Da Doutrina Monroe à Guerra Fria, ações militares e operações secretas dos Estados Unidos marcaram a história da América Latina com golpes, conflitos e consequências duradouras
A referencia, 02/01/2026 17:00, Atualizado em 03/01/2026 11:59
As intervenções dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe fazem parte de uma política externa de longa duração, marcada por ações abertas e secretas que nem sempre produziram os resultados esperados. Desde o século XIX, com a formulação da Doutrina Monroe, Washington passou a enxergar o continente como uma área de influência estratégica, postura que se intensificou ao longo do século XX, especialmente durante a Guerra Fria.
A pressão recente do governo norte-americano sobre a Venezuela se insere nesse histórico. Operações militares, ações da CIA e sanções econômicas refletem uma lógica antiga, associada à ideia da “Política do Big Stick” (“Grande Porrete”, em tradução literal), popularizada no início do século passado pelo presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) e baseada no provérbio africano “Fale manso e carregue um grande porrete”. O princípio era simples: combinar diplomacia com força militar para proteger interesses considerados vitais pelos EUA.
Prisioneiros da Brigada 2506 guardados por fidelistas cubanos, 1961 (Foto: WikiCommons)Após a Segunda Guerra Mundial, o foco das intervenções passou a ser o combate ao comunismo. A Revolução Cubana, em 1959, reforçou o temor de Washington quanto à expansão da influência soviética no hemisfério. A partir daí, operações clandestinas e apoio a governos autoritários tornaram-se frequentes em diversos países latino-americanos.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Guatemala, em 1954, quando a CIA apoiou a derrubada do presidente Jacobo Árbenz após reformas agrárias que atingiram interesses de uma grande empresa americana. O golpe abriu caminho para décadas de instabilidade política e violência, além de servir de modelo para outras intervenções na região.
Outro episódio marcante foi a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961. O fracasso da operação não apenas fortaleceu o regime de Fidel Castro, como também contribuiu diretamente para a Crise dos Mísseis de 1962, levando o mundo à beira de uma guerra nuclear.
Na década de 1980, os EUA voltaram a intervir diretamente no Caribe e na América Central. A invasão de Granada, em 1983, e o apoio aos Contras na Nicarágua evidenciaram a tentativa de conter governos alinhados à esquerda. No caso nicaraguense, o conflito provocou impactos sociais e econômicos profundos e se tornou um dos maiores escândalos políticos da história americana, com o caso Irã-Contras.
A invasão do Panamá, em 1989, que resultou na queda do general Manuel Noriega, é frequentemente citada como um dos raros exemplos considerados bem-sucedidos por parte de analistas, embora também seja alvo de críticas quanto às consequências de longo prazo.
Ao longo de mais de um século, as intervenções dos EUA na América Latina deixaram marcas profundas. Golpes, conflitos armados e instabilidade política moldaram a história de vários países, levantando debates que permanecem atuais sobre soberania, interesses geopolíticos e os limites da política externa americana no continente.
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