segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Irã: o centro de uma disputa geopolítica global

Uma análise crítica das tensões internas, do impacto das sanções e das pressões externas sobre a soberania iraniana e o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio

Brasil 247, 12 de janeiro de 2026, 06:57 h

Protesto na rodovia Vakilabad, em Mashhad, província de Razavi Khorasan, Irã, em 10 de janeiro de 2026, nesta captura de tela obtida de um vídeo de mídia social. 

*Marcelo Zero

“Isto também passará” - Frase persa.

É muito difícil saber, com precisão, o que está acontecendo, de fato, no Irã. Como sempre, a mídia ocidental fala na “sangrenta ditadura” do Irã e que centenas de pessoas já teriam sido mortas pela repressão do regime iraniano. De outro lado, imagens difundidas no Ocidente mostram incêndios de carros e construções, e o regime acusa alguns grupos de manifestantes de terem atirado e matado policiais iranianos.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, moderado e progressista, já fez vários apelos ao diálogo.

Nesse contexto nebuloso e contraditório, é preciso considerar que Israel e os EUA estão fortemente empenhados na derrubada do regime iraniano há muito tempo. Tanto o governo de Israel quanto o governo dos EUA têm capacidade de promover a chamada “guerra híbrida” e de articular e promover protestos via redes sociais e internet.

Embora o regime iraniano tenha derrubado a internet no país, os manifestantes estariam usando terminais da Starlink, de Elon Musk, para se articularem.

É claro que há um substrato real na insatisfação da sociedade iraniana, principalmente naqueles setores mais jovens e que vivem em grandes cidades, como Teerã, por exemplo.

Mas tal insatisfação não tem mais muito a ver com a promoção de valores tradicionais da sharia islâmica. Hoje em dia, por exemplo, a maioria das mulheres iranianas que vive nas grandes cidades não usa mais o hijab. O regime tornou-se bem mais permissivo, nesse aspecto.

A questão central é econômica.

Há de se observar que, desde 1979, o Irã tornou-se o país mais sancionado do mundo. Só perdeu esse “honroso” posto após a Rússia ter feito a intervenção militar na Ucrânia, em 2022, mas continua a ocupar um terrível e muito incômodo segundo lugar.

As dificuldades econômicas advindas, essencialmente, das sanções unilaterais dos Estados Unidos e de aliados, as quais restringem fortemente o acesso do Irã aos mercados internacionais e a consequente disponibilidade de moedas fortes, bem como congelam ativos iranianos em bancos no exterior, conformam um contexto de instabilidade política constante, que se agravou nos últimos anos. Somente entre 2012 e 2015, tais sanções teriam provocado um prejuízo acumulado de cerca de US$ 500 bilhões.

O ex-presidente reformista Hassan Rouhani, eleito em 2013 e reeleito em 2017, tinha conseguido reinserir parcialmente o Irã na comunidade internacional, mediante equacionamento do dossiê nuclear, com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano (“Joint Comprehensive Plan of Action” – JCPOA).

Mas Trump, desde o seu primeiro governo, adotou uma política de “pressão máxima” sobre o regime do Irã e retirou os EUA do JCPOA, em 2018. Desde então, a tensão vem aumentando, com o Irã, compreensivelmente, se retirando de seus compromissos e os EUA, por seu turno, apertando as sanções.

Os efeitos da pandemia, muito amplificados pelo isolamento do regime iraniano, foram devastadores no Irã. O país foi, inicialmente, um dos mais atingidos, com mais de 7 milhões de casos registrados e mais de 145 mil mortos. Teve de desenvolver imunizantes próprios para conter, com sucesso, a pandemia. Ademais, a tomada do poder pelo Talibã (força sunita) no vizinho Afeganistão, em agosto de 2021, agravou a pressão sobre os serviços públicos iranianos, que receberam contingente extra estimado em 2 milhões de refugiados, os quais se beneficiam de serviços básicos de saúde e educação.

As dificuldades na condução da política macroeconômica, o aumento do desemprego entre os jovens, a perda do poder de compra da classe média e o empobrecimento da população já estavam entre as causas dos protestos que eclodiram em setembro de 2022, logo após a morte, em custódia policial, da jovem curda Mahsa Amini.

Agora, não há dúvida de que os protestos são motivados substancialmente por uma inflação de 42% e pela desvalorização recente da moeda nacional, que repercute diretamente nos preços dos alimentos.

Apesar dos esforços para obter autossuficiência alimentar, o Irã, que tem apenas 11% do seu território de terras agricultáveis e enfrenta uma seca de dois anos, ainda importa muitos alimentos essenciais, como trigo, arroz, laticínios e produtos para alimentação animal, como milho (importado, em grande parte, do Brasil). Cerca de 30% das importações do Irã são de alimentos.

Isso não significa que as manipulações feitas pelo governo de Netanyahu e pelo governo de Trump não estejam presentes.

A divulgação, como “alternativa de poder”, do filho de Reza Pahlevi, homônimo de um dos ditadores mais brutais que o mundo conheceu, representa uma tentativa canhestra e patética de derrubar o regime do Irã, apenas para fazer regredir, de novo, esse notável país de cultura milenar ao status de colônia dos EUA e do chamado Ocidente, de um modo geral.

Lembre-se que o tenebroso Xá ascendeu ao poder após britânicos e estadunidenses terem derrubado Mosaddegh, que havia nacionalizado, na década de 1950, as jazidas de petróleo iranianas. Os iranianos jamais esquecerão essa passagem trágica de sua história.

Não creio que vá funcionar. Assim como não teria funcionado uma reunião sigilosa no Itamaraty, entre o governo de Bolsonaro e o governo de Netanyahu, a qual teria sido realizada na gestão de Ernesto Araújo, com o objetivo de que o nosso país se somasse aos esforços para desestabilizar o Irã.

As manifestações não têm lideranças internas coesas e críveis e estão sendo conduzidas, em grande parte, por agendas externas, como a de Pahlevi.

Obviamente, Trump e Netanyahu não têm preocupação alguma com democracia e direitos humanos, nem com a crise econômica no Irã. Querem simplesmente derrubar um regime que é estratégico para o equilíbrio de forças no Grande Oriente Médio e que tem as terceiras maiores jazidas de petróleo e gás do mundo.

Diga-se de passagem, qualificar o regime iraniano como uma ditadura cruel representa uma visão um tanto simplória e reducionista do complexo regime político do Irã.

É verdade que a Constituição da República Islâmica do Irã, de 1979, consagrou o princípio da “tutela do jurisconsulto islâmico” (wilayat-e-faqih), que fundamenta a noção de autoridade absoluta do Líder Supremo (hoje, o Aiatolá Ali Khamenei) em assuntos religiosos e políticos.

Ao mesmo tempo, porém, ela consagrou alguns princípios democráticos, prevendo eleições diretas para presidente, parlamentares e membros da Assembleia dos Sábios.

O Presidente da República, chefe do Poder Executivo, é responsável por elaborar e executar as políticas públicas e de relações exteriores e de defesa, nos limites das diretrizes impostas pelo Líder Supremo. Exerce a chefia do Gabinete de Governo, do Conselho Supremo de Segurança Nacional e do Conselho Supremo da Revolução Cultural.

Já o Parlamento iraniano (Majlis) é unicameral e composto por 290 deputados. As eleições para o Majlis ocorrem a cada quatro anos e, do total de assentos, cinco representam as minorias (judeus, zoroastras, cristãos armênios e cristãos caldeus).

Entretanto, toda candidatura ao Majlis é submetida ao crivo do Conselho dos Guardiães, órgão com poder de veto. O Majlis possui funções típicas de parlamento de uma democracia participativa — proposição legislativa, voto de confiança aos membros do Gabinete do Governo, impedimento do Presidente, aprovação de acordos internacionais —, sujeitas, não obstante, à ratificação ou ao veto do Conselho dos Guardiães.

Apesar dessa óbvia tutela religiosa, exercida basicamente pelo Líder Supremo e pelo Conselho de Guardiães, o Irã é bem mais democrático que as monarquias absolutistas sunitas dos países do Golfo Pérsico, que são, na realidade, regimes politicamente medievais. Tais regimes francamente ditatoriais não incomodam, contudo, o governo Trump, pois são aliados históricos dos EUA na região. As maiores bases militares dos EUA no Oriente Médio estão lá.

O regime iraniano ainda tem muito apoio nas cidades médias e pequenas e nas zonas rurais e semirrurais. Também tem apoio entre os mais pobres e as gerações mais velhas. A oposição está bastante concentrada em jovens de classe média que habitam os grandes centros urbanos, especialmente na grande área metropolitana de Teerã.

A maior parte da população do Irã é totalmente avessa a pressões externas, principalmente as vindas dos EUA e de Israel.

Caso Trump e Israel decidam bombardear o Irã, como ameaçaram, boa parte da população cerrará fileiras para defender o regime.

Além disso, uma tentativa séria de derrubar o regime implicaria “boots on the ground”, uma ocupação terrestre maciça.

Seria um desastre. Um “atoleiro” muito pior que o do Iraque.

O Irã reúne, entre forças armadas e a Guarda Revolucionária, 530 mil homens na ativa, fora os reservistas, que somam 350 mil. Ao todo, são, portanto, cerca de 880 mil homens fortemente armados que poderiam ser mobilizados no curto prazo. Além disso, o Irã dispõe de 40 milhões de homens aptos a combater. Na realidade, o Irã tem o exército convencional mais poderoso do Grande Oriente Médio. O Irã é a quarta força mundial em termos de lançadores móveis de foguetes e a oitava no que tange à artilharia convencional. Possui também 1.634 tanques de combate e 165 caças.

O Irã é um país-chave para o domínio da Eurásia, o supercontinente cujo controle, como já previa Zbigniew Brzezinski em “O Grande Tabuleiro de Xadrez”, propiciará hegemonia na ordem mundial.

China e Rússia sabem disso.

A China depende bastante do petróleo e do gás do Irã e vem fazendo pesados investimentos naquele país. Os chineses, em contratos de centenas de bilhões de dólares, conseguiram acesso exclusivo a partes significativas dos campos de gás e óleo do Irã. Em contrapartida, prometeram investir na infraestrutura energética do país e, mais do que isso, comprometeram-se a defender essas áreas petrolíferas contra agressões estrangeiras, “como se fossem território chinês”.

O acesso a essas jazidas iranianas, complementado por uma rede de gasodutos, permitirá à China amenizar sua dependência energética e é fundamental para a sua estratégia de constituir uma nova rota da seda. O Irã, por sua vez, poderá bloquear o estreito de Ormuz, por onde passam os grandes petroleiros que vêm do Golfo Pérsico, sem que isso impacte as suas exportações.

Já a Rússia vê o Irã como um parceiro geopolítico muito importante no Oriente Médio. Com a recente e injustificada ofensiva da administração Trump contra o Irã, contrariando abertamente o texto do acordo Joint Comprehensive Plan of Action, que colocou o programa nuclear iraniano sob controle dos EUA e da Europa em troca do levantamento das sanções, a Rússia aproximou-se muito do Irã. Em uma reunião entre Putin e Khamenei, realizada em novembro de 2022, o mandatário russo afirmou ao líder iraniano que a “Rússia não trairá o Irã”.

Há, portanto, muito em jogo. E o Irã não é a Venezuela ou o Panamá. Tem um longo histórico de resistência, que inclui uma terrível guerra com o Iraque, e cerca de 90 milhões de habitantes.

A crise iraniana tem de ser resolvida pelos iranianos, sem interferências externas e de forma pacífica. O Joint Comprehensive Plan of Action tem de ser plenamente retomado e as sanções precisam ser levantadas.

“Isto também passará”. Afinal, até a terrível Savak passou. Mas o Irã soberano não vai passar. Permanecerá, ainda, por outros milênios.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Secretário de Trump e Netanyahu discutiram intervenção no Irã, e Israel fica em alerta máximo com a possibilidade, diz agência

Conversa telefônica ocorreu no sábado (10) em meio à escalada de violência em protestos generalizados contra o governo do Irã, segundo a Reuters. Presidente dos EUA disse estar 'prontos para ajudar' manifestantes.

Por Redação g1, 11/01/2026 10h55 Atualizado há 20 horas

Vídeos mostram caos nas ruas do Irã em manifestações contra o governo Khamenei

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discutiu com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, a possibilidade de uma intervenção no Irã, revelou a agência de notícias Reuters neste domingo (11). Eles conversaram ao telefone no sábado.

A discussão entre os representantes dos EUA e de Israel —os países são aliados históricos— ocorre em meio protestos generalizados contra o governo do Irã registrados nos últimos dias, que vem escalando tanto em escala quanto em violência.

Por conta da situação, Israel está em alerta máximo diante da possibilidade de qualquer intervenção dos EUA no Irã, afirmaram três fontes israelenses à Reuters. No sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renovou as ameaças ao dizer que o Irã está "buscando a liberdade" e que os EUA estão "prontos para ajudar".

A mídia norte-americana afirmou que Trump está pensando o que fazer em relação ao país do Oriente Médio: segundo o "The New York Times", ele foi informado por membros de seu governo sobre opções disponíveis para um ataque militar, e segundo o "Axios", ele considera diferentes alternativas para apoiar os manifestantes iranianos.

A princípio, o plano de intervenção partiria apenas dos EUA, e Israel não sinalizou até o momento o interesse em intervir no rival regional, segundo a Reuters. Mesmo assim, as tensões entre israelenses e iranianos continuam elevadas desde a guerra de 12 dias em junho de 2025. Netanyahu afirmou neste domingo estar "observando atentamente" aos protestos no Irã.

Em resposta a Trump, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, acusou neste domingo os EUA e Israel de "semear caos e desordem" no país ao fomentar confrontos nas ruas. O governo iraniano já havia acusado "mercenários" de ambos os países de participar dos protestos. O Irã também ameaçou retaliar contra Israel e bases militares dos Estados Unidos caso o país seja alvo de um bombardeio norte-americano.

Neste domingo, o número de mortos nos protestos no Irã subiu para ao menos 192 pessoas, segundo a ONG "Iran Human Rights", com sede na Noruega, e o chefe da polícia do Irã disse que "o nível de confronto contra os manifestantes se intensificou". Anteriormente, Trump ameaçou atacar o Irã se o regime matar manifestantes pacíficos.

Pezeshkian também pediu para que a população se distancie do que chamou de "badernistas e terroristas". Ao mesmo tempo, Pezeshkian buscou uma conciliação com a população ao dizer que o governo está pronto para "ouvir seu povo" e está determinado a resolver as questões econômicas.

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País está em guerra, diz regime iraniano

Imagem retirada de um vídeo divulgado em 9 de janeiro mostra um carro em chamas durante noite de protestos em Zanjan, no Irã — Foto: TV estatal do Irã via AP

Desde o início dos protestos generalizados contra o regime do aiatolá Ali Khamenei no Irã, nos últimos dias de 2025, o movimento se expandiu em escala e violência.

Khamenei disse na sexta-feira (9) que seu governo "não vai recuar" diante dos protestos generalizados, que escalaram em proporção e violência nos últimos dias. Em pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder supremo iraniano chamou os manifestantes de “vândalos” e “sabotadores”.

Ali Larijani, conselheiro do aiatolá e chefe da principal agência de segurança do país, afirmou que o Irã está “em plena guerra” e que alguns “incidentes” foram “orquestrados no exterior”.

O regime iraniano também acusou os Estados Unidos de incitar os protestos.

Os EUA chamaram as acusações de “delirantes” e disseram que elas refletem uma tentativa de desviar a atenção dos desafios internos do regime iraniano, segundo um porta-voz do Departamento de Estado.

A repressão do governo iraniano aumentou neste sábado, segundo a agência AFP.

O Irã não enfrentava um movimento dessa magnitude desde os protestos de 2022, após a morte de Mahsa Amini, presa por supostamente violar o código de vestimenta feminino.

As manifestações ocorrem em um momento de fragilidade do Irã, após a guerra com Israel e os golpes sofridos por alguns de seus aliados regionais.

Além disso, em setembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) restabeleceu sanções ligadas ao programa nuclear do país.

Trump ameaça Cuba e sugere Rubio como novo presidente do país

Mundo

Ameaças de Trump contra Cuba surge dias após os EUA derrubarem o governo de Nicolás Maduro na Venezuela

Metrópoles, 11/01/2026 15:25, atualizado 11/01/2026 15:37


Artigo de Junio Silva

Arrasado pelo embargo econômico dos Estados Unidos em vigor desde a década de 1960, Cuba voltou a ser ameaçada pelo presidente norte-americano Donald Trump. Desta vez, o líder norte-americano afirmou que o país deve fazer um acordo com Washington, ou não haverá mais “petróleo e dinheiro”. A declaração foi divulgada neste domingo (11/1), em uma publicação na rede social Truth.

Segundo o presidente dos EUA, Cuba por anos viveu com “grandes quantidades” de petróleo e dinheiro venezuelano, em troca de serviços de segurança para os últimos dois presidente do país: Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Cenário que, segundo Trump, mudou após a captura do presidente da Venezuela no último dia 3 de janeiro — e da recente aproximação entre Caracas e Washington após Delcy Rodríguez assumir a presidência do país de forma interina.

“A Venezuela agora tem os Estados Unidos da América, as forças armadas mais poderosas do mundo (de longe!), para protegê-la, e nós a protegeremos. NÃO HAVERÁ MAIS PETRÓLEO NEM DINHEIRO PARA CUBA – ZERO! Sugiro fortemente que façam um acordo, ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS”, escreveu Trump no comunicado.

Por anos, Cuba e Venezuela firmaram uma aliança regional estratégica, com o objetivo de driblar as sanções norte-americanas que atingem as duas nações. Agora, com a queda de Maduro, o futuro do laço entre Caracas e Havana segue incerto.

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Rubio como presidente de Cuba

Em uma outra publicação na Truth, Trump compartilhou uma “ideia” divulgada por um usuário da rede social X. Nela, um homem identificado como Cliff Smith afirmou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, será o próximo presidente de Cuba.

“Parece-me ótimo!”, escreveu o presidente norte-americano ao republicar o tweet.

Filho de cubanos, o atual chefe da diplomacia dos EUA é um dos críticos mais ferrenho do governo cubano — e de outras administrações de esquerda na América Latina.

Presidente de Cuba responde

Com as recentes ameaças de Trump, que incluíram até mesmo uma sinalização de que os EUA podem realizar uma mudança de poder forçada no país, como fez na Venezuela, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel veio à público rebater as declarações do presidente norte-americano.

Segundo o líder cubano, as falas de Trump refletem sua “raiva” contra a “decisão soberana deste povo de escolher seu modelo político”.

“Cuba é uma nação livre, independente e soberana”, escreveu Canel em nota. “Ninguém dita o que fazemos. Cuba não ataca; ela é atacada pelos EUA há 66 anos, e não ameaça; ela se prepara, pronta para defender a pátria até a última gota de sangue”, acrescentou.

Cuba e Estados Unidos: o que você precisa entender

Conhecimento

Mais de seis décadas de sanções, rupturas e propaganda moldaram o conflito entre Cuba e Estados Unidos. Você precisa entender o que sustenta esse impasse

ICL Notícias, 26/06/2025 | 09h00


Por Leila Cangussu

Você ouve falar de Cuba desde criança. Na escola, nos jornais, nos memes, nas rodas de conversa. Sempre com um filtro. De um lado, a imagem de um país oprimido por uma ditadura comunista. Do outro, o símbolo romântico da resistência anticapitalista.

Mas, mesmo assim, pouca gente te mostra por que, há mais de sessenta anos, Cuba e Estados Unidos vivem uma relação travada. Bloqueio econômico, propaganda política e um jogo de forças que atravessa décadas.

Entender esse embate ajuda a ler o funcionamento do poder no mundo. Quem impõe sanções. Quem sustenta o bloqueio. Quem lucra com a instabilidade. E quem paga a conta.

A relação entre Cuba e Estados Unidos não começou em 1959

Você já ouviu falar que os Estados Unidos romperam com Cuba por causa da Revolução. Mas o histórico é bem mais antigo. Desde o século XIX, os EUA demonstravam interesse pela ilha. Houve tentativas de compra de Cuba da Espanha. E, após a independência formal em 1902, os EUA mantiveram forte influência política e econômica no país vizinho.

O período da ocupação militar norte-americana entre 1898 e 1902 foi marcado pela imposição da Emenda Platt, que autorizava os EUA a intervir nos assuntos internos cubanos. Essa influência se manteve até 1959, quando o governo de Fulgencio Batista — aliado dos EUA — foi derrubado pela Revolução liderada por Fidel Castro.

A Revolução Cubana e a ruptura com Washington

Em 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro, Che Guevara e outros guerrilheiros entraram em Havana. Batista fugiu. Começava um novo ciclo político, com forte apelo nacionalista e anti-imperialista. Em pouco tempo, Cuba nacionalizou empresas estrangeiras, incluindo bancos, usinas, indústrias e propriedades norte-americanas.


Fidel Castro, Che Guevara e companheiros marcham pelas ruas de Havana após a vitória da Revolução Cubana em 1959. A imagem se tornou símbolo de uma ruptura histórica que desafiou o imperialismo dos Estados Unidos e acendeu debates políticos em toda a América Latina. Foto: reprodução

Em resposta, os Estados Unidos impuseram sanções comerciais e romperam relações diplomáticas em 1961. Também apoiaram a fracassada invasão da Baía dos Porcos no mesmo ano. A radicalização do governo cubano levou à aproximação com a União Soviética. O ponto máximo da tensão veio em 1962, com a Crise dos Mísseis.

O embargo econômico: como ele funciona

O embargo dos Estados Unidos contra Cuba começou oficialmente em fevereiro de 1962, quando o então presidente John F. Kennedy assinou a ordem executiva que proibia todas as transações comerciais e financeiras com a ilha.

O que antes era uma série de restrições parciais virou uma política de bloqueio total. Desde então, Cuba está formalmente impedida de acessar boa parte da economia global, não por decisão de mercado, mas por imposição legal dos Estados Unidos.

O que está proibido

O embargo é uma política ativa de restrição econômica que transforma a vida cotidiana em Cuba e afeta a forma como outros países se relacionam com a ilha. O alcance é amplo e interfere em operações básicas do comércio internacional. O que está formalmente proibido inclui:
  • Transações financeiras entre empresas americanas e entidades cubanas
  • Exportações e importações entre Cuba e os Estados Unidos, com exceções mínimas
  • O uso do dólar em operações internacionais envolvendo Cuba
  • A entrada de produtos fabricados em outros países que contenham mais de 10% de componentes ou tecnologia dos EUA

Na prática, isso significa que até um computador feito na Alemanha, mas com chips fabricados nos Estados Unidos, não pode ser vendido para Cuba sem licença especial. O bloqueio se estende até os bancos: qualquer instituição que opere em dólares ou tenha negócios nos EUA pode ser penalizada se fizer transações com a ilha. Isso afeta remessas, compras on-line, contratos com empresas estrangeiras, serviços financeiros e até parcerias científicas.

Como o embargo foi reforçado?

Ao longo das décadas, o embargo foi endurecido por leis adicionais. Em 1992, a Lei Torricelli, aprovada no governo George H. W. Bush, proibiu que empresas subsidiárias de companhias americanas em outros países fizessem negócios com Cuba. Ou seja, uma filial da IBM no Brasil, por exemplo, não poderia fornecer serviços à ilha.

Em 1996, a Lei Helms-Burton deu caráter permanente ao embargo. Ela determinou que qualquer suspensão só poderia ocorrer com aprovação do Congresso dos EUA. Também autorizou sanções contra empresas estrangeiras que operem em Cuba utilizando propriedades nacionalizadas após 1959, o que ampliou a pressão extraterritorial sobre governos e empresas de fora dos EUA.

A lista de entidades restritas

Em fevereiro de 2025, o Departamento de Estado Americano atualizou a relação de instituições cubanas com as quais é proibido manter relações comerciais diretas.

O argumento usado pelo governo americano é que essas entidades estariam ligadas aos setores militar, de inteligência e segurança do Estado cubano. Mas a consequência prática é outra: o isolamento financeiro e comercial de amplas áreas da economia da ilha.

A lista inclui:

  • Ministério das Forças Armadas Revolucionárias (MINFAR)
  • Ministério do Interior (MININT)
  • GAESA, grupo empresarial ligado às Forças Armadas
  • Empresas como Gaviota, CIMEX e Habaguanex, voltadas ao turismo e comércio
  • Redes de hotéis operadas por corporações estrangeiras em parceria com o Estado
  • Marinas, agências de turismo, produtoras de rum e tabaco, centros de convenções e serviços logísticos

Com a lista em vigor, qualquer empresa americana ou associada a bancos e sistemas financeiros que operam nos EUA fica proibida de interagir com esses grupos. Isso reduz drasticamente as possibilidades de investimento, encarece operações básicas e empurra Cuba ainda mais para o isolamento econômico.

O efeito teia

O embargo funciona como uma teia. Não se trata apenas de impedir a venda direta entre Cuba e Estados Unidos. Ele afeta qualquer tentativa de integração econômica da ilha com o resto do mundo. Empresas, bancos e governos evitam vínculos com Cuba por medo de punições. É o isolamento forçado por pressão econômica. E ele segue em vigor há mais de seis décadas.


Cubanos protestam contra o embargo econômico dos Estados Unidos segurando cartaz com os dizeres “Abaixo o bloqueio”, durante manifestação em Havana. A cena reflete a resistência popular às sanções impostas desde 1962, que seguem impactando a vida cotidiana na ilha. Foto: AFP
Impactos do embargo na sociedade cubana

O bloqueio não atinge apenas o governo. Ele dificulta a aquisição de medicamentos, alimentos, peças de reposição e insumos essenciais. Afeta serviços de internet, limita transações bancárias e encarece produtos básicos. O acesso a tecnologias com componentes americanos, mesmo que produzidas em terceiros países, é vetado.

Segundo dados oficiais cubanos, o embargo gerou perdas superiores a 159 bilhões de dólares. Estimativas da ONU apontam prejuízos sociais significativos, sobretudo nas áreas da saúde, energia e transporte.
O argumento americano e a realidade

O governo dos Estados Unidos afirma que o embargo é uma forma de pressionar por democracia e respeito aos direitos humanos. Mas o histórico mostra que países com violações semelhantes ou piores, desde que aliados estratégicos, não recebem tratamento semelhante. A medida é seletiva e tem peso geopolítico.

Cuba é o único país do continente americano submetido a um bloqueio tão prolongado. Isso levanta a pergunta: trata-se de defesa de princípios ou de manutenção de hegemonia?
Votações na ONU: o mundo contra o embargo

Desde 1992, a Assembleia Geral das Nações Unidas vota anualmente uma resolução que condena o embargo dos EUA a Cuba. Em todas as ocasiões, a esmagadora maioria dos países votou a favor do fim das sanções. Os únicos votos contrários recorrentes são dos Estados Unidos e de Israel.

Essas resoluções não são vinculantes, mas têm valor simbólico. Reforçam o isolamento diplomático da política de embargo e pressionam Washington a rever sua postura. Mesmo assim, as sanções seguem ativas.

Mudanças parciais e retrocessos

Durante o governo de Barack Obama, houve um movimento de distensão entre Cuba e Estados Unidos. Em 2015, os dois países restabeleceram relações diplomáticas após mais de cinco décadas de ruptura. A embaixada dos EUA em Havana foi reaberta, e algumas restrições foram afrouxadas. Passou a ser possível viajar à ilha com menos burocracia, e os limites para envio de remessas foram ampliados. Em 2016, Obama se tornou o primeiro presidente americano a visitar Cuba desde 1928.

Foto: STF/AFP/JC


Barack e Michelle Obama desembarcaram em Havana sob chuva fina, em março de 2016. A visita marcou o início de um breve período de reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, após mais de meio século de tensão diplomática. 

O cenário mudou em 2017, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. O governo retomou a lógica de pressão total e adotou mais de 200 medidas para reforçar o bloqueio. Entre elas:Restrições a voos comerciais e cruzeiros saindo dos EUA com destino a Cuba
Redução no limite de envio de remessas por residentes cubano-americanos

Inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo

A retórica também mudou. O discurso da Casa Branca voltou a tratar Cuba como ameaça à segurança nacional. Isso justificou novas sanções e afastou qualquer possibilidade de retomada da política de aproximação.

Com Joe Biden, a expectativa era de reversão, mas a maior parte das restrições permaneceu. Em 2022, algumas flexibilizações foram implementadas. O limite para envio de dinheiro foi elevado, e voos comerciais voltaram a ser autorizados para outras cidades além de Havana.

Mesmo assim, a estrutura do embargo segue intacta. O bloqueio não depende só da vontade política do Executivo. Está amarrado à legislação. E, por isso, continua valendo mesmo quando o tom do discurso muda.

Migração cubana e os efeitos do bloqueio

Mais de dois milhões de cubanos vivem fora da ilha. A maioria está nos Estados Unidos. Esse movimento de saída começou logo após a Revolução de 1959 e continua até hoje, em diferentes formatos. Ao longo das décadas, cubanos deixaram o país por motivos políticos, econômicos ou familiares.

A comunidade cubana que vive nos EUA é diversa e nem sempre pensa da mesma forma. Parte apoia o bloqueio e defende uma política mais dura contra o governo de Cuba. Outra parte mantém laços ativos com a ilha. Envia dinheiro, visita parentes e se posiciona contra as sanções.

Em 2022, o número de cubanos tentando entrar nos Estados Unidos aumentou de forma significativa. Muitos fizeram a travessia pela fronteira com o México. Outros usaram rotas marítimas ou voos até países da América Central. O aumento da migração está diretamente ligado ao agravamento das condições de vida em Cuba. A crise econômica, os impactos do bloqueio e a falta de acesso a produtos e serviços básicos estão entre os principais fatores.

A política dos EUA para migrantes cubanos mistura permissões especiais e medidas restritivas. Durante décadas, cubanos tiveram tratamento diferenciado em relação a outras nacionalidades latinas. Mas isso vem mudando. Hoje, a migração é cada vez mais usada como peça no jogo político entre os dois países.
O papel dos meios de comunicação

A cobertura midiática sobre Cuba nos Estados Unidos costuma reforçar a narrativa do fracasso socialista. Pouco se fala sobre os efeitos do embargo. A censura de plataformas digitais e restrições ao acesso de jornalistas também afetam a circulação de informações.

A produção audiovisual sobre Cuba reflete essa disputa de narrativas. Documentários, filmes de ficção e reportagens mostram diferentes perspectivas sobre a realidade cubana. Muitas dessas produções ajudam a compreender o cotidiano da população e os dilemas enfrentados por quem vive na ilha.

Cuba além dos clichês

Cuba não é só o regime político. É uma sociedade com contradições, histórias diversas, avanços em áreas como saúde e educação, e limitações estruturais profundas. É um país afetado pelo bloqueio, mas também por decisões internas. A crítica ao embargo não implica idealização do governo cubano.

Ao longo das décadas, Cuba construiu redes de solidariedade, investiu em ciência e saúde pública e participou de ações internacionais de cooperação. Mas enfrenta sérios desafios econômicos e sociais.

A disputa pelo imaginário

A relação entre Cuba e Estados Unidos é também uma batalha simbólica. Para os EUA, manter o bloqueio é uma forma de reafirmar autoridade política na região. Para Cuba, resistir ao embargo virou parte do discurso de soberania.

Essa polarização impediu debates mais amplos sobre alternativas econômicas, reformas internas e democratização. A política de isolamento favorece o endurecimento do regime e dificulta avanços sociais reais.

Foto: reprodução

Na foto acima, o chanceler cubano Bruno Rodríguez participa da cerimônia de reabertura da embaixada de Cuba em Washington, em 20 de julho de 2015. O evento marcou um passo simbólico na retomada das relações entre os dois países, mas o fim do embargo comercial ainda depende de decisão do Congresso dos EUA. 

O que está em jogo?

Você não precisa apoiar o regime cubano para perceber que o embargo impõe sofrimento à população. A política externa dos EUA com relação à ilha tem menos a ver com defesa de direitos e mais com controle regional. A manutenção das sanções responde a interesses eleitorais e geopolíticos.

Cuba e Estados Unidos vivem um impasse prolongado. Entender esse embate ajuda a refletir sobre soberania, autodeterminação e as formas de poder no sistema internacional.
O que você pode fazer? Buscar fontes diversas de informação sobre Cuba
Acompanhar debates internacionais sobre o embargo
Ouvir vozes cubanas da ilha e da diáspora
Refletir sobre o papel dos Estados Unidos no cenário global
Questionar a seletividade das sanções econômicas

Conclusão

A relação entre Cuba e Estados Unidos não está no passado. Ela segue viva, tensa e cheia de camadas. São mais de sessenta anos de bloqueio econômico, disputas ideológicas, operações secretas, migrações em massa e reaproximações frustradas. Nada disso se resolve com frases prontas.

Cuba continua tentando manter seu projeto político sob pressão constante. Com erros, limites e contradições, mas também com autonomia diante da maior potência do planeta. Os Estados Unidos seguem impondo um bloqueio que já foi condenado por quase todos os países do mundo, mas que permanece por interesses geopolíticos e disputas internas.

Se você quer entender o presente da América Latina e o papel do imperialismo no século XXI, precisa olhar com atenção para o que acontece entre Cuba e EUA. A história não acabou. E o que está em jogo vai muito além de duas bandeiras.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Urgente: Trump cogita usar ação militar para tomar a Groenlândia

Mundo

Ditador estadunidense quer ocupar território da Dinamarca, implodindo a própria OTAN

Brasil 247, 06 de janeiro de 2026, 18:20 hAtualizado em 06 de janeiro de 2026, 18:25 h

Urgente: Trump cogita usar ação militar para tomar a Groenlândia (Foto: Reuters)

Artigo da Redação Brasil 247

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar forte repercussão internacional ao afirmar que o país “precisa” da Groenlândia por razões de segurança nacional. Segundo a Casa Branca, o governo estadunidense discute diferentes caminhos para adquirir o território semiautônomo ligado à Dinamarca, incluindo, em último caso, o emprego de forças militares.

Em comunicado oficial, a Casa Branca afirmou que Trump deixou claro que a incorporação da Groenlândia é tratada como uma prioridade estratégica. “O presidente e sua equipe estão discutindo uma gama de opções para alcançar esse importante objetivo de política externa e, claro, o uso das Forças Armadas é sempre uma opção à disposição do comandante-em-chefe”, declarou o governo estadunidense.

As declarações ganharam força após Trump reiterar, no fim de semana, que os Estados Unidos “necessitam da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”. O território, localizado no Ártico, é considerado estratégico por sua posição geopolítica e integra o Reino da Dinamarca, que também é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Na segunda-feira (28), a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reagiu de forma dura às declarações vindas de Washington. Ela advertiu que qualquer ataque dos Estados Unidos contra a Groenlândia significaria, na prática, o fim da Otan, aliança militar baseada no princípio de defesa mútua entre seus integrantes.

O debate sobre o futuro da Groenlândia voltou ao centro das atenções após a recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, quando tropas de elite realizaram uma operação para capturar o presidente Nicolás Maduro e levá-lo a Nova York sob acusações relacionadas a drogas e armas. No dia seguinte à ação, Katie Miller, esposa de um dos principais assessores de Trump, publicou em redes sociais um mapa da Groenlândia com as cores da bandeira norte-americana, acompanhado da palavra “EM BREVE”.

Também na segunda-feira (28), o assessor sênior da Casa Branca, Stephen Miller, reforçou publicamente a posição do governo. “É a posição formal do governo dos Estados Unidos que a Groenlândia deveria fazer parte dos Estados Unidos”, afirmou. Em entrevista, ele argumentou que o país exerce papel central na Otan e que, para garantir o controle do Ártico e proteger os interesses da aliança, “obviamente a Groenlândia deveria ser parte dos Estados Unidos”.

Questionado de forma insistente sobre a possibilidade de o governo descartar o uso da força para anexar o território, Miller evitou assumir compromissos e respondeu: “Ninguém vai lutar contra os Estados Unidos pelo futuro da Groenlândia”.

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Jeffrey Sachs denuncia histórico de intervenções dos EUA e defende soberania da Venezuela na ONU

Mundo

Economista afirma no Conselho de Segurança que mudanças de regime impostas por Washington violam a Carta da ONU e aprofundam crises humanitárias

Brasil 247, 06 de janeiro de 2026, 07:23 h

Jeffrey Sachs denuncia histórico de intervenções dos EUA e defende soberania da Venezuela na ONU (Foto: .REUTERS/Max Rossi)

Artigo de Guilherme Levorato

O economista Jeffrey Sachs, presidente da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, fez um pronunciamento contundente durante a reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU realizada na segunda-feira (5), dedicada à operação militar deflagrada pelos Estados Unidos na Venezuela e ao sequestro de Nicolás Maduro. Em sua fala, Sachs afirmou que o centro do debate não deveria ser o caráter do governo venezuelano, mas sim a legalidade do uso da força, da coerção e do estrangulamento econômico por um Estado-membro para decidir o futuro político de outro país.
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No discurso, Jeffrey Sachs sustentou que a prática de intervenções para promover mudanças de regime é uma marca recorrente da política externa dos Estados Unidos desde o pós-guerra, em afronta direta à Carta das Nações Unidas, que proíbe ameaças ou o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados.

Ao contextualizar sua argumentação, Sachs lembrou que, desde 1947, Washington tem recorrido de forma sistemática a guerras, operações secretas e manipulação política para derrubar governos estrangeiros. Ele citou dados documentados pela cientista política Lindsey O’Rourke, segundo os quais os Estados Unidos tentaram ao menos 70 operações de mudança de regime entre 1947 e 1989. Para o economista, o fim da Guerra Fria não representou uma ruptura com esse padrão.

Segundo Sachs, operações desse tipo continuaram nas décadas seguintes sem autorização do Conselho de Segurança, incluindo ações no Iraque, em 2003; na Líbia, em 2011; na Síria, a partir de 2011; em Honduras, em 2009; na Ucrânia, em 2014; e na Venezuela, desde 2002. Ele descreveu um conjunto de métodos recorrentes nessas iniciativas, que vão desde guerras abertas e ações encobertas de inteligência até incitação à desordem, apoio a grupos armados, manipulação da mídia, suborno de autoridades, assassinatos seletivos, operações de falsa bandeira e sanções econômicas destinadas a colapsar a vida civil.

“O uso dessas medidas é ilegal sob a Carta da ONU e, em geral, resulta em violência prolongada, conflitos letais, instabilidade política e sofrimento profundo da população civil”, afirmou Sachs, ao destacar os efeitos humanitários dessas estratégias.

Ao tratar especificamente da Venezuela, o economista afirmou que o histórico de ingerência dos Estados Unidos é “claro e contínuo”. Ele recordou que, em abril de 2002, Washington tinha conhecimento e aprovou uma tentativa de golpe contra o governo venezuelano. Já na década de 2010, segundo Sachs, os Estados Unidos financiaram grupos da sociedade civil envolvidos em protestos antigovernamentais, especialmente em 2014. Após a repressão estatal às manifestações, vieram as sanções econômicas.

Sachs destacou que, em 2015, o então presidente Barack Obama classificou a Venezuela como “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”. Dois anos depois, em 2017, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a discutir abertamente, em um jantar com líderes latino-americanos durante a Assembleia Geral da ONU, a possibilidade de uma invasão militar para derrubar o governo venezuelano.

Entre 2017 e 2020, segundo o economista, as sanções impostas à estatal petrolífera venezuelana tiveram efeitos devastadores. A produção de petróleo caiu 75% nesse período, enquanto o Produto Interno Bruto per capita, ajustado por paridade de poder de compra, recuou 62%. Sachs lembrou ainda que a Assembleia Geral da ONU votou repetidas vezes, por ampla maioria, contra esse tipo de medida coercitiva unilateral, ressaltando que, pelo direito internacional, apenas o Conselho de Segurança tem autoridade para impor sanções.


O economista também mencionou o episódio de janeiro de 2019, quando os Estados Unidos reconheceram unilateralmente Juan Guaidó como “presidente interino” da Venezuela e congelaram cerca de US$ 7 bilhões em ativos soberanos venezuelanos no exterior, transferindo a ele o controle de parte desses recursos. Para Sachs, essas ações fazem parte de um esforço contínuo de mudança de regime que já dura mais de duas décadas.

Ao ampliar a análise para o cenário global recente, Sachs afirmou que, no último ano, os Estados Unidos realizaram bombardeios em sete países — Irã, Iraque, Nigéria, Somália, Síria, Iêmen e Venezuela — sem autorização do Conselho de Segurança e fora das hipóteses de legítima defesa previstas na Carta da ONU. Ele acrescentou que, apenas no último mês, Donald Trump fez ameaças diretas a pelo menos seis países-membros da ONU, incluindo Colômbia, Dinamarca, Irã, México, Nigéria e Venezuela.

Na avaliação de Sachs, os membros do Conselho de Segurança não estavam reunidos para julgar Nicolás Maduro, mas para decidir se o direito internacional e a Carta das Nações Unidas seriam efetivamente defendidos. Ele recorreu à teoria realista das relações internacionais, citando o acadêmico John Mearsheimer, para afirmar que o realismo descreve a “tragédia da política das grandes potências”, mas não oferece uma solução para a paz.

O economista lembrou que a Liga das Nações fracassou nos anos 1930 por não conseguir impor o respeito ao direito internacional, abrindo caminho para a Segunda Guerra Mundial. A ONU, segundo ele, surgiu como uma segunda tentativa da humanidade de colocar a lei acima da anarquia internacional, com o objetivo explícito de poupar as gerações futuras do flagelo da guerra. “Na era nuclear, esse fracasso não pode se repetir. Não haveria uma terceira chance”, advertiu.

Ao concluir, Sachs apresentou uma série de medidas que, em sua avaliação, deveriam ser imediatamente adotadas pelo Conselho de Segurança. Entre elas, a cessação de todas as ameaças e do uso da força contra a Venezuela por parte dos Estados Unidos, o fim do bloqueio naval e de outras medidas militares coercitivas sem autorização da ONU, a retirada de forças militares norte-americanas do entorno do país e a nomeação de um enviado especial do secretário-geral para conduzir esforços diplomáticos.

“Paz e a sobrevivência da humanidade dependem de saber se a Carta das Nações Unidas continuará sendo um instrumento vivo do direito internacional ou se será deixada definhar até a irrelevância”, afirmou Jeffrey Sachs em seu pronunciamento final ao Conselho de Segurança.

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Brasil tem superávit comercial de US$ 68,3 bi em 2025 e governo vê saldo de até US$ 90 bi em 2026

Economia

Pela estimativa do MDIC, este ano deve ser encerrado com exportações entre US$ 340 bilhões e US$ 380 bilhões

Brasil 247, 06 de janeiro de 2026, 16:16 h

Contêineres no Porto de Santos (SP) (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Artigo de Leonardo Sobreira

BRASÍLIA, 6 Jan. (Reuters) - O Brasil encerrou 2025 com saldo positivo de US$68,293 bilhões na balança comercial, terceiro melhor resultado anual já registrado, com recorde de exportações e crescimento mais forte das importações, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulgados nesta terça-feira.

Também nesta terça, o MDIC apresentou sua projeção para o saldo comercial em 2026, prevendo um resultado positivo de US$70 bilhões a US$90 bilhões.

Pela estimativa do MDIC, este ano deve ser encerrado com exportações entre US$340 bilhões e US$380 bilhões, enquanto as importações ficariam entre US$270 bilhões e US$290 bilhões.

O superávit de US$68,3 bilhões da balança comercial brasileira em 2025 ficou acima das previsões do governo. O MDIC previa um saldo positivo de US$60,9 bilhões para o ano, em estimativa informada em outubro.

2025 - O resultado comercial do ano passado reflete um valor de US$348,7 bilhões em exportações -- patamar mais alto da série histórica -- e de US$280,4 bilhões em importações, nível também recorde.

As exportações em 2025 ficaram 3,5% acima do resultado do ano anterior, consequência de aumento do volume vendido, mais do que compensando um recuo nos preços médios dos produtos. Já as importações subiram com mais força, alta de 6,7% em relação ao verificado em 2024.

Em meio ao tarifaço implementado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, houve recuo nos embarques para o país norte-americano, uma queda de 6,6% no ano, segundo o MDIC. A participação do país norte-americano no total das exportações brasileiras caiu de 12,0% em 2024 para 10,8% em 2025.


Por outro lado, as vendas para China cresceram 6% no período, levando o país asiático a responder por uma fatia de 28,7% das exportações brasileiras no ano passado, ante 28,0% em 2024. A China é o maior comprador de produtos do país.

Os Estados Unidos impuseram em agosto do ano passado uma tarifa de 50% sobre uma série de produtos brasileiros, provocando alarme em setores produtivos e levando o governo a anunciar medidas emergenciais de crédito e alívio tributário.

Enquanto produtores buscavam mercados alternativos para direcionamento dos produtos, negociações levaram os Estados Unidos a ampliar exceções à tarifa ao longo do ano, aumentando a lista de itens poupados da cobrança. Em novembro o governo estimou que 22% das exportações para os EUA seguiam sujeitas à taxa de 50%.

No recorte por setores, as vendas do Brasil ao exterior cresceram com mais força na agropecuária (+7,1%), seguida da indústria de transformação (+3,8%). Por outro lado, as exportações da indústria extrativa caíram 0,7%.

O saldo anual foi incrementado pelo resultado de dezembro, um superávit de US$9,633 bilhões, com US$31,037 bilhões em exportações e US$21,405 bilhões em importações.

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Fundeb 2026: veja quanto cada município vai receber para investir em educação

Mais recursos para a educação Publica Brasileira também significa valorização dos professores

Conecta professores, 3 de janeiro de 2026

Artigo de Leonardo Lima


A definição dos valores do Fundeb 2026 marca mais um passo decisivo para o planejamento da educação básica no Brasil. A Portaria Interministerial nº 14/2025, publicada no Diário Oficial da União, trouxe a estimativa oficial de receitas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação para o próximo exercício. Ao todo, o montante previsto chega a R$ 370,3 bilhões, valor que deve impactar diretamente cerca de 4 mil municípios em todo o país.

O crescimento estimado é de aproximadamente 9,5% em relação a 2025, reforçando o papel do Fundeb como principal instrumento de financiamento da educação pública brasileira. Os recursos servirão de base para que estados e prefeituras organizem seus orçamentos, planejem investimentos e garantam a continuidade de políticas educacionais essenciais.
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De onde vêm os recursos do Fundeb 2026

Segundo a portaria, R$ 301,1 bilhões do total estimado terão origem nas contribuições de estados, Distrito Federal e municípios. Já a complementação da União alcançará R$ 69,2 bilhões, o equivalente a 23% do montante arrecadado pelos entes federativos.

Esse modelo de financiamento busca reduzir desigualdades regionais e assegurar que redes de ensino com menor capacidade arrecadatória consigam manter um padrão mínimo de investimento por aluno. Na prática, o Fundeb funciona como um mecanismo de redistribuição, direcionando mais recursos para quem mais precisa.

Valores de referência por aluno em 2026

Além do volume total de recursos, a Portaria Interministerial nº 14/2025 definiu os principais indicadores que orientam a distribuição do Fundeb em todo o país. Para 2026, os valores mínimos nacionais ficaram estabelecidos em:

VAAF-MIN (Valor Anual Mínimo por Aluno Fundeb): R$ 5.962,79
VAAT-MIN (Valor Aluno Ano Total): R$ 10.194,38

Esses parâmetros são fundamentais para o planejamento das secretarias municipais e estaduais de educação, pois indicam o patamar mínimo de investimento por estudante, considerando diferenças socioeconômicas e regionais.
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Como funcionam as complementações da União no Fundeb 2026

A complementação federal será distribuída em três modalidades, alcançando aproximadamente 4 mil municípios e diversas redes estaduais de ensino.

1. Complementação VAAF (10%)
Com valor estimado em R$ 30,1 bilhões, essa modalidade beneficia 1.849 municípios em dez estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio de Janeiro. O objetivo é garantir que essas redes alcancem o valor mínimo anual por aluno definido nacionalmente.

2. Complementação VAAT (10,5%)
A modalidade VAAT contará com cerca de R$ 31,6 bilhões em 2026. Ela beneficiará 2.479 municípios, distribuídos em 26 estados, além das redes estaduais do Maranhão e do Piauí. O foco é assegurar que o investimento total por aluno atinja o padrão mínimo nacional, considerando todas as fontes de recursos vinculados à educação.

3. Complementação VAAR (2,5%)
Voltada a resultados educacionais, a complementação VAAR terá um volume estimado de R$ 7,5 bilhões. Serão contempladas 3.034 redes de ensino, sendo 3.025 municipais e nove estaduais. Essa modalidade busca estimular melhorias na qualidade do ensino, premiando redes que apresentam avanços em indicadores educacionais

Em relação a 2025, as mudanças são significativas. 328 municípios passarão a receber a complementação VAAR, enquanto 136 deixarão de ser beneficiados. No caso do VAAT, 286 municípios entram no benefício pela primeira vez, e 179 deixam de receber, o que reforça a importância de uma gestão eficiente e atenta aos critérios do Fundo.

Impactos diretos do Fundeb 2026 para professores e alunos

Mais do que números, o Fundeb 2026 representa impactos concretos no dia a dia das escolas públicas. 

Entre os principais efeitos esperados estão:

* Valorização dos professores, com possibilidade de aplicação dos recursos em salários, planos de carreira, formação continuada e programas de incentivo;

* Melhoria da infraestrutura escolar, incluindo manutenção de prédios, compra de materiais didáticos e ampliação de escolas;

* Redução das desigualdades educacionais, ao fortalecer redes localizadas em municípios com menor arrecadação;

Expansão da educação em tempo integral, estimulada pela Emenda Constitucional nº 135/2024, que prevê a destinação de 4% da receita de impostos vinculada ao Fundeb para criação de novas matrículas nessa modalidade.

Embora a regulamentação detalhada do uso desses recursos ainda esteja em discussão, o direcionamento já sinaliza uma prioridade clara para a ampliação da jornada escolar.

Planejamento e atenção das prefeituras

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) alerta que o volume expressivo de recursos do Fundeb 2026 exige planejamento rigoroso e atenção às regras legais. As prefeituras devem priorizar:

Planejamento financeiro detalhado;

Aplicação correta de cada tipo de complementação;

Transparência na execução orçamentária;

Observância das normas relacionadas à educação em tempo integral.

Quando bem gerido, o Fundeb 2026 tem potencial para transformar a realidade educacional de milhares de municípios, promovendo mais oportunidades de aprendizagem, fortalecendo o trabalho docente e garantindo educação pública de qualidade para milhões de estudantes em todo o Brasil.

Descubra quanto cada município vai receber para investir em educação


Fundeb 2026: VAAF, VAAT e VAAR explicados para gestores e educadores