ministro da Fazenda para liderar palanque petista no maior colégio eleitoral, enquanto PT discute nomes ao Senado

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 04:38 h

Fernando Haddad e Simone Tebet (Foto: Agência Gov)

Redação Brasil 247

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a ministros e aliados que encaminhou o acerto com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para que ele seja o candidato ao Governo de São Paulo nas eleições de 2026. A informação antecipada pelo jornalista Mario Vitor Santos, no Bom Dia 247 de 26 de fevereiro, e publicada pelo portal Metrópoles, na esteira das movimentações políticas que vêm redesenhando o tabuleiro eleitoral no maior colégio eleitoral do país.

De acordo com o relato, aliados de Haddad avaliavam que a recente viagem à Índia e à Coreia do Sul, na qual o ministro acompanhou Lula, serviria como um momento de aproximação e convencimento para reduzir a resistência do ex-prefeito da capital paulista em voltar a disputar o Palácio dos Bandeirantes. A leitura no entorno do governo é de que o presidente busca consolidar um nome forte para liderar o palanque lulista em São Paulo, estado decisivo para o resultado nacional.

Haddad no centro do plano para São Paulo

Segundo a apuração divulgada, Lula considera Fernando Haddad o principal nome para comandar a estratégia eleitoral do campo governista em São Paulo. A escolha se relaciona tanto ao peso político do estado quanto à necessidade de estruturar uma candidatura competitiva contra a atual gestão paulista, num cenário em que a oposição tende a concentrar forças.

Ainda conforme a reportagem, Haddad vinha se mostrando reticente em aceitar o desafio, após ter sido derrotado no segundo turno em 2022 pelo atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O histórico recente, somado ao ambiente de polarização e ao favoritismo atribuído ao governador por pesquisas de intenção de voto mencionadas no texto original, compõe o pano de fundo para a cautela do ministro.

Mesmo assim, a sinalização de Lula a interlocutores indica que o Planalto trabalha com a hipótese de transformar Haddad na âncora do projeto eleitoral em São Paulo. Isso significa, na prática, dar a ele o papel de liderar um palanque robusto, capaz de articular alianças e de sustentar uma campanha com densidade política no estado.

A viagem internacional como momento de articulação política

A presença de Haddad ao lado de Lula em compromissos recentes no exterior é descrita, no relato publicado, como um elemento político relevante. Aliados do ministro apostavam que a longa agenda internacional poderia ser usada para reduzir resistências e ampliar o espaço de conversa, longe da pressão cotidiana de Brasília e do noticiário doméstico.

Na lógica tradicional do poder, viagens desse tipo não funcionam apenas como cumprimento de agendas diplomáticas e econômicas. Elas também oferecem tempo e ambiente para alinhamentos internos e negociações que, muitas vezes, não amadurecem no ritmo fragmentado do dia a dia. No caso descrito, o cálculo seria o de usar a proximidade para consolidar um entendimento em torno do projeto de 2026 em São Paulo.

O movimento também sugere que, enquanto o governo administra pautas econômicas e políticas no curto prazo, setores do entorno presidencial já operam com foco na disputa eleitoral e na montagem de um desenho estratégico para o próximo ciclo.

Cenário eleitoral e o desafio contra Tarcísio de Freitas

A reportagem aponta que Tarcísio de Freitas é visto como favorito para vencer novamente o pleito, com base nas últimas pesquisas citadas no texto. Essa percepção reforça a lógica de Lula ao buscar um nome com musculatura política e reconhecimento público para uma disputa de alta complexidade.

Nesse contexto, o nome de Haddad aparece como um ativo por diferentes razões: ele já disputou o governo, tem histórico eleitoral no estado, foi prefeito da capital e hoje ocupa uma posição central na condução da política econômica do governo federal. Ao mesmo tempo, o desafio é proporcional ao tamanho do ativo: a eventual candidatura exigiria calibrar a exposição do ministro, administrar o impacto político de uma saída do comando da Fazenda e estruturar uma coligação capaz de disputar voto a voto no estado.

O Palácio dos Bandeirantes, além de ser um posto de poder regional, tem influência direta na correlação de forças nacional. Por isso, uma candidatura competitiva em São Paulo costuma ser tratada como peça-chave para qualquer projeto presidencial, seja de continuidade, seja de oposição.

Senado: PT articula composição com Tebet e Marina

Além da disputa pelo governo paulista, o texto informa que o PT articula um acordo para lançar as ministras Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (Rede) como candidatas ao Senado por São Paulo. A hipótese, segundo a reportagem, incluiria a possibilidade de ambas mudarem de partido para a eleição, com o PSB apontado como um possível destino.

A movimentação, se confirmada, teria implicações relevantes para a engenharia de alianças. Uma chapa majoritária que combine candidatura ao governo e nomes competitivos ao Senado pode ampliar o arco de apoios, distribuir palanques e fortalecer a disputa em duas frentes que se retroalimentam: o executivo estadual e a bancada senatorial.

No caso de Simone Tebet, a reportagem ressalta um ponto sensível: por ser de Mato Grosso do Sul, ela precisaria mudar o domicílio eleitoral para concorrer em São Paulo, conforme as regras da legislação vigente. O dado é central porque, na prática, impõe um requisito burocrático e político que precisa ser resolvido com antecedência para evitar insegurança jurídica e ruídos na pré-campanha.

O texto também registra que Tebet já afirmou que deve deixar o cargo pelo menos até o dia 30 de março deste ano e que pretende ter ao menos mais uma conversa com Lula para tratar das eleições de 2026. A afirmação indica que a ministra, independentemente do desfecho, reconhece a necessidade de organizar prazos e decisões com antecedência, sobretudo diante das exigências legais e do calendário político.

O que está em jogo para 2026 em São Paulo

A sinalização de Lula sobre a candidatura de Haddad e as articulações para o Senado sugerem um esforço para montar uma frente forte em São Paulo, combinando projeção nacional, densidade eleitoral e capacidade de alianças. O estado concentra uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro e costuma funcionar como termômetro político, com reflexos diretos na disputa presidencial e na composição do Congresso.

Ao encaminhar um nome para o governo paulista e discutir nomes ao Senado, o campo governista busca antecipar dilemas que sempre reaparecem às vésperas de eleições: quem lidera o palanque, como equilibrar interesses de partidos aliados e como maximizar competitividade num território onde a disputa costuma ser dura e intensamente nacionalizada.

Se o desenho se confirmar, a disputa paulista de 2026 tende a ser uma das mais observadas do país, tanto pelo peso do estado quanto pelo simbolismo do embate entre projetos políticos que se confrontam no plano nacional e se projetam, com força, no cenário regional.

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'Não devo minhas eleições a nenhum latifundiário ou banqueiro da Faria Lima', diz Lula

Brasil

'Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem', disse o presidente à população durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 17:11 hAtualizado em 27 de fevereiro de 2026, 18:02 h

Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Artigo de Leonardo Lucena

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (27), em Brasília (DF), que sua trajetória eleitoral não está vinculada a interesses de banqueiros, grandes empresários ou latifundiários. A declaração foi feita durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada na capital federal.

“A razão de eu ter sido eleito presidente 2003, em 2006, da Dilma ter sido eleita em 20201, receita em 2024, de ter sido eleito em 2022 não deve isso a nenhum banqueiro da Faria Lima, a nenhum grande empresário braislkeiro e a nenhum grande latifundiário”, declarou o presidente.

“Sei da onde eu vim, sei pra onde vou, sei que foram meus amigos, sei quem está ao lado lado quando estive preso. Vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem. Acredito em vocês. Sou um de vocês que chegou à presidência da República”.

A 6ª Conferência Nacional das Cidades teve início na terça-feira (24) e segue até esta sexta-feira (27), reunindo representantes de diferentes segmentos para discutir políticas públicas urbanas. O encontro coloca em pauta temas como habitação, saneamento básico, mobilidade urbana, desenvolvimento das periferias e planejamento das cidades.

A programação também inclui debates sobre controle social, sustentabilidade, mudanças climáticas, transformações digitais e segurança cidadã. O processo preparatório passou por mais de 1,8 mil municípios, além dos 26 estados e do Distrito Federal.

Organizada pelo Conselho das Cidades, órgão colegiado vinculado ao Ministério das Cidades, a conferência ocorre no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB). O evento reúne integrantes do poder público, movimentos sociais, sociedade civil, setor empresarial e especialistas com o objetivo de formular propostas que orientem o desenvolvimento urbano do país nos próximos anos.

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CNJ afasta desembargador que absolveu réu por estupro de vulnerável em MG

POLÌTICA

Corregedoria aponta cinco denúncias de crimes sexuais contra o magistrado, alvo de operação da Polícia Federal

ICL Noticias, 27/02/2026 | 14h27


Por Cleber Lourenço

A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (27), operação contra o desembargador Magid Nauef Láuar, integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que absolveu réu por estupro de vulnerável. No mesmo contexto, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o afastamento imediato do magistrado de todas as suas funções.

A medida foi adotada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após investigação preliminar instaurada para apurar indícios de “teratologia” em decisão proferida pelo desembargador — termo utilizado para caracterizar decisão juridicamente aberrante. O caso que deu origem à apuração foi o julgamento de um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos, em Indianópolis, no Triângulo Mineiro.

Em 11 de fevereiro, Magid Láuar votou pela absolvição do réu e da mãe da vítima, sob o argumento de que haveria “vínculo afetivo consensual” entre o acusado e a criança. A tese confrontou entendimento consolidado nos tribunais superiores, segundo o qual menores de 14 anos são absolutamente incapazes de consentir em relações sexuais, configurando-se o crime de estupro de vulnerável independentemente de eventual relação afetiva.

A decisão gerou forte reação de especialistas, entidades da sociedade civil e órgãos de controle. Após recurso do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o próprio desembargador reviu sua posição em 23 de fevereiro, restabeleceu a condenação de primeira instância e determinou a prisão do acusado e da mãe da vítima.

As apurações conduzidas pela Corregedoria do CNJ, no entanto, avançaram para além do conteúdo da decisão judicial. Segundo a nota oficial, ao menos cinco vítimas já foram ouvidas no procedimento.

As cinco denúncias

Os relatos envolvem episódios distintos ocorridos em diferentes períodos da trajetória do magistrado:

Caso envolvendo sobrinho do magistrado, que ganhou repercussão inicial e rompeu o silêncio público sobre sua conduta. Novo relato surgido nos comentários de publicação sobre o primeiro caso, indicando possível nova vítima.

Episódio ocorrido em 1997, quando o então juiz atuava na comarca de Betim. Uma estagiária de 19 anos relatou ter sido convidada para um almoço e, segundo a representação, teria sofrido aproximação física indevida, com mão na perna durante o encontro e beijo forçado.

Episódio de 2009, envolvendo estagiária de 30 anos, que descreveu investidas físicas e conduta considerada inadequada em ambiente funcional e de subordinação.

Novo relato relacionado ao período em que o magistrado atuava na comarca de Bonfim de uma vítima que hoje mora no exterior.

A deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG), responsável por encaminhar as denúncias ao CNJ, afirmou ao ICL Notícias que o afastamento foi uma resposta necessária diante da gravidade dos fatos.

“Fico muito feliz que o CNJ tenha sido tão rápido em ouvir as vítimas, instaurar o procedimento e tomar esta decisão justa e necessária. É uma decisão fruto de muita pressão popular e de uma responsabilidade importante do CNJ em defender o tribunal de justiça e a justiça brasileira, que precisa prestar contas à sociedade e não estava respeitando a legalidade e também a ética dos juízes e desembargadores, que também estavam em xeque. Vamos seguir lutando para que a gente consiga construir um judiciário capaz de fato de produzir justiça social”, declarou.

A nota do CNJ informa que parte dos fatos narrados pode estar prescrita na esfera criminal em razão do tempo decorrido. No entanto, também foram identificados episódios mais recentes ainda não atingidos pela prescrição, o que pode permitir desdobramentos na esfera penal.

Diante da gravidade e da verossimilhança dos elementos colhidos, o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, determinou o afastamento cautelar do desembargador. A medida visa garantir que a apuração transcorra sem interferências e preservar a credibilidade da magistratura.

Procedimentos disciplinares no âmbito do CNJ não configuram juízo prévio de culpa, mas podem resultar em sanções administrativas que vão de advertência à aposentadoria compulsória.

A seguir, a íntegra da nota divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça:
Nota à imprensa

A Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) determinou, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro, o afastamento imediato das funções do desembargador Magid Nauef Láuar, desembargador integrante da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Magid Nauef Láuar, Desembargador Substituto e Presidente 
da ANAMAGES. (Foto: Luiz Silveira/AgênciaCNJ)

A partir de investigação preliminar conduzida pelo órgão para apurar indícios de teratologia em decisão proferida pelo requerido, que gerou forte consternação e indignação popular, foram identificados desdobramentos que apontaram para a prática de delitos contra a dignidade sexual por parte do magistrado, durante o período em que este atuou como juiz de direito nas comarcas de Ouro Preto/MG e Betim/MG.

Até o momento, por determinação do Corregedor Nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, foram ouvidas ao menos cinco vítimas, dentre elas uma residente no exterior. Muito embora parte dos eventos narrados, em razão do longo lapso temporal, já tenha sido alcançada pela prescrição da pretensão persecutória em âmbito criminal, também foram identificados fatos mais recentes, ainda não abarcados pela prescrição, a determinar o prosseguimento das apurações.

Diante desses elementos, em face da gravidade e verossimilhança dos fatos até aqui levantados, o Corregedor Nacional proferiu decisão cautelar para determinar o afastamento do desembargador Magid Nauef Láuar, de todas as suas funções, para garantir que a apuração dos fatos transcorra de forma livre, sem quaisquer embaraços.

A medida em apreço é proporcional à gravidade dos relatos e está alinhada ao devido processo legal.

Por fim, a Corregedoria enfatiza que procedimentos disciplinares não configuram juízo prévio de culpa, mas têm como objetivo preservar a credibilidade da magistratura, assegurar o regular funcionamento da Justiça e manter a confiança da sociedade no Poder Judiciário.

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Advogado de Lulinha diz ao STF que quebra de sigilo foi desnecessária

POLÍTICA 

Defesa afirma que filho do presidente Lula está à disposição e entregará documentos voluntariamente

Brasil 247, 27 de fevereiro de 2026, 04:04 h

Fabio Luis Lula da Silva (Foto: Reprodução)

O advogado de Fábio Luís Lula da Silva declarou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que a quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático do empresário foi “desnecessária” e que ele está disposto a apresentar espontaneamente os documentos solicitados pela investigação.

A manifestação foi protocolada na quarta-feira (26), no âmbito de inquérito que tramita na Corte.As informações foram divulgadas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Segundo a publicação, o defensor Guilherme Suguimori Santos afirmou que seu cliente foi surpreendido por reportagens que noticiaram que, ainda em janeiro, o ministro teria autorizado as medidas de quebra de sigilo.

Na petição, o advogado sustenta que, caso as informações divulgadas sejam confirmadas, a providência adotada seria desnecessária. “Caso sejam verídicas as informações, informa que a medida era desnecessária”, registrou no documento.

A defesa argumenta que, desde 19 de janeiro, quando solicitou acesso aos autos, Lulinha já havia manifestado “expressamente sua intenção de prestar qualquer esclarecimento necessário”. O texto acrescenta que o empresário sempre demonstrou disposição para colaborar com a apuração “de forma a esclarecer os fatos, dissipar ilações e evitar a desnecessária politização de seu nome”.


Ainda de acordo com o advogado, além de ter se colocado à disposição para depor, Lulinha pretende fornecer voluntariamente ao STF os documentos que forem requisitados. No pedido encaminhado ao ministro relator, a defesa solicita acesso ao apenso que trata da quebra de sigilo mencionada pela imprensa, bem como a outros eventuais procedimentos relacionados ao empresário, para que possa examinar o conteúdo e apresentar os documentos considerados pertinentes.

A decisão atribuída a Mendonça teria atendido a um pedido da Polícia Federal no contexto da Operação Sem Desconto, que investiga supostos desvios em aposentadorias do INSS. O ministro é o relator do inquérito no Supremo.

Conforme noticiado pela Folha, a autorização judicial teria ocorrido antes de a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura descontos indevidos em benefícios do INSS aprovar requerimento para quebrar os sigilos de Lulinha. A sessão da comissão foi marcada por confronto entre parlamentares, com troca de acusações entre governistas e oposicionistas.

A investigação tem como base menções ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em mensagens interceptadas pela Polícia Federal. Uma das linhas de apuração envolve a suspeita de que ele teria atuado como sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, hipótese rechaçada pela defesa.


Na íntegra da manifestação enviada à imprensa, o advogado afirmou: “Recebemos hoje a notícia da quebra de sigilo contra Fábio Luís, tanto pela CPMI, quanto, supostamente, nos autos do inquérito do Supremo Tribunal Federal. Estamos absolutamente tranquilos quanto ao resultado da quebra, pois ele não teve nenhuma participação nas fraudes do INSS e não cometeu nenhum crime”.

O defensor também destacou a postura colaborativa de seu cliente: “No entanto, ressalto que, desde o início, Fábio expressamente se colocou à disposição do STF, informando sua intenção de prestar todos os esclarecimentos que a Corte entendesse necessários. O fornecimento de documentos seria etapa inevitável para esclarecer fatos, dissipar ilações e evitar a desnecessária politização de seu nome”.

Ele acrescentou que, diante das notícias veiculadas, a defesa peticionou ao Supremo para ter acesso à suposta decisão. “Diante das notícias de hoje, peticionamos ao STF pedindo acesso à suposta quebra de sigilo, informando que forneceremos voluntariamente ao Tribunal os documentos pertinentes”, declarou.

Por fim, concluiu: “Por tudo isso, entendo que a quebra de sigilo é dispensável, pois não é necessário coagir quem desde o início demonstrou interesse inequívoco em contribuir”.

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Santa Catarina na contra mão da Constituição Federal?



Alguns fatos ocorridos em Santa Catarina estão chamando a atenção dadas as suas particularidades dentro de um contexto nacional. A aprovação de uma lei que proibia cotas raciais em universidades estaduais de estado é um caso preocupante e surge agora a "ICE de Floripa".

Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina

Lei de proibição de cotas raciais em universidades do estado

A aprovação da lei a Lei 19.722/2026, sancionada pelo governador Jorginho Mello, que proibia cotas raciais em universidades estaduais (aprovada no final de 2025 e sancionada em janeiro de 2026) gerou um intenso debate jurídico sobre inconstitucionalidade, mas, atualmente, a lei está suspensa por decisão judicial.

Embora críticos e alguns especialistas tenham argumentado que a lei violava a Constituição e poderia, em tese, autorizar intervenções federais para garantir o cumprimento de decisões do STF sobre ações afirmativas, o caminho adotado foi o da judicialização.

Aqui está o resumo da situação atual:

A Lei (suspensa): O governador Jorginho Mello sancionou a lei que proibia cotas raciais na UDESC e outras instituições estaduais ou financiadas pelo estado, permitindo apenas cotas sociais/renda.

Suspensão Judicial: A Justiça de Santa Catarina suspendeu a lei através de uma liminar, atendendo a ações que alegaram inconstitucionalidade e retrocesso social.

Ação do STF: O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, solicitou explicações ao governo estadual sobre a lei.

Argumentos: A defesa do estado argumenta que possui competência para legislar sobre ações afirmativas e que a lei visa a meritocracia, enquanto opositores apontam inconstitucionalidade por ferir o entendimento do STF de que cotas raciais são válidas e necessárias para reparação histórica.

Portanto, em vez de uma "intervenção federal" direta, o que ocorreu foi o controle de constitucionalidade pelo Judiciário, suspendendo a norma estadual por afrontar a jurisprudência nacional.

A "ICE de Floripa"

Uma guarda voluntária recém-criada pela prefeitura de Florianópolis, sob gestão Topázio Neto (PSD), passou a ter sua legalidade questionada após ter sido flagrada hostilizando e ameaçando, inclusive com prisão, um homem em situação de rua ao abordá-lo em um espaço público.

O caso ocorreu no início de fevereiro. Na ocasião, o homem desabrigado estava sentado em um banco na rua Vidal Ramos, no Centro da capital catarinense, quando foi cercado por cinco agentes da nova força, uniformizados como “Voluntários Floripa”, e uma sexta pessoa, sem identificação. O grupo passou a tentar expulsá-lo aos gritos e proferindo ofensas, conforme mostra uma gravação.

“Aqui é lugar de dormir? Aí na hora de cagar e de mijar, você faz também sujeira, seu vacilão. Você é um vacilão, vacilão!”, diz um voluntário, com o dedo em riste, apontando para o rosto do homem abordado. “Mais uma dessas, e a gente vai te prender por desacato”, afirma outro agente uniformizado.

O homem desabrigado tenta argumentar que o proprietário de um prédio à frente o autorizou a pernoitar no local, o que um terceiro agente voluntário retruca. “Não interessa, é o caralho, rapaz. Eu vou ter que te arrancar daqui. E você vai fazer o quê? Todo dia eu vou passar aqui e te arrancar daqui.”

Edifício Sede do Ministério Público de Santa Catarina, 
Florianópolis, 2025.  (Foto: Cristiano Andujar/MPSC)

O episódio foi denunciado ao Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) pelo vereador Leonel Camasão (PSOL), de oposição ao prefeito de Florianópolis. À Ponte, o órgão comunicou analisar o caso. Para o parlamentar, a natureza coercitiva da abordagem indica usurpação de função pública, uma vez que os voluntários não têm poder de polícia — ou seja, não podem restringir direitos individuais a fim de preservar interesses coletivos, o que é típico, por exemplo, da Polícia Militar.

“É inconstitucional ter voluntários fazendo trabalho ostensivo na rua. É algo totalmente errado, que enfraquece o controle público sobre agentes de segurança. Você vê que ele diz ali que vai tirar a pessoa em situação de rua dali. Por quê? Porque ele quer. Isso é muito perigoso”, argumenta o vereador.

Lei que criou guarda não veta policiamento nem detalha atribuições

A criação da guarda de voluntários foi aprovada por maioria pela Câmara de Florianópolis ao final de novembro do ano passado, em função de um projeto de lei proposto pelo prefeito dois meses antes.

A proposta de Topázio resultou na Lei 11.498/2025, que é sucinta sobre as atribuições dos novos agentes: eles devem prestar “serviço voluntário em atividades operacionais e em programas e projetos sociais em apoio à Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP)”.

O texto definiu que eles devem atuar sob supervisão de ao menos um agente público e podem obter ressarcimento de gastos com alimentação e transporte. Não há vedação expressa a atividades de policiamento, nem delimitação sobre quem exerce o controle externo dos voluntários.

Ainda à época da tramitação na Câmara, o vereador Leonel contestou que o texto seria inconstitucional justamente por trazer termos genéricos, o que abriria margem para delegar aos voluntários atribuições típicas da segurança pública, como patrulhamento, fiscalização e poder de polícia.

“A adoção de um serviço voluntário na segurança pública não amplia a segurança, mas fragiliza o Estado de Direito, agrava desigualdades e gera terreno fértil para o crescimento de práticas vigilantes. Em última análise, o projeto ameaça dissolver as fronteiras entre o público e o privado no exercício do poder de polícia”, argumentou ao votar pela não aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Já a relatora do projeto na CCJ da Câmara, a vereadora Manu Vieira (PL), contra-argumentou pela aprovação, dizendo que “o projeto não confere aos voluntários poder de polícia nem substitui servidores públicos efetivos, atuando apenas em funções de apoio operacional e educativo”.
Rotina de voluntários é reprimir ambulantes e pessoas em situação de rua

No início de dezembro, a prefeitura publicou um edital para convocar até 150 voluntários. Eles passariam por um curso de dois dias para irem às ruas. Apenas em 26 de janeiro deste ano, a vice-prefeita de Florianópolis e também secretária de Segurança e Ordem Pública, Maryanne Mattos (PL), editou duas portarias com mais detalhes da atuação dos agentes, sendo um regulamento e um código de conduta.

Entre outras coisas, o código estabelece que os voluntários devem ser discretos, atuar de maneira cordial e utilizar linguagem respeitosa, evitando termos ofensivos, o que já destoa da prática nas abordagens a pessoas em situação de rua, conforme foi flagrado. Ele prevê ainda ser uma transgressão grave e passível de exclusão “travar discussão, rixa ou luta corporal quando uniformizado”.

‘ICE de Floripa’: Guarda voluntária recém-criada já ignora 
regras e tem legalidade contestada em SC
 (Foto: Allan Carvalho/PMF)

Já o regulamento define cada agente como um “cidadão capacitado para compor na comunidade uma força organizada de defesa civil, para atuação nas situações de emergência ou calamidades públicas durante os desastres”, sem menção à segurança pública. O texto dita que a atuação deles “possui caráter exclusivamente comunitário, educativo, preventivo e de apoio, não compreendendo, em nenhuma hipótese, o exercício de atividade de polícia ostensiva, investigativa ou repressiva”.

Na prática, no entanto, os voluntários têm atuado de maneira ostensiva contra pessoas em situação de rua e também nas praias, onde acompanham fiscalizações a vendedores ambulantes e reprimem o uso de caixas de som nas faixas de areia, o que passou recentemente a ser proibido em Florianópolis.

“O trabalho dos voluntários impacta os resultados de vistorias dos órgãos fiscalizatórios. Nesta temporada, entre dezembro e janeiro, as apreensões de materiais irregulares tiveram um salto de 30 para 242 carrinhos de comércio ambulante irregular, representando um aumento de 706%”, divulgou a gestão Topázio Neto no último dia 27 de janeiro, quando havia 140 agentes em atividade.

Em relação às pessoas desabrigadas, a gestão Topázio já havia tido projeção nacional por outras iniciativas repressivas. Em novembro do ano passado, o prefeito anunciou ter instalado um posto de “controle migratório” na rodoviária para identificar pessoas que chegavam sem moradia fixa ou emprego na cidade. Em 2024, ele havia obtido a aprovação na Câmara de um projeto que autoriza a internação forçada de pessoas em situação de rua com transtornos mentais ou dependência química.

Topázio (PSD), prefeito de Florianópolis, 

Prefeito Topázio, de Florianópolis, fecha Restaurante popular

Ainda na gestão Topázio, o único restaurante popular de Florianópolis, que atendia pessoas em situação de vulnerabilidade, foi fechado. Em função desse histórico, o grupo de agentes voluntários foi agora apelidado por opositores de “milícia do Topázio” e “ICE de Floripa”, em comparação com a hostilidade protagonizada pela polícia de imigração dos Estados Unidos na gestão de Donald Trump.

Voluntários já foram usados para evitar convocação de efetivos por estados

Ainda para a oposição ao prefeito de Florianópolis, a adoção dos voluntários se tratou de um subterfúgio para não repor o efetivo da Guarda Municipal — com 182 agentes, segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2023.

A própria gestão Topázio argumentou, ao propor o voluntariado, ter gasto R$ 300 mil no verão anterior para contratar equipes terceirizadas de segurança, assumindo que a convocação reduziria custos.

Em nível estadual, iniciativas de voluntariado já foram adotadas também para, em tese, diminuir gastos, amparadas pela Lei Federal 10.029/2000, que regulamenta a prestação de serviços voluntários para polícias e bombeiros militares nos estados — ela veda expressamente o exercício do poder de polícia e prevê uma proporção de um voluntário para cada cinco agentes efetivos.

No estado de São Paulo, por exemplo, a lei estadual 11.064/2002 estabeleceu um serviço voluntário na Polícia Militar, para contratar jovens como soldados temporários. Pelo texto, eles teriam funções administrativas. Na prática, no entanto, passaram a ser usados até na guarda de unidades militares e em ronda escolar, o que acarretou em uma série de ações contra o Estado em busca de reparação de obrigações trabalhistas e previdenciárias. No ano passado, a legislação paulista foi revogada.

Ao longo dos últimos dez anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) já declarou inconstitucionais leis estaduais de Goiás e Rio Grande do Sul que previam a adoção de serviço militar voluntário nas polícias. A Corte também vetou um texto de Minas Gerais que estabelecia a contratação de policiais penais temporários. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL), aliado do prefeito de Florianópolis, tem um edital aberto para a contratação temporária de policiais militares.

Programa de voluntários erra ao transferir poder de polícia, dizem especialistas

Para o delegado da Polícia Civil de São Paulo David de Siena, que é também coordenador do Observatório de Segurança Pública da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a inclusão de voluntários na segurança pública não é inconstitucional por si só, desde que eles atuem com atividades-meio, como funções administrativas e de apoio, e não com atividades-fim, exclusivas das polícias.

“Do ponto de vista formal, o prefeito de Florianópolis não está criando uma nova força. Agora, talvez o programa esteja sendo mal estruturado”, afirma. “Quando ele transfere poderes operacionais para esses agentes voluntários, ele está, de uma maneira oblíqua e lateral, transferindo a eles poder de polícia, que é um poder de fiscalização, e isso só agentes públicos podem ter”.

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Segundo o IBGE, 34 mil crianças estão em união conjugal

INFÂNCIA EM RISCO

Dados do Censo 2022 e especialistas indicam que a cultura de uniões precoces desafia a lei e a proteção da infância

ICL Notícias, 27/02/2026 | 05h15 com o titulo Decisão no TJMG reacende debate sobre 34 mil crianças em união conjugal, segundo IBGE


Publicada originalmente às 21h15 de 26/02/2026*

Por Cleber Lourenço

A decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que absolveu um homem acusado de manter relação com uma menina de 12 anos reacendeu um debate que vai muito além de um processo específico. O caso trouxe para o centro da discussão uma realidade grave: o Brasil ainda convive com milhares de crianças vivendo em algum tipo de união conjugal.

Dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE na publicação Censo Demográfico 2022: Nupcialidade e Família: Resultados preliminares da amostra”, mostram que mais de 34 mil crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos viviam em algum tipo de união conjugal no país.

A legislação brasileira é clara. O casamento civil só é permitido a partir dos 18 anos. Entre 16 e 18 anos, apenas com autorização dos pais ou responsáveis legais, como forma de emancipação. Abaixo disso, não há possibilidade legal.

Mesmo assim, entre os menores de 10 a 14 anos que declararam viver em união:

  • 7% estavam casados no civil e no religioso;
  • 4,9% apenas no civil;
  • 1,5% apenas no religioso;
  • 86,6% viviam em algum tipo de união consensual.
  • A esmagadora maioria, portanto, está em arranjos informais, fora do cartório, mas não fora da realidade social.
Para Ariel de Castro Alves, advogado, membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB e ex-secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, o problema tem raízes profundas.

“Essa cultura dos relacionamentos precoces está muito arraigada no Brasil. São uniões estáveis muitas vezes apoiadas por pais e mães, até como forma da filha sair da situação de miséria e pobreza. Mas esses ‘casamentos’ precoces, além de configurarem estupros e exploração sexual, colaboram para perpetuarem as desigualdades sociais e econômicas no país. São meninas com as infâncias ceifadas. Deixam a escola, são exploradas no trabalho infantil doméstico, acabam tendo gestações precoces e de risco e são submetidas a violência doméstica”, afirma.

Ele destaca que essa realidade não encontra resposta estruturada do Estado. “Não existem políticas públicas especializadas para o enfrentamento dessas situações.”

O advogado também aponta a ausência de educação sexual nas escolas como um fator de risco.

“A educação sexual nas escolas, que não ocorre porque os setores reacionários impedem, serviria para prevenir relacionamentos precoces, violência doméstica, gravidez infantil, abusos e exploração sexual e infecções sexualmente transmissíveis.”

Segundo Ariel, muitas vítimas sequer compreendem que estão sendo violadas. “Muitas crianças e adolescentes sofrem assédios e violências sexuais e nem sabem que estão sendo vítimas de crimes ou não sabem como denunciar e romper com essas situações.”

A legislação não deixa margem de dúvida ao tratar de crianças menores de 14 anos. O artigo 217-A do Código Penal estabelece que qualquer relação sexual com menor de 14 anos configura estupro de vulnerável, independentemente de consentimento ou vínculo afetivo. A lei considera que, por sua condição, a vítima não possui discernimento suficiente para consentir de forma válida.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram a dimensão do problema: em 2024, foram registrados 67.204 casos de estupro de vulnerável no país, mais de três vezes o número de estupros (de maiores de 14 anos) enquadrados no artigo 213. Isso corresponde a 31,6 casos por 100 mil habitantes, com crescimento de 1% em relação a 2023.

Prevenção e mudança cultural

Para Ariel, o enfrentamento passa por prevenção e mudança cultural. “A questão envolve a prevenção dos relacionamentos precoces que ocorrem de forma sistemática no Brasil, principalmente em cidades do interior.”

Ele acrescenta que isso deve ocorrer “através da educação sexual nos ambientes escolares e campanhas de sensibilização das famílias. A maioria dos ‘casamentos’ infantis ocorre pela questão da tradição de muitas famílias, herdadas de várias gerações, e como forma de fuga da pobreza.”

O resultado, segundo ele, é a reprodução de um ciclo perverso. “Esses relacionamentos perpetuam ciclos de miséria, pobreza, evasão escolar, gravidez precoce, trabalho infantil e violência doméstica.”

E conclui com um diagnóstico estrutural: trata-se de uma “herança do histórico machismo da sociedade brasileira no tratamento de mulheres e crianças como ‘objetos’ e não como pessoas, sujeitos de direitos.”

Cultura do estupro

Além da dimensão social e econômica, o debate também envolve a cultura de violência contra meninas.

Para Gabriela Souza, advogada feminista, especialista em direito das mulheres, professora e sócia fundadora do primeiro escritório de advocacia para mulheres do Sul do país, os números do IBGE escancaram uma realidade que parte do sistema insiste em relativizar.

“A cultura de violência contra os corpos de mulheres e meninas é confirmada com a análise dos dados do IBGE sobre o casamento de menores de 14 anos. Isso demonstra uma cultura que vai para além da objetificação de corpos infantis, em que há uma padronização dos corpos de mulheres adultas para que se assemelhem aos de crianças. Revela o que há de pior na nossa sociedade, que é uma cultura de violações e de relativizações, de absurdos.”

Ela é categórica ao tratar da interpretação jurídica. “Qualquer relacionamento sexual entre homens adultos e crianças menores de 14 anos é estupro de vulnerável e não há margem na legislação para que se acredite ou se decida o contrário. Olhar esses dados do IBGE é revelador. É um escaneamento da sociedade brasileira e uma revelação do quanto nós erramos com as meninas especificamente.”

Segundo Gabriela, a naturalização desses casos passa, muitas vezes, pela proximidade do agressor com a vítima. “Normalizam-se abusos em que, normalmente, esse homem agressor é uma pessoa de confiança dessa criança. Ele é mais velho e abusa da hierarquia social que tem perante essa criança, porque muitas vezes é pai, padrasto, avô, vizinho ou alguém que detém a confiança da família. Isso torna a criança ainda mais vulnerável, porque o agressor é justamente aquela pessoa com quem ela nutre afeto e de quem deveria estar recebendo proteção.”

O caso do TJMG, ao relativizar uma situação envolvendo uma menina de 12 anos, expôs um dilema que os números do IBGE já indicavam: a distância entre a lei e a realidade brasileira ainda é profunda quando o assunto é proteção da infância. Os dados não são apenas estatística. Funcionam como um retrato duro de uma sociedade que, apesar da legislação clara, ainda convive com práticas que colocam meninas em posição de extrema vulnerabilidade.

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Parlamentares pedem a Alcolumbre nulidade de votação em CPMI do INSS

POLÍTICA

Grupo acusa presidente da CPMI de fraude na contagem de votos e pede análise do caso no Conselho de Ética do Senado

ICL Noticias, 27/02/2026 | 06h31


Por Luiz Claudio Ferreira – Agência Brasil

Grupo de integrantes da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) encaminharam um requerimento ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para pedir a anulação da votação desta quinta-feira (26).

Eles acusam o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), de fraude e pedem também análise do caso pela Comissão de Ética do Senado. No total, 14 parlamentares assinam o documento.

O documento inclui fotos que foram apresentadas como supostas comprovações de irregularidades em uma sessão tumultuada que aprovou 87 requerimentos. Entre essas decisões, estão as quebras de sigilos bancários e fiscais do empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula.

Pelo documento enviado a Alcolumbre (foto), cinco senadores e nove deputados, a maioria da base governista, pedem, além da suspensão dos efeitos da votação, que o recurso seja apresentado ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado para apurar eventual quebra de decoro parlamentar por parte do presidente da comissão, o senador Carlos Viana.

Para os parlamentares, a votação foi “eivada de vício” e “compromete a legalidade do processo legislativo, vulnera o princípio democrático e projeta insegurança jurídica sobre todos os atos subsequentes”. Eles pediram que cada um dos 86 requerimentos fosse votado um a um.

Além das quebras de sigilos de Lulinha, esses requerimentos incluíam novas convocações, como a do ex-executivo e sócio do Banco Master Augusto Ferreira Lima, do ex-deputado federal André Luis Dantas Ferreira, o André Moura; da empresária Danielle Miranda Fontelles e de Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA).

Contagem

Na argumentação de parlamentares que assinam o documento, foram incluídas cinco imagens que comprovariam a presença dos seus votos contrários, o que alteraria o resultado da votação.

“Conforme demonstram os registros audiovisuais e as fotografias da sessão, os requerimentos foram, em realidade, rejeitados por 14 votos contrários, em contraste com sete votos favoráveis”.

Nessas imagens, há a identificação dos parlamentares sobre as imagens deles. Eles se encontram em pé. “Os senadores e deputados que votaram contra os requerimentos em globo levantaram-se de suas cadeiras e ergueram os braços, manifestando-se de forma inequívoca e visível”, diz o documento.

Segundo os 14 parlamentares, isso não ocorreu por mera controvérsia interpretativa. “A gravidade da fraude na contagem dos votos é agravada pela nítida parcialidade na condução dos trabalhos. O grupo de oposição, por intermédio da Presidência da CPMI, realizou uma seleção arbitrária de requerimentos para a pauta do dia”.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) afirmou que houve "fraude deliberada" na proclamação do resultado da votação. Segundo ela, o placar correto teria sido de 14 votos a sete entre os parlamentares presentes e titulares, o que configuraria maioria simples suficiente para rejeitar os requerimentos votados em bloco. A senadora disse que, ao anunciar resultado diferente, o presidente da comissão teria desrespeitado o regimento

O documento foi assinado pelos senadores Randolfe Rodrigues (PT-AP), Soraya Thronicke (Podemos-MS), Jussara Lima (PSD-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Teresa Leitão (PT-PE), e dos deputados Paulo Pimenta (PT-RS), Damião Feliciano (União-PB), Átila Lira (PP-PI), Cleber Verde (MDB-MA), Orlando Silva (PCdoB-SP), Romero Rodrigues (Podemos-PB), Alencar Santana (PT-SP), Neto Carletto (PP-BA) e Rogério Correia (PT-MG)

A veículos de imprensa, o senador Carlos Viana disse que espera que o presidente do Senado receba todas as versões do que ocorreu na votação.

“Tenho muita tranquilidade que o regimento da Casa foi cumprido e de que nós temos todas as condições para dar sequência aos requerimentos”.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Governo Zema reduz verba contra chuvas de R$ 135 mi para R$ 6 mi, diz jornal

TRAGÉDIA DE MINAS

Ao menos 32 pessoas morreram e 38 estão desaparecidas na Zona da Mata de Minas Gerais em razão das chuvas que atingem a região

ICL Noticias, 25/02/2026 | 18h20






O governo de Romeu Zema (Novo) reduziu as despesas na infraestrutura de combate às chuvas de cerca de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre os anos de 2023 e 2025. Os dados estão no Portal de Transparência do Estado e foram revelados pelo jornal O Globo.

Desde a noite de segunda-feira (23), ao menos 32 pessoas morreram e 38 estão desaparecidas na Zona da Mata de Minas Gerais em razão das chuvas que atingem a região. Outras 208 pessoas foram resgatadas com vida. Cenas de moradores tentando socorrer vizinhos ilhados, casas desmoronando, ruas completamente alagadas, além de carros e até caixões de funerária sendo levados pela enxurrada, se repetiam ao longo do dia.

Nos investimentos de “suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas”, que incluem gestão de desastres, atendimento emergencial e mitigação de danos em rodovias, além da prevenção de eventos meteorológicos críticos, o governo destinou cerca de R$ 134,8 milhões em 2023. Desde então, o valor caiu para R$ 41,1 milhões em 2024 e R$ 5,8 milhões em 2025.

Neste ano, durante os dois últimos meses, a administração estadual havia destinado R$ 16.100 para a infraestrutura de combate aos temporais. Os dados sob essas rúbricas do primeiro mandato do atual governador, Romeu Zema, que se estendeu entre os anos de 2019 a 2022, não estão disponíveis no Portal de Transparência.

Familiares acompanham busca e resgate de pessoas em escombros de 
casas soterradas por lama após fortes chuvas.(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Chuvas em Minas Gerais

Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas, registrava na noite desta terça 25 óbitos e 37 desaparecidos, de acordo com o Corpo de Bombeiros. Outras sete mortes aconteceram na cidade de Ubá, a 111 quilômetros, que também buscava dois desaparecidos, segundo a corporação.

Os estragos em Juiz de Fora levaram a prefeita Margarida Salomão (PT) a decretar estado de calamidade pública na cidade mineira ainda durante a madrugada desta terça, o que foi reconhecido pelo governo federal. Ubá e a cidade de Matias Barbosa também decretaram a medida, o que facilita para receber ajuda tanto federal quanto estadual.

Voluntário acompanha busca e resgate de pessoas em escombros de casas 
soterradas por lama após fortes chuvas. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Depois dos temporais, o vice-governador, Mateus Simões (PSD), anunciou a destinação de R$ 38 milhões a Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá. O governador Zema informou que equipes do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) serão deslocadas para as cidades para mapear todas as áreas de risco.

“Fiz questão de me deslocar até Juiz de Fora. Eu estava no Noroeste de Minas Gerais. Tão logo tomamos conhecimento da gravidade das ocorrências aqui, ainda de madrugada, determinei ao coronel Rezende, nosso chefe da Defesa Civil, que empenhasse todos os esforços possíveis no sentido de tentarmos salvar o maior número de pessoas”, afirmou Zema.

O governo federal reconheceu o estado de calamidade pública decretado pela prefeitura de Juiz de Fora. O presidente Lula (PT) se solidarizou com a população e informou que uma equipe de coordenação da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) está a caminho e que a Defesa Civil Nacional trabalha em alerta máximo.

A Defesa Civil determinou ainda, na terça-feira, a evacuação completa de 24 ruas em quatro bairros de JF, com estimativa de retirada de cerca de 600 famílias.

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